Acertar à primeira

   (adão cruz)

 O Sr. Dr., quando chegar ao lugar dos Couços, pergunta pela casa da Rosa da Eira que toda a gente conhece. Ela não se pode dizer que esteja muito mal, mas diz que tem fisgadas no baixo ventre que lhe causam trupos no coração. E que há que Deus, tem de ser vista pelo Sr. Dr.

O tempo ainda estava frio, apesar da Primavera ter começado a desabrochar, e alguns farrapos de neve ainda pintalgavam de branco a encosta da serra.

O pobre Hillman Minx, fiel companheiro de duas décadas, com as velas mais que rompidas, estava longe dos tempos de jovem, quando, calçado de pneus de faixa branca, se lhe sentia o orgulho de tudo subir em terceira. Raramente se deixava abater, mas nesse dia gemeu a meio da serra, soluçou, e dá a ideia que até chorou, pois pareciam de lágrimas as pingas do motor. Ao fim de meia hora de merecido descanso, lá arranjou jeito de pegar, e, outra meia hora depois, entrava ofegante mas contente, na descida do lugar dos Couços.

A casa da Rosa da Eira era grande, grande demais para tão recônditos e inóspitos lugares. Toda de pedra mal talhada, negra do varrer dos anos, tinha num dos topos uma pequena capela com a cruz quase a cair, e no outro uma extensa eira onde ladrava um cão.

– Ele não morde, Sr. Dr., faça favor de entrar. É servido de um copinho para retemperar da viagem?

A Sr. Rosa da Eira mal se via, afogada na enorme e alvíssima cama de linho. Apesar das fisgadas do baixo ventre e dos trupos no coração, tinha uma cara malandra e prazenteira, cujo sorrisinho macaco desarmava quem quer que se atrevesse a entrar com ar a mais no seu quarto a cheirar a lavanda.

-Como está Sr. Dr.?

E logo de seguida, sem pestanejar:

– Sr. Dr., eu sei como são os médicos. Não acertam à primeira nem à segunda, só acertam á terceira, que é para levar o dinheiro de três consultas. O Sr. Dr. já me conhece e já ouviu falar de mim. Eu sou uma mulher de posses. Não me faltam matos e campos. Portanto, eu pedia ao Sr. Dr. o favor de acertar logo à primeira, que eu pago o preço das três consultas, e assim, escusamos de andar para aqui a perder tempo.

Comments

  1. Maria de Fátima Bizarro says:

    Delicioso!

  2. aremandus says:

    tremendo!

  3. Afonso Jorge says:

    Sabedoria popular!

  4. MAGRIÇO says:

    Um óptimo retrato das gentes modestas mas sabidas do nosso meio rural. Por momentos pareceu-me estar a ler algum extracto de “Retalhos da Vida de um Médico”. E eram, mas de outras memórias.

  5. xico says:

    Delicioso.

  6. Maquiavel says:

    Näo é dos “Retalhos da Vida de um Médico”??? Pois parece!

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