"Cambroens" de Lisboa…


Não perdendo nem um minuto a imaginar os “ses” do 25 de Novembro de 1975, deveremos antes salientar algo de infinitamente mais útil, como a exposição a partir de hoje patente no Museu da Cidade de Lisboa. Consiste numa recriação virtual de alguns dos principais pontos de interesse da capital destruída pelo terramoto de 1755. Note-se que esta iniciativa tem o “alto patrocínio” da Câmara Municipal de Lisboa, uma entidade que nas últimas décadas se afadiga em ser protagonista do novo cataclismo destruidor que tem arrasado esta cidade, vítima da edilidade sempre obcecada com cambroens que façam os amigos arredondar as suas contas bancárias in e off-shore. Mais uma ironia da nossa “estória”, bem ao nível dos seus principais protagonistas.

A propósito de “cambroens”, aqui deixamos o seguinte comunicado, recebido via Octanas:

[Read more…]

Contributo do Terramoto de 1755 para as expressões populares

Após o terramoto do Haiti, este blogue preocupou-se em divulgar não só os cuidados a ter em tal caso, como a aprofundar o célebre Terramoto de 1755, bem como o histórico dos sismos em Portugal. Fez-se mesmo um cuidadoso caderno – onde, possivelmente este texto também vai parar -, dedicado ao tema.

Passado o terramoto do Haiti, o assunto esmoreceu, apesar do recente caso do Chile.

Ora, lendo aquele dossier, apercebo-me que ninguém tratou de abordar o enorme contributo que o Terramoto de 1755 e as suas consequências trouxeram para as expressões populares. Haverá, até, quem desconheça a origem de algumas frases que, no entanto, usa de modo rotineiro.

É o caso da expressão: “Resvés, Campo de Ourique”.

Ao que parece, esta expressão surgiu pelo facto do mar, após o sismo, ter invadido Lisboa e chegado às imediações do Campo de Ourique.

Mas há mais…

Durante o sismo, ouviu-se por toda a Lisboa um enorme estrondo: tinham os Conventos do Carmo e da Trindade. Terá daqui surgido a expressão “Cai o Carmo e a Trindade”.

Fazer tijolo” terá resultado do facto de ter sido usada, para a reconstrução de Lisboa, argila proveniente de antigos cemitérios árabes, sendo por vezes encontradas ossadas.

As catástrofes são marcantes, e dificilmente as marcas não se fazem sentir na cultura dos povos.

Acima de tudo, serve este texto para lembrar que o que usamos com vulgaridade, tem muitas vezes origem em algo de único, e muitas vezes trágico.

O Terramoto de 1755 e a cultura europeia da época

Em textos anteriores, vimos já que se perdeu muita coisa importante no Terramoto de 1755 – os seis hospitais da cidade, incluindo o de Todos-os-Santos, 33 palácios da grande nobreza, o Palácio Real, a Patriarcal, o Arquivo Real, a Casa da Índia, o Cais da Pedra, a Alfândega palácios, igrejas, bibliotecas, a faustosa Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes… Na «Gazeta de Lisboa» do dia 6 de Novembro, afirmava-se que «O dia primeiro do corrente mês ficará memorável pelos terremotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade». Diga-se, de passagem, que a «Gazeta» nunca interrompeu a sua publicação devido ao sismo, constituindo uma importante fonte de informação sobre o que aconteceu. Vimos já, como dizia, o que se perdeu, relação enriquecida com um excelente comentário do aventador Nuno Castelo-Branco.

O que se ganhou, também sabemos: uma cidade nova, muito moderna para a época em que foi construída e, pormenor importante, edificada de acordo com um sistema anti-sísmico – a famosa estrutura flexível de madeira dos edifícios, «em gaiola». Como disse José Augusto França, a nova Lisboa saída do inspirado traço de Eugénio dos Santos, surge como uma autêntica «cidade das luzes», uma obra emblemática do espírito do iluminismo. [Read more…]

As interpretações dadas, na época, às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #3

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).
Continuação daqui

Analisando as opiniões dos diversos autores setecentistas sobre a génese dos terramotos, recolhe-se a impressão de que todos eles dizem a mesma coisa embora, na aparência, se mostrem em discordância entre si, desfavorecendo certos pormenores e enaltecendo outros. Na verdade reconhece-se que é o fogo que em todas as teorias expostas se apresenta como o elemento indispensável à eclosão do abalo de terra, ou actuando directamente ou inflamando as terras combustíveis ou vaporizando a água ou dilatando o ar. Acreditava-se na existência de um fogo, contido nas tais cavernas denominadas pirofilácios, que poderia comunicar, através de uma rede de canais subterrâneos, com as cavernas onde se continham os outros elementos, e nelas provocar os seus efeitos. Mas, que poderia ser esse fogo? Não seria ele o próprio Inferno de que fala a Sagrada Escritura? Veríssimo de Mendonça, irmão do autor da História Universal dos Terremotos, não tem hesitações a esse respeito: «He sem duvida,» – escreve – «que no centro da terra há o fogo do Inferno, que tantas vezes nos lembra a Escriptura Sagrada. E ainda que este fogo seja destinado para o tormento das almas dos condemnados, e eterna satisfação das Divinas offensas, sempre he verdadeiro fogo, e da mesma natureza, que o elementar; bem que pela matéria sulphurea, e betuminoza seja mais denso, e abrazador». [Read more…]

As interpretações dadas, na época , às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #2

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).

