"Cambroens" de Lisboa…


Não perdendo nem um minuto a imaginar os “ses” do 25 de Novembro de 1975, deveremos antes salientar algo de infinitamente mais útil, como a exposição a partir de hoje patente no Museu da Cidade de Lisboa. Consiste numa recriação virtual de alguns dos principais pontos de interesse da capital destruída pelo terramoto de 1755. Note-se que esta iniciativa tem o “alto patrocínio” da Câmara Municipal de Lisboa, uma entidade que nas últimas décadas se afadiga em ser protagonista do novo cataclismo destruidor que tem arrasado esta cidade, vítima da edilidade sempre obcecada com cambroens que façam os amigos arredondar as suas contas bancárias in e off-shore. Mais uma ironia da nossa “estória”, bem ao nível dos seus principais protagonistas.

A propósito de “cambroens”, aqui deixamos o seguinte comunicado, recebido via Octanas:

“Comunicado à Imprensa

O Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA), da Universidade de Évora, em colaboração com a empresa Beta Technologies e o King’s Visualisation Lab – King’s College London, está a desenvolver uma recriação virtual da Lisboa destruída pelo terramoto de 1755, através da plataforma de mundos virtuais Second Life®.
Este projecto, Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré – Terramoto, constitui-se como um projecto pioneiro em contexto nacional e internacional, pela abrangência do objecto de estudo e potencialidades do formato. Tem sido apresentado com sucesso em várias conferências internacionais.
Através da utilização de um avatar, irá permitir ao visitante a imersão numa realidade arquitectónica, social e cultural desaparecida. O público poderá visitar a Lisboa das vésperas do terramoto, os interiores dos seus edifícios mais emblemáticos e assistir ou participar numa procissão, tourada, auto de fé, ou espectáculo de ópera http://lisbon-pre-1755-earthquake.org/; http://vimeo.com/17044721
Derivando do sucesso da recriação da Ópera do Tejo de D. José I (http://operadotejo.org/), igualmente em Second Life®, concebida e realizada pela Universidade Aberta e empresa Beta Technologies, em 2005, reúne alguns dos respectivos investigadores a que se veio associar uma larga equipa de especialistas da história da cidade, do urbanismo, da arquitectura e da paisagem; da criação de realidades virtuais e da aplicação dos recursos da informática à investigação e divulgação da História.
Porque consideramos que a pesquisa científica deve ser um processo de partilha e de franca comunicação entre investigadores, contactámos no início de 2009 a Câmara Municipal de Lisboa, através da respectiva Vereação da Cultura, propondo uma parceria com o projecto de animação 3D em desenvolvimento pelo Museu da Cidade.
Dada a tecnologia de ponta que estamos a utilizar, que permite a interacção dos utilizadores num espaço comum de fácil construção; a actualização permanente, em tempo real, do objecto de estudo e a imersão do visitante no ambiente virtual, o que não está ao alcance das tecnologias de animação 3D, como a que está a ser utilizada pelo Museu da Cidade, a vereação da Cultura mostrou um efectivo interesse numa eventual parceria, ficando de estudar mais detalhadamente o assunto.
No seguimento deste encontro, convidámos a Vereação da Cultura da CML, bem como a Directora do Museu da Cidade, a estarem presentes no workshop internacional Virtual Historic Cities: reinventing urban research, organizado pelo CHAIA a 21 de Maio do corrente ano em Lisboa e que trouxe pela primeira vez a Portugal Bernard Frischer, Director do Virtual World Heritage Laboratory, da Universidade da Virgínia, e coordenador do projecto de recriação virtual da Roma Clássica, Rome Reborn. Neste workshop, participou ainda Richard Beacham, director do King’s Visualisation Lab – King’s College London, especialista na aplicação das tecnologias de mundos virtuais ao estudo do Património Cultural.
Neste contexto, apresentámos o Prof. Bernard Frischer aos representantes da CML e Museu da Cidade presentes no workshop, Dr. Francisco da Mota Veiga e Dr.ª Ana Cristina Leite, e acompanhámos o referido investigador à visita que efectuou ao Museu da Cidade, no qual teve a oportunidade de conhecer o projecto aí em desenvolvimento.
Ainda a aguardar uma resposta da CML, foi com surpresa e profundo desagrado, que tomámos conhecimento da entrevista a Bernard Frischer que consta da edição de Novembro da Agenda Cultural da CML.
Utilizando manifestamente o Prof. Bernard Frischer para a validação científica do respectivo projecto 3D, a CML e o Museu da Cidade de Lisboa, não mencionam uma única vez o CHAIA e o projecto Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré – Terramoto, através dos quais tiveram a oportunidade de conhecer este investigador americano. Todas as notícias posteriores sobre o lançamento do projecto no Museu da Cidade, a 25 de Novembro, omitem este facto, utilizando assim de forma abusiva o trabalho científico desenvolvido pela equipa do CHAIA. A ausência de uma resposta à nossa proposta de parceria vem agravar este facto.
Como elementos do Conselho Científico do CHAIA e da comunidade científica que este representa, não podemos deixar de manifestar o mais profundo desagrado por esta situação e de denunciar esta atitude pouco ética por parte da Câmara Municipal de Lisboa e do Museu da Cidade.

24 de Novembro de 2010,

Alexandra Gago da Câmara
Helena Murteira
Paulo Rodrigues
Investigadores do Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA), da Universidade de Évora e coordenadores do projecto Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré – Terramoto”

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