Matrículas por sorteio puro

Agrada-me a ideia do João:

Para todos os efeitos tal obrigaria a um sistema de matrículas único. E aí está o argumento com que deve ser confrontado a partir de agora Nuno Crato: cheque-ensino? vamos a isso, mas incluindo a obrigatoriedade de as escolas aceitarem aleatoriamente os alunos candidatos à matrícula, sem qualquer possibilidade de selecção humana. Depois veremos como ficam os rankings e quantos colégios aceitam jogar de igual para igual com as escolas públicas.

Num comentário a um post anterior sobre este tema alguém questionava qual seria o problema deste tipo de informação ser tornada pública:

Os pais, se puderem, colocam o filho na escola que melhores garantias de futuro lhe dá. Sinceramente, nunca entendi esta polémica toda que todos os anos se verifica com os rankings. Desde quando ter informação é algo de negativo?

Os problemas são vários, mas se quiser até subscrevo – o problema não está nos números, mas na realidade que os origina. E, se quiser, temos aqui uma questão ideológica, não vale a pena fugir a isso.

Eu entendo que o estado deve garantir a todos os  portugueses igualdade de oportunidades no acesso (com sucesso) à Educação. Para isso, o sistema público de educação deve ser o instrumento de concretização de tal intenção. Admito, no entanto que outros pensem que a Escola Pública não tem nada que responder a todos e que se deixe isso para o mercado – Nuno Crato é um bom exemplar dessa espécie.

Depois, não me parece que a questão seja só e apenas o meio onde as escolas estão inseridas – há (tem que haver!) outros factores e muitos deles são parte integrante das próprias escolas: umas lideranças são melhores que outras e esse, é hoje, o factor mais decisivo. Há também questões como a qualidade do trabalho dos docentes ou a estabilidade dos seus quadros e por isso também entendo onde é que o Vitor, do Blasfémias, quer chegar.

Vou deixar um exemplo que ajuda a explicar a questão:

–  em Vila Nova de Gaia. Duas escolas coladas (literalmente) uma à outra. Ambas têm alunos do 9º ano em grande número. Uma, a básica, tem sempre melhores classificações e aparece à frente de um dos mais conceituados colégios locais; numa outra freguesia, situação absolutamente semelhante. Só que agora, quem tem sempre melhores resultados é a secundária. O que tem acontecido com esta histórias do rankings? Em ambos os casos o número de alunos a querer ir para “as melhores” é superior à oferta e por isso, com os critérios criados, as melhores ficam com melhores alunos (notas de 6ºano). Estamos, no fundo a reproduzir a desigualdade. A  pergunta que se coloca – o que ganharam as duas escolas “menos selectivas”?

Mas, também podemos ir à questão das escolhas tendo por base uma ideia que a investigação tem como absolutamente certa – a educação parental, com maior incidência na formação da mãe, é o facto mais importante para o sucesso académico dos filhos. Quanto maior é o nível académico da mãe, mais probabilidades há de ser um aluno com sucesso. Logo, mais do que andar à procura de questões económicas ou locais ou até do clima, façam uma lista simples – verifiquem quantas mães com a 4ª classe colocam os seus filhos nos colégios ou até nas primeiras 50 escolas públicas e depois vão ver quantas o fazem nas últimas 50. Talvez tenham uma surpresa.

Assim, como assim, agrada-me a ideia do João – um sorteio puro. Os alunos inscrevem-se nas escolas ou nos colégios que desejarem e depois, um sistema independente sorteia os alunos entre os colégios e as escolas públicas. Simples, justo e democrático. Vamos a isso – sorteio puro, já!

Comments


  1. Obrigado, João, pela citação. Eu concordo consigo quando diz que a escola pública deve garantir a todas as crianças/jovens o direito à educação até ao 12º ano e não acho que isto deva ser deixado ao mercado; mas entendo que se um pai não quiser usufruir do direito concedido pelo Estado, deve ter o direito de colocar o filho no ensino privado (verdadeiramente privado, não as parcerias público-privadas que para aí andam). Para se manter, o ensino privado tem que seleccionar crianças, pois se não conseguir distinguir-se do ensino público, não sobrevive. Ninguém pagaria 500 euros por mês para obter os mesmos resultados que no público. Poder-me-á dizer que isso vai contra a igualdade de oportunidades. Para bem da discussão, não digo que não, mas a igualdade absoluta é algo impossível (e na minha opinião até indesejável). Basta ver que em algumas famílias os pais têm conhecimentos e disponibilidade para ajudar os filhos nas suas tarefas escolares. Noutras não. Serão os primeiros uns fascistas que atentam contra a igualdade de oportunidades? Ou simplesmente uns pais que querem o melhor para os seus filhos? O mesmo se pode aplicar à decisão de matricular os filhos no privado, que – diga-se – não é privilégio exclusivo dos muito ricos. Todos conhecemos casos de pessoas que não podem ser consideradas ricas e que fazem um sacrifício financeiro para poder colocar o filho num colégio. Por outro lado, ingressar no público não é imediatamente uma condenação à mediania. O João José Cardoso muitas vezes cita o estudo segundo o qual são os alunos do público que obtêm melhores resultados na faculdade. Portanto, nem o privado é o remédio santo que assegura um futuro brilhante aos miúdos, nem o público é uma pena de morte para o futuro dos alunos. Dito isto não será o ranking um excelente instrumento para que os pais possam fazer uma escolha racional sobre a escola onde querem colocar os filhos? Não é perfeito, mas na escuridão é melhor ter uma vela do que não ter nada. O que não se pode fazer é invocar o ranking para dizer que os professores do privado são melhores que os do público. Para isso o ranking não serve, porque, neste sentido, compara realidades incomparáveis.

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