O Álvaro vende bem

Álvaro Cunhal vende bem, dentro e fora da www. Na passagem do centenário do seu nascimento, não faltam artigos que valem cliques que valem publicidade, como não faltam livros sobre livros sobre diz-que-disse Cunhal.

No vídeo acima, Odete Santos é clara e desmonta os mentiras que este livro contém. Não faltam convidados para falar de Cunhal como frio, calculista, sectário. Um monstro, ao que parece, e a quem a ideologia dominante não perdoa o carisma, a simpatia popular de que gozava e a admiração que alguns, mesmo adversários, lhe tinham. Não podem, que os tempos não são fáceis quando o tempo prova que o PCP teve razão antes de tempo, sobre o euro, sobre a UE, sobre as políticas desastrosas de PS, PSD e CDS que levaram o país a um estado de não Estado.

Nos dez minutos do vídeo acima, Odete Santos arrasa autor e imprecisões do livro. Talvez por isso sejam poucos os militantes do PCP convidados para falar nas apresentações dos muitos livros que foram e serão lançados em torno de Cunhal: correm o risco de se ver arrasados e ouvir, de forma directa e clara como disse Odete Santos: “Se tivesse acabado de ler o livro antes de dizer que sim, não tinha vindo (…) O Álvaro Cunhal é aqui apresentado como uma pessoa sectária, como uma pessoa que manobra nos bastidores, como uma pessoa vingativa, como uma pessoa que diz mal do dr. Mário Soares porque tem inveja dele (…)” Depois, há a tentação tremenda de separar o militante do artista. É possível dissociar o Cunhal político do Cunhal escritor ou pintor mas é desonesto. Toda a sua obra literária e não só gira em torno da sua experiência como militante comunista, das suas vivências e das realidades que conheceu, dentro e fora de Portugal.

Mas vamos ao político, que Milhazes, escandalizado, revela que até tinha direito a carro quando esteve exilado, veja-se bem a pouca-vergonha. Daniel Oliveira, que passei a ignorar depois destes episódios, pega em Cunhal para atacar o PCP, como não podia deixar de ser. Somos, ao que parece, um partido sem quadros intelectuais à altura do desafio do momento, falta-nos a criatividade ideológica e política necessárias, ao que parece. Em suma, falta-nos um Daniel Oliveira que nos ilumine o caminho.

O inevitável Carlos Brito lá surge no meio do texto, como o verdadeiro comunista, o intelectual, afinal, que levaria o Partido à vanguarda que DO não lhe reconhece. E é peremptório: Cunhal não era humilde. Afirmação que lhe vem, certamente, da profunda relação de proximidade que teve com o antigo líder do PCP. O Congresso sobre Álvaro Cunhal foi, segundo o ex-PCP e ex-BE – e talvez futuro ex-Rui-Tavarista – um ritual de deificação, uma vez que não reconhece a Cunhal a categoria de ideólogo.

Não faz mal, Cunhal não o quis ser, creio, mesmo sendo. Penso que partilhou as suas experiências com o Partido e é daí que vem a admiração que por ele nutro, sem deificação. Quem conviveu com Cunhal tem dele uma opinião bem diferente dos disparates disparados por todos os Daniéis Oliveiras que salivam à espera de uma data marcante para poderem ganhar notoriedade, espaço mediático ou, apenas, uns cliques, à custa de Álvaro Cunhal. O Público fê-lo na capa da sua primeira edição.

Não queria biografias, abominava endeusamentos, recusava o culto da personalidade. Sempre foi mal interpretada a sua vontade de manter privada a parte da vida que o era. Não o fazia para adensar mistérios, criar auras ou espalhar charme, mas por uma ética que lhe era intrínseca. Via-se como um homem simples, igual a todos os outros, cuja vida pessoal não deveria interessar a ninguém a não ser a si próprio e aos que lhe eram íntimos. Com estes não tinha reservas. Falava sobre tudo. Queria saber tudo.

Sou suspeito, é certo. Soube da morte de Cunhal pela minha mãe, que me acordou e perguntou: Estás calmo? – “Sim”, respondi eu. – “Morreu o Álvaro Cunhal”, disse ela. E pronto, chorei, pois claro. E depois fiz-me à estrada e fui para Lisboa para a grande manifestação de força e luta em que se tornou o seu funeral. E continuo, hoje, a tê-lo como exemplo. Tenho-o a ele como aos meus camaradas mis velhos e mais novos, que me ajudam, todos os dias, a ser uma pessoa melhor, um comunista mais convicto e mais enriquecido pelas experiências de todos.

Posto isto, “a todos desejo que, vida fora, realizem os seus sonhos”. Mesmo que o seu sonho passe por deturpar tudo aquilo que Cunhal  e o PCP representam, boa sorte nisso.

Comments


  1. Reblogueó esto en fermin mittilo.


  2. Grande Odete Santos ! Nunca votei PCP mas concordo a 100% com a Odete quando diz: ” E se houvesse União Soviética ainda muitas coisas não se estariam a passar no Mundo … E os trabalhadores não teriam derrotas tão grandes como têm tido “.
    É que tem tem cú tem medo, e o desaparecimento do “perigo” comunista é foi um enormíssimo mal para o Mundo. Apesar de, ainda hoje, me emocionar com a queda do Muro de Berlin. Vá-se lá compreender isto.


  3. Quem disse que a adesão CEE iria ser uma catástrofe, quem avisou que iriamos caír nas mãos do capital iriamos ficar vendidos por tuta e meia…Numa democracia com partidos com a denominação PSD, “SOCIAL DEMOCRACIA”, PS “SOCIALISMO”, . Estão a dar razão aos comunistas, pois aqueles partido é a desgraçaconfusia, mas nada de democracia, só venda, só venda a nossa autonomia, desvaneceu-se…

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