Dia de Todos os Santos em S. Bartolomeu do Mar

Anabela Laranjeira

Sou Comunista e, como alguns dos meus camaradas, não acredito na existência de nenhum Deus. Tenho, como muitos outros, uma família que não deixa de participar em várias cerimónias, missas, rezas e procissões… Normalmente vou também, em grande medida porque gosto dos sons, dos gestos e das cores, e em grande medida porque acho que não faz sentido deixar de ir, de ver as pessoas que lá encontro e que não vejo, às vezes, em mais lado nenhum. Faz-me mais bem que mal.

Este Domingo foi a visita ao cemitério, no dia de todos os Santos.
Em S. Bartolomeu do Mar (Esposende), como noutros sítios do país, o cemitério, alargado há poucos anos, numa das poucas obras que ainda se fazem nesta terra, encheu-se até ao portão.

Estavam lá os que vivem (sobrevivem) na terra, e os outros (a maioria) dos que trabalham e estudam fora. Faltaram os que já não têm dinheiro para vir ao fim de semana, os que, mesmo fora da freguesia, estão desempregados, os que só podem vir no Natal e no mês de Agosto… e os outros que já se esqueceram que nasceram noutro sítio diferente do sítio onde dormem, comem, acordam e trabalham.

Reparando mais nos vivos que lá estavam do que no retrato dos mortos que, por terem sido tão importantes, descansam em paz, dei-me conta, de novo, da profunda falta de respeito que o Governo deste país, os patrões da Igreja e o Capital, a quem servem, têm por um povo a quem já faltou mais para, um dia, lhes retirar o poder entregue.

Durante as palavras ditas, ouvidas e respondidas, não ouvimos uma única, do padre redondo que lá estava, que se dirigisse aos que nos retiraram o direito de fazer a dita celebração no dia marcado. Nenhuma atenção especial aos que deixaram de poder trocar as flores ao Sábado, visitar os parentes no fim da missa de Domingo, às mulheres e filhas que já não trabalham nas fábricas têxteis, às que já emigraram, às velhas que se curvam a custo para salpicar a fotografia e os arranjos de flores naturais do dia de hoje.

Nas palavras ditas, por largos minutos, nem uma sobre o sofrimento, nem uma sobre os dias de desemprego e o salário que não chega ao fim do mês, a empresa falida, a loja fechada… nem uma sobre os filhos que têm de deixar de estudar na Universidade e procurar trabalho no shopping. Nem um consolo sobre o marido que trabalhou desde os 14 anos na obra e que agora, não sabendo fazer mais nada, perde o rendimento mínimo se não for à formação humilhante do centro de emprego.

Nem uma sílaba sobre o dossier que a filha de 12 anos tem de fazer com as fotografias de casamento da mãe e as toalhas de crochet que podem ser “um grande passo para o espírito empreendedor que é preciso ter” depois do supermercado, onde trabalhava há mais de 30 anos, ter fechado. Nem uma sílaba sobre o filho que está há mais de 6 anos em casa a mandar currículos com o curso superior metido na gaveta e os dias perdidos no facebook. Nem uma sílaba sobre Belinho e o Centro de Saúde fechado, sobre as freguesias unidas, sobre as cenouras que já não se vendem na Feira de Barcelos, a praia destruída, os banhistas que alugavam casas, e que já não aparecem há mais de 15 anos, as reformas que não chegam para o pagar o telefone para falar com os netos, nem para os medicamentos e o para tudo o que é preciso comprar no Maranhão.

As conversas e a revolta saíram para o Portão, onde os rostos dos amigos da escola se multiplicaram (surrealmente!) nas caras dos filhos já tão grandes, dos que, como eu, já não vivem em S. Bartolomeu do Mar, dos que acabaram por não trabalhar na Pedreira, nem conduzir o tractor do avô na Avenida da Praia, serem educadoras no infantário do centro social, pescadores de lampreias ou professores na Escola de Baixo nem mesmo astronautas de longe, bailarinas e cantores, médicos ou enfermeiros. E as palavras que ninguém disse lá dentro são as conversas em surdina, vestidas de preto e cinzento, com a praia de fundo.

E o que dizem já ultrapassa o queixume de outros tempos. Já é a manifestação que viram na televisão e no jornal e que ficaram admirados de estar tanta gente, o post que partilharam e que “tinha muita razão”, e a saída à rua, pela primeira vez, “num dia em que acharam que deviam ir também”…. É a revolta profunda porque “não são de Belinho” e porque também já não podem viver ali, pela leira onde cresce mato que o pai já não limpa porque não pode sozinho, pelo voto que tiveram de dar a um Partido em que nunca pensaram vir a votar. E são também, porque somos orgulhosos, e “trabalhamos muito”, as estórias de viver melhor lá fora, de que “quem quer trabalhar a sério não está sem trabalho”, de que “o problema está nos salários e nas reformas de meia dúzia deles”… A confusão, o descrédito, a indignação perante o contraste gigante da dignidade com que vivem perante a corrupção dos que pensam que têm o poder para sempre.

Se aos vivos não podemos ficar indiferentes, como é que podemos não dizer nada a um retrato de ar irónico de um avô a quem os fascistas marcavam o boletim de voto com a unha para descobrirem se votava ou não no Humberto Delgado? Ou ante a lápide simples, em frente, com os nomes do Gastão Saleiro Lima e do José Saleiro Lima, rapazes lavradores, desaparecidos na Guerra Colonial com vinte e muito poucos anos?

Parece-me que ninguém se pode calar, que não podemos deixar de fazer as conversas saírem à rua, inundarem de paralisação os sítios onde trabalhamos. Mostrar que foram as nossas mãos que ergueram os muros do cemitério.

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