Crioestaminal: como não comunicar em saúde

A Crioestaminal foi a empresa pioneira em Portugal no processamento e criopreservação de células estaminais. Quando a minha mulher engravidou, mesmo com enormes dúvidas sobre o real benefício futuro, decidimos optar pelo serviço. Foi mais por descargo de consciência, confesso.

 

Quando penso na Crioestaminal recordo alguns seguros que faço: servem de alívio e sempre na esperança de nunca os ter de usar. Ao longo destes anos fui espectador atento da evolução da criopreservação de células estaminais do sangue e tecido do cordão umbilical e reconheço a importância da investigação e todo o potencial no combate futuro a determinadas doenças. Entretanto, o núcleo fundador da Crioestaminal decidiu vender a empresa a investidores espanhóis. Quando soube, fiquei duplamente satisfeito: os empreendedores nacionais que arriscaram neste negócio foram vencedores e a internacionalização da empresa portuguesa era, pensava eu, um bom sinal para o futuro da mesma.

 

Porém, hoje fui abordado por um amigo da comunicação social sobre a campanha publicitária da Crioestaminal. Confessei a minha ignorância sobre a mesma e fui ver de que falava ele.

 

“O futuro guarda muitos milagres”, uma campanha, segundo a Meios e Publicidade, criada pela 2034 e que teve João Wengorovius e Pedro Bidarra como consultores.

 

A reacção nas redes sociais foi e está a ser implacável. Muitos clientes e outros tantos não clientes criticam fortemente a mesma. As justificações da empresa e dos “criadores” da campanha demonstram algo estranho: não perceberam.

 

Não perceberam que comunicar em “Saúde” não é o mesmo que comunicar (ou criar um campanha de) uma qualquer cervejeira e a selecção nacional de futebol. Não perceberam que a Crioestaminal não vende, pelo menos com os antigos proprietários não vendia, detergentes ou automóveis. A actual Crioestaminal e os seus responsáveis de comunicação e marketing ainda não perceberam que cometeram um erro de palmatória e como errar é humano, a lógica seria retirar as devidas ilações e seguir caminho. Acontece.

 

Contudo, para meu espanto, a Crioestaminal e os seus responsáveis, preferem teimar no equívoco e, de forma absolutamente estranha – no facebook, face aos inúmeros comentários críticos, entre os raros comentários favoráveis surgem personagens de duvidosa existência real, que coisinha amadora, senhores – respondem com a continuidade da campanha. Realmente não perceberam.

 

O que a Crioestaminal e os seus responsáveis de comunicação não perceberam é que não podem vender o seu produto, sobretudo em algo tão sensível como a saúde, atirando à cara de quem o não adquiriu um falso labéu moralista.

 

 

Reparem no texto publicitário reduzido:

 

Há uma hipótese em 200 de um dia ser diagnosticado ao seu filho uma doença cujo tratamento pode encontrar-se nas suas células estaminais (…) uma doença como a Leucemia (…), nesse dia está preparado para responder a esta pergunta: Mãe, Pai, guardaram as minhas células? Crioestaminal, o futuro guarda muitos milagres”.

 

Realmente, o futuro guarda muitos milagres e um deles é a forma como, através desta campanha, todos os agentes privados na área da saúde podem aprender a como não fazer uma campanha publicitária e terem bom exemplo prático de uma péssima estratégia de comunicação.

O problema de fundo não está tanto na mensagem da campanha. Seria minimamente adequada, com algumas nuances, se fosse lançada por uma associação/instituição não privada e sem publicidade a um produto de uma marca específica. Seria lógica se todas as empresas que actuam neste campo o tivessem feito em conjunto e nesse caso, seria uma campanha de sensibilização. Desta maneira é, isso sim, uma campanha insensível e que aparenta desespero como se a Crioestaminal estivesse financeiramente tão mal, o que não acredito, que se desse ao luxo de enveredar pelos caminhos do “vale tudo” para vender.

 

Que esta campanha verdadeiramente desastrosa possa servir de exemplo a quem, sobretudo no sector privado, investiu na saúde e possa, de uma vez por todas, perceber que comunicar em saúde só pode ser realizado com elevado profissionalismo e enorme sentido das responsabilidades.

 

A campanha da Crioestaminal é vergonhosa e perturbadora. Será que não percebem algo tão simples: até boa parte dos seus clientes, por pudor e respeito por todos aqueles que não podem, financeiramente, adquirir este serviço evitam falar sobre a compra do mesmo em público, excepto se questionados sobre o mesmo. Eu, estou a fazê-lo pela primeira vez e por um motivo simples: a revolta que senti ao ver semelhante falta de bom senso.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Estranho como se vende não importa o quê não importa a quem – para ter de comprar – mas eu sou “estrana” a este mercado gobal que um dia fecha a porta a quem quizerem sem se dar por nada – mas não avnço na minha “intruição” pois que em muita coisa não sou racional – ainda bem – nem tudo se resolve nem com racionalidade nem economicismo – já cá ando há muitos anos e não é isso que me daré vantagens mas desvantagens não dá NENHUMA – e não sendo uma questão de “fé” pode ser uma “fezada” – não quero a água privatizada – não quero a essência da vida e do viver privatizado – já nos lixaram com muitas privatizações e público-privadas – ++ etc- vou antes ouvir o parvalºhao do João Duque – sic 22:20H – de 16 maio – que parvoeiras oiço – ou então sou mais parva do que me admito

  2. jorge fliscorno says:

    Vi o anúncio uma vez achei-o asqueroso. E voltei a achar que crianças na publicidade é algo muito questionável. Já agora, não é também trabalho infantil?


  3. Quanta beleza…

  4. Tiro ao Alvo says:

    No meu entender, e no entender de gente que sabe de saúde, o “produto” que a Crioestaminal vende é uma fraude. Ponto final.


  5. Com efeito, o promeido pela Crioestaminal é actualmente uma fraude pois a probabilidade de podermos utilizar o material é virtualmente nula, ao contrário do que se passa, por exemplo, com a Lusocord. O negocio assenta infelizmente no egoismo e ignorância das pessoas que pensam que poderão utilizar o seu próprio material genético para corrigir…o seu material genético

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