Vou comprar um descapotável

1953 Buick Skylark Convertible Coupe

Com 45 anos, não sou novo, ainda não sendo velho. Já há “putos” na política, cheios de cagança a postular lições de vida, da vida que não tiveram. É a ordem das coisas, para outros, também este post foi escrito por “putos”. Por outro lado, já se acumula saber, que de nada servirá à juventude, surda pela característica arrogância de quem se sente eternamente jovem.

A meia idade destes dias, em que a reforma é uma miragem, já não tem fim à vista. Trabalhar-se-á enquanto o corpo aguentar, vicissitudes dos que nasceram em berço de palha mas, felizmente, num tempo em que um bom Serviço Nacional de Saúde trouxe das mais baixas mortalidades infantis de sempre e em que a escola pública deu a quem quis a oportunidade de romper as amarras do meio onde se nasceu.

O discurso político procura responsabilizar os cidadãos pelo presente estado de falência nacional, quando, em simultâneo, observamos a riqueza do país se concentrar numa pequena percentagem da população, na directa proporção em que os crescentes impostos são canalizados para um sistema financeiro descapitalizado, apesar de não se ter feito uma fogueira com o dinheiro que sumiu.

Em certa medida, sim, os cidadãos têm responsabilidade no actual estado das coisas, ou não tivessem eles validado com o seu voto as políticas das últimas décadas que até aqui nos conduziram. Mas é uma falácia encerrar as justificações nesta explicação. O Estado é opaco e os governos fazem tudo o que podem para ocultar a informação que devia ser pública e livremente acessível a quem a quisesse consultar. Isto impede o eleitor de tomar decisões esclarecidas, ficando sujeito à propaganda política, como foi o recente caso de “cortar nas gorduras do estado” como forma de endireitar as contas públicas. Por outro lado, há muitas decisões que só são conhecidas depois de tomadas ou para as quais os cidadãos não foram consultados. Foi o que se passou com os swaps, com nacionalização do BPN e com os apoios à banca.

Estes são, no entanto aspectos conjecturais, já que não podemos encontrar explicações para o nosso estado falhado sem olharmos para o mundo globalizado onde estamos. Portugal vem abdicando da sua soberania desde que aderiu à CEE, permitindo que as suas políticas económicas fossem externamente ditadas a troco de fundos comunitários, renunciando a uma moeda própria, assinando tratados onde se abdica de autonomia, como no Tratado de Lisboa e, ainda por exemplo, aceitado que o Orçamento de Estado tenha que ser validado por um directório de estados.

Sempre a troco de fundos comunitários, a capacidade produtiva do país foi sendo transformada. Os campos de cultivo deram lugar a eucaliptais, a pesca passou a ser dominada pelos espanhóis, a actividade industrial é residual e passámos a ser um país de serviços, lugar aprazível para aqueles que produzem de facto possam vir gozar o sol na terceira idade.

A redução da capacidade produtiva é a marca da política europeia, a qual transformou grande parte dos estados membros em mercados consumidores, com vantagem para a Alemanha, que ganhou um mercado interno, mas, sobretudo, com enormes ganhos para as grandes empresas que puderam abandonar o espaço europeu, para se estabelecerem onde a mão de obra e os custos de contexto eram residuais. Esta mudança só foi possível porque os estados membros permitiram que a importação de bens fosse completamente liberalizada. A progressiva introdução de produtos a preços muito competitivos foi o toque de finados para as indústrias locais.

Reside nesta política europeia, cegamente seguida pelos estados membros, a raiz do declínio europeu e, em última análise, da falência nacional. Falidos a troco de subsídios, que serviram para enriquecer muitos, sem que o país mudasse.

Depois da chinezação da produção, a competitividade sem regras chegou, como seria de esperar, aos próprios cidadãos, que se vêem sucessivamente compelidos a aceitar piores condições laborais, caso queiram manter os seus empregos em algum nicho prestes a ser ocupado por alguma empresa “chinesa” que faça o mesmo por metade do preço.

Por causa da política do neofeudalismo, vai-se a reforma transformando em algo intangível, garantida aos que fazem da política a sua profissão, incerta para quem vive do trabalho. Para quê então esperar pela crise da meia idade para comprar um descapotável? Mais vale atalhar caminho e fazê-lo já.

Comments

  1. Palma says:

    Dois um para ti e eu compro um para mim!


  2. Uma autêntica obra de arte, o da imagem.

  3. Nightwish says:

    “que se vêem sucessivamente compelidos a aceitar piores condições laborais, caso queiram manter os seus empregos em algum nicho prestes a ser ocupado por alguma empresa “chinesa” que faça o mesmo por metade do preço.”

    E os chineses já são demasiado caros também e estão a ser substituídos por robots, ou seja, não vai haver mesmo emprego para ninguém.


  4. precisamos de uma revolução europeia, caso contrário, quando menos dermos por ela, somos a periferia dos Estados Unidos da Europa, governados desde Berlim. O Hitler não percebia nada disto, era um menino à beira destes gajos…

  5. Maria de Almeida says:

    Já fomos os servos da gleba, um estado intermédio entre a escravidão e a liberdade, mas a adesão à União Europeia veio trazer-nos a possibilidade de livremente sairmos das fronteiras da nossa pequenez e alargarmos horizontes. No entanto, os milhões que tantos ansiávamos para nos desenvolvermos e não termos a necessidade, apesar da possibilidade, de fazermos as malas e abalarmos, como gerações anteriores, chegaram, mas foram aplicados a esmo, em obras de fachada, em subsídios para deixarmos a terra, as pescas etc etc, coisas que agora, afinal, se refutam de essenciais ao desenvolvimento.
    Mas não deixámos de ser servos, só que agora de outros amos, que mais não são que maus exemplos de outros que já se finaram.
    Eu também quero o meu descapotável, já tenho a idade para isso, mas para deixar esta Europa que, tal como o país, expulsa os que nasceram em berço de palha.


  6. Os crescentes impostos são também para “eles” continuarem e ter descapotáveis e não só – é o país da UE que mais “descapotáveis tem” e nem percebi porque é que o tribunal vai obrigar o ESTADO (??) a pagar milhões a Nabeiro – o que é que o ESADO fez que até aos milionários deve – e quem paga ?? Eu mais uma vez ?? Eu sei quem é este senhor e até o conheci quando “nada” tinha – e não duvido da justeza do tribunal – o drama é que de mim sai para os justos mas sobretudo para todos os descapotáveis – porque não pedem a Duarte Lima e a Vara e Dias Loureio ao BIC e a essa cambada de gatunos que anda para aí incluindo com os mais altos cargos públicos e governamentais ?? Também há aqui mafiosos a que Eduardo Lourenço chama e bem, “uma espécie de vampiros” ?? Para este silencioso senhor fazer tal afirmação é mesmo inconcebível – e A UE para que serve – não tem “policias financeiros” ?? e paga à toika para me roubarem ??

  7. João Edgar says:

    Excelente análise politica deste país!!!

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