Continuação daqui

O terramoto de 1755 deu origem a grande número de escritos que imediatamente vieram a público e em que os seus autores procuraram interpretar as causas do acontecimento. É interessante notar-se que tendo a cidade de Lisboa ficado praticamente destruída, logo as tipografias surgiram do caos para se entregarem à composição e à impressão dos textos que lhes eram apresentados para o efeito. Não é uma só mas diversas oficinas tipográficas lisboetas que recomeçam de imediato o seu labor tão tragicamente interrompido, o que se explica pelo hábil aproveitamento de uma oportunidade excepcional de comerciar colocando nas mãos do público, fortemente sensibilizado, notícias do terramoto. Poderíamos citar cerca de quatro dezenas de trabalhos escritos sobre o sismo, publicados em 1756. O interesse público por tais trabalhos prolongou-se até ao fim da década dos anos sessenta. [Read more…]

As interpretações dadas, na época , às causas do terremoto de 1 de Novembro de 1755 #1

Comunicação apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987 pelo Académico efectivo Rómulo de Carvalho (também conhecido como António Gedeão).

Em 1 de Novembro de 1755, pelas nove horas e três quartos da manhã, começaram a sentir os habitantes de Lisboa, com espanto e angústia, que o chão lhes tremia por debaixo dos pés. O tremor fora antecedido de um ruído tumultuoso que vinha do interior da terra e que, por si só, não seria assustador, de acordo com a descrição de um contemporâneo que o comparou ao «de muitos coches correndo». E acrescenta: «de modo que os que estávamos na Igreja da Senhora das Necessidades, onde os Soberanos costumão ir aos sabbados, julgámos que chegava Sua Majestade».

Em breves instantes o tremor, que se iniciara por uma sacudidela lenta, cresceu com grande intensidade. As paredes dos edifícios começaram a dar de si, a estalar, a abrir fendas e em breve se desmoronaram abatendo-se sobre as pessoas que alucinadamente fugiam de suas casas, correndo pelas ruas. Era um sábado, e dia santificado, dia de Todos-os-Santos. Por ser dia de especial devoção, e por ser de manhã, estavam as igrejas a transbordar de fiéis que assistiam às missas, o que foi causa de grande mortandade. As pedras das abóbadas dos templos, as colunas dos altares, as paredes em redor, abateram-se abruptamente sobre as pessoas desvairadas e indefesas, erguendo nuvens de poeira que sufocavam os poucos que ainda conseguiam fugir a tempo. [Read more…]

O grande terramoto de 1755

O sismo que conhecemos como o Terramoto de 1755, é por muitos considerado como o maior sismo de que há notícia histórica. Lisboa, por ser a mais importante cidade atingida, deu-lhe o nome, mas o abalo foi sentido com violência também no Algarve, no Sul de Espanha e em Marrocos. Sem causar prejuízos, sentiu-se em toda a Europa, nos Açores e na Madeira. Para Norte de Lisboa, a intensidade foi sendo menor, embora registando-se danos em Alenquer, Torres Vedras e Óbidos.

Em Lisboa, no dia um de Novembro, um sábado, o tempo estava quente para a época, atribuindo-se essa circunstância a uma antecipação do Verão de São Martinho. A temperatura andava na ordem do 14 graus centígrados. Em 31 de Outubro a maré atrasara-se mais de duas horas. A hora a que o sismo teve início é objecto de alguma controvérsia, podendo ser calculado entre as 9,30 e as 9,45. [Read more…]

Sismos e Património

Domingo, 1 de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, a cidade de Lagos acordou com um tempo primaveril. Muitas pessoas acorreram às igrejas para celebrar a missa.

Sentia-se no ar um odor a enxofre.

Por volta das nove e meia da manhã ouviu-se um rugido medonho.

Poucos minutos depois a terra começou a tremer. Abriram-se fendas no chão e muitos edifícios caíram.

Cerca de quinze minutos depois o mar recuou, deixando as praias em seco. De seguida, uma vaga gigante, ou melhor, uma enorme massa de água, surgiu do lado Sueste da Baía de Lagos e abateu-se sobre a frente ribeirinha da cidade, penetrando terra adentro até à zona de S. João. A esta vaga seguiram-se duas outras, intervaladas de pouco mais de dez minutos. A última foi a mais destruidora, não só pela entrada de uma massa de água com cerca de seis metros de altura no interior da estrutura urbana, como principalmente pelo seu refluxo, que arrastou pessoas, construções, haveres e víveres para o mar.

Descrições da época relatam este terrível acontecimento.

 “Pelas 9 ½ horas da manhã do predicto 1º de Novembro, estando o dia claro e sereno como d’estio, vento N. O., ouvio-se um grande trovão surdo; logo passado 3 ou 4 minutos principiou a tremer a terra com espantosa violência; o mar recolheo-se em parte mais de 20 braças, deixando as praias em seco; e arremettendo immediatamente para a terra com tamanho ímpeto, que entrou por ella dentro mais de uma légua, sobrepujando as mais altas rochas; tornando a retrair-se e rompendo por mais três vezes dentro de poucos minutos, arrastando no fluxo e refluxo enormes massas de penhascos e edifícios; e deixando por isso arrazadas quasi todas as povoações marítimas.”

“Continuou a terra a tremer até 20 d’agosto seguinte com poucos dias de interpolação, principalmente nos primeiros 5 mezes, quasi sempre de noite nos quartos de lua nova e velha.” [Read more…]