Postcards from the Balkans #08

‘I didn’t realize you’re a stranger’

10355834_10204757782370694_4641119680397796308_n
É interessante o modo como nos afeiçoamos a certos lugares. Ou como certos lugares se afeiçoam a nós. Tenho sentido isto, algumas vezes, em sítios muito diversos mas que talvez partilhem uma beleza imperfeita, uma conjugação do muito belo e do incrivelmente feio. Que talvez partilhem uma certa tristeza. Ou melancolia. Gosto de lugares assim. Ligo-me a eles instantaneamente, sinto-me completamente deles. Aprendo-os. Percorro-os como se tivesse sempre ali vivido, embora não distraidamente como nos lugares onde vivi. Aconteceu-me isto em Sