Anatomia vegetariana

 

Cartaz da International Vegetarian Union, campanha "Vegetais é tudo o que o teu corpo precisa".

Não acho, somos omnívoros por natureza e assim nos fizemos homo sapiens sapiens. Mas gosto da imagem, ressalvando que o gengibre nem por isso dá a volta à tripa.

Vegetarianismo Ético (II)

continuação daqui

 

 Apesar disso, o homem continua a matar e torturar animais em larga escala para satisfazer os seus interesses mais supérfulos, sendo o mais cruel e gritante exemplo disso a criação em série de animais em condições absolutamente desumanas para satisfazer as suas preferências gastronómicas. 

 
Penso que hoje em dia, ao contrário do que se passava há uns anos atrás em que os defensores do vegetarianismo tinham que procurar persuadir as  pessoas de que o regime vegetariano é saudável apresentando uma miríade  de tabelas de valores nutricionais dos alimentos, declarações de organismos  de saúde internacionais e de nutricionistas reputados, etc, já não é  necessário procurar fundamentar a afirmação de que o regime alimentar  vegetariano é saudável e nutricionalmente adequado à alimentação dos  seres humanos. É a própria OMS que o afirma e informação avalizada sobre o tema pode ser encontrada em livros e publicações da especialidade e na  internet. 
 
Ultrapassado este primeiro obstáculo, existe também um importante  argumento a ter em conta para a adopção do regime alimentar vegetariano: o  argumento ecológico. 
 
Deixo apenas alguns dados para análise:  

a) Os vegetais fornecem pelo menos 10 vezes mais proteínas por hectar  do que a carne. 
 
 
 
b) Mais de metade da água consumida nos Estados Unidos é gasta na  criação de gado. 
 
c) Meio quilo de carne exige 50 vezes mais água do que a quantidade  equivalente de trigo, concluindo a revista Newsweek que “a água  necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro”. 
 
d) A criação intensiva de animais é a indústria responsável por uma parte  substancial da poluição dos nossos recursos hídricos. 
 
e) Nos últimos 25 anos foram destruídas quase metade das florestas tropicais da América do Norte para plantações de cereal para  alimentação de gado. 
 
f) Por fim, citando Peter Singer, o maior argumento de todos, uma vez que se aplica tanto aos defensores dos animais como a quem estende as  suas preocupações éticas apenas aos seres humanos: “ a comida  desperdiçada na produção de animais nas nações ricas seria suficiente,  se fosse adequadamente distribuída, para pôr fim tanto à fome como à 
subnutrição em todo o mundo”.
 
Daí que seja lícito afirmar que o respeito  pelos animais não é concorrente com o respeito pelos seres  humanos. É, pelo contrário, complementar. 
 
Por tudo isto, o vegetarianismo merece pelo menos ser considerado como  uma hipótese séria para uma atitude mais justa perante os animais, os seres  humanos, e o próprio planeta. 
 
Por último, uma palavra às pessoas que aceitam os argumentos acima  expostos mas que afirmam que não vale a pena deixar de comer carne  porque “uma só pessoa deixar de comer carne não vai diminuir o número de  animais que é criado nas unidades de criação intensiva” ou que “o animal que  têm no prato já está morto e nada o pode ressuscitar”: 
 
É evidente que a criação intensiva de animais não vai acabar de um  momento para o outro, assim como é inverosímil pensarmos que todas as  pessoas se vão tornar vegetarianas de uma só vez. Cada pessoa consome  em média 4.022 animais ao longo de toda a sua vida. O máximo que  podemos almejar, e essa será já uma grande vitória, é juntarmo-nos aos 
milhões de pessoas que já tomaram essa decisão e se recusam a comer a  carne de animais torturados e mortos e, assim, diminuir gradualmente a  procura de produtos animais, diminuindo o lucro obtido por esta indústria e  levando a que menos animais sejam criados intensivamente e abatidos no futuro. 
 
A este argumento acresce um outro, talvez ainda mais importante, para  deixarmos de consumir produtos derivados da indústria da carne: o facto de  estarmos a fazer a coisa certa; de sabermos que não contribuímos de forma  directa para o florescimento de uma actividade que causa um sofrimento  intenso a milhões de animais todos os anos. Madre Teresa de Calcutá dizia:  “o meu trabalho pode ser uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria  menor”. 
 
Em jeito de conclusão, fica um trecho da obra do conhecido filósofo Tom  Regan, “The Case for Animal Rights”:  “But prejudices die hard, all the more so when, as in the present case, they  are insulated by widespread secular customs and religious beliefs, sustained  by large and powerful economic interests, and protected by the common law.  To overcome the collective entropy of these forces-against-change will not be  easy. The animal rights movement is not for the faint of heart. Success requires nothing less than a revolution in our culture’s thought and action.” 
 

 

 

 

Vegetarianismo ético (I)

 

Peter Singer, no início do seu mundialmente famoso livro “Libertação Animal”, por muitos considerado a Bíblia do vegetarianismo, conta um episódio passado no Reino Unido em que uma defensora dos direitos dos animais o convidou para lanchar e conversar sobre o tema da defesa animal, e lhe serviu sanduíches de fiambre. 

 

Em 1989, 14 anos mais tarde, na edição revista do livro Peter Singer refere que felizmente hoje em dia os activistas do Movimento de Libertação Animal e os membros das Associações de Defesa Animal são já todos vegetarianos e não servem sanduíches de fiambre aos seus convidados. 

 

Embora isso possa ser verdade no Reino Unido, não o é certamente em Portugal nem em muitos outros países. 

 

Na realidade, muitas (atrevo-me mesmo a dizer a maioria) das pessoas que simpatizam com a causa da defesa dos animais e é contra as formas de exploração de que milhões de animais são vítimas às mãos dos humanos, continua a contribuir para a mais brutal de todas estas formas de exploração, e que maior sofrimento causa ao maior número de animais em todo o mundo: a indústria da criação intensiva de animais para alimentação. 

 

Há vários motivos para que seja assim: 

a) A maioria das pessoas nunca visitou um matadouro ou uma unidade de criação intensiva de animais, logo nunca viu (nem ouviu) a agonia prolongada que constitui a vida das vacas, porcos e galinhas que sofrem dentro deles, até ao dia em que sofrem uma morte cruel e lenta no momento do abate. 

 

b) A força do hábito. Quase todas as pessoas são habituadas desde a infância a comer carne e não só lhes custa a imaginar como poderiam sobreviver sem ela, como não desejam abandonar o prazer que retiram das refeições compostas por carnes de animais. 

 

c) As pessoas tendem a simpatizar mais e a sentir mais compaixão pelos animais que lhes são mais próximos e com quem convivem diariamente (cães e gatos) do que com aqueles que nunca tocaram ou observaram de perto. Daí que fiquem chocadas com a criação de cães e gatos para alimentação em alguns países asiáticos mas não se choquem com a criação muito mais maciça e brutal de outros mamíferos como as vacas ou os porcos para o mesmo fim. 

 

A estes motivos acresce um outro, que se prende com o facto de muitas pessoas se preocuparem com os animais apenas por gostarem deles. Por sentirem compaixão por eles, por se enternecerem com o olhar desolado dos cães abandonados com que se cruzam. No fundo, por se sentirem sentimentalmente ligados a eles. 

Gostam mais do seu animal de estimação do que de todos os outros animais da mesma espécie, gostam mais de gatos do que de cães ou mais de cães do que de porcos, e dirigem a sua consideração e instinto de protecção apenas aos animais da sua preferência. 

Assim, não baseiam a sua conduta perante os animais em princípios éticos ou morais, mas nas suas emoções. 

Na realidade, todos os animais merecem ser tratados de acordo com o seu valor intrínseco, independentemente da nossa simpatia por eles. Devem ser respeitados enquanto indivíduos que são capazes de sentir dor e prazer, e que por isso não podem ser considerados como meros instrumentos de satisfação dos nossos interesses. É um princípio de Justiça básico que assim o exige. 

 

continua