Música e poesia

    (adão cruz)

 Passei o dia a ouvir música

Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie
Como foi possível parecerem-me tão semelhantes
Que percebe de sons este monocórdico espírito
Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos
Como vou misturar é quase certo que nada existe nada está perto nem eu estou triste com Embryons desséchés e Peccadilles importunes
Eu próprio me sinto mistura de contradições e acasos harmonia de contrastes santidade e pecado
Nada percebo de música mas quero que a música seja ar chuva ou vento olhos boca sustento febre delírio amor e tormento
Não sei onde fica a música nem a terra onde ela conduz sei apenas que é de sol e de luz ar puro e perfume o caminho da música para o alto dos montes

Dia de enganos

Uma gaivota beijando a espuma branca das águas fundas em bailado grandi mestri culminando as chaminés do cabo do mundo
O barco ao longe só estático no horizonte como eu aqui de olhos fitos nas rochas
Gaivotas bailando rossini mascagni massenet sem ponte nem horizonte verdi wagner bizet sobre a espuma da tarde sem dia do dia sem ponte sem horizonte para lá das rochas negras e nuas
Marcia trionfale dunas de espuma branca abraçando as rochas do meu deserto tão perto do mar imenso tocando as nuvens por dentro de mim
Alguém me leva nas asas da gaivota em doce intermezzo de rios de sol e mar sem fim
Alguém me passeia por dentro de ti cavalcata delle valchirie a vertigem avança em turbilhão até planar bailando sobre o coração cravado no sol poente vermelho e quente do sangue que verti
Bruscamente o prelúdio voando na alma que resta em meditazioni pelo espaço imenso tocando aqui e ali as penas das asas que perdi
Vesti la giubba viajante da barcarola com ar triunfante va pensiero seguro de quem se apoia nas pedras nuas da orla do mar esquecendo o mar que navega infinito mistério

Comments

  1. Maria do Céu Mota says:

    Gosto de Satie: viveu num minúsculo estúdio, hoje o museu mais pequeno do mundo (Paris); já toquei uma peça dele no Europarque e comemorou-se o seu nascimento na semana passada…


  2. Também gosto de Erik Satie. Precisamente trabalho estes dias as gnossiennes no acordeão. De Madredeus tenho disfrutado muito. Deliciosa a combinação com a poesia.

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