O PCP e os Anarquistas

18 janEdgar Rodrigues não foi exactamente um historiador do movimento operário português: prefiro considerá-lo um empenhado militante anarquista que no exílio se dedicou à memória da sua causa, e leio este excerto da sua obra como um testemunho, discutível, mas a ter em conta.

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A CGT (…) Mobilizou os seus elementos mais destacados ainda em liberdade, promoveu reuniões e por fim elaborou um plano de acção insurreccional para todo o país. Fez contactos com a Federação das Associações Operárias, ligada ao PS, com Organismos Sindicais Autónomos, e procurou a Comissão Inter-Sindical, subordinada à ISV, sob comando do PCP, que também aderiu, em princípio. Todos ficaram de acordo! Não houve indecisões nem alterações durante os primeiros contactos! Nasceu então a Comissão Coordenadora para congregar todas as forças proletárias dispostas a enfrentar o fascismo (…).

Mas a CGT ignorava que a Comissão Inter-Sindical, sem maior expressão nos meios operários nessa época, dependia do “Sim” da III Internacional e do seu representante, membro da Tcheka, no PCP. Foi o seu grande erro! Isto porque, quando o alto comando do PCP e o delegado da III Internacional perceberam que o êxito em seu favor era nenhum, já que era minoria no contexto do movimento, passou a recuar, a sabotar. A princípio foram os pedidos de adiamento de data, depois vieram as reformulações dos planos, os boatos de contactos e acordos com políticos, as alegações de que era preciso muito dinheiro, e assim por diante. Quando a Comissão percebeu já era tarde, muito tarde!

(…)

No final de 1933 as prisões estavam cheias. (…) Só a Comissão Inter-Sindical parecia intocável… na sua marcha à ré.

(…)

Tempos depois Bento Gonçalves, então secretário-geral do PCP, tornava pública a sua opinião: “Qualificamos de anarqueirada todas as acções de carácter sedicioso e isolado que tiveram lugar no dia 18 de Janeiro. Realmente elas foram a expressão das tendências anarquistas ainda enraizadas no movimento sindical português.”

Nesta batalha cabe salientar Arnaldo Simões Januário, ex-barbeiro de Salazar, severamente castigado por isso, que num gesto heróico assume a responsabilidade total pelo movimento de Janeiro de 1934, ainda que a Tcheka portuguesa não o aceitasse, já que em seus propósitos estava o de esmagar o movimento anarco-sindicalista, um espinho na garganta fascista, prender e deportar os anarquistas.

Edgar Rodrigues, A Resistência Anarco-Sindicalista em Portugal (1922-1939)

Lembrei-me deste texto aquando da manifestação contra a NATO sobre a qual recolho o testemunho do Ricardo Noronha: “É verdade e eu pude ver, que elementos do PCP solicitaram ao Corpo de Intervenção que bloqueasse e vigiasse os movimentos de manifestantes que não estavam enquadrados pelo partido ou por um dos seus apêndices.”

Entre 1934 e 2010 no PCP não houve grandes mudanças. Nasceu do anarco-sindicalismo e toda a vida vai tentar matar o pai. Complexos.

Manifestação anti-Nato

Comments

  1. Baldaquiana says:

    Pertinente o artigo, JJ Cardoso.
    Quanto à manifestação contra a NATO eu estive lá. No final, durante os discursos nos Restauradores, comecei a subir a avenida para me juntar aos “perigosos terroristas anarquistas” que se manifestavam mais acima, enclausurados por um desmesurado aparato policial e fui praticamente barrada por um elemento do piquete de “segurança” da manifestação que me disse: “camarada, não é conveniente irem lá para cima.” Perguntei porquê e a resposta foi: “é que pode haver problemas!”
    É previsível que haja, quando centenas de polícias afrontam outras poucas centenas de manifestantes pacíficos. O que não seria tão previsível era o virar de costas do PC. Mas infelizmente, sectarismo oblige!

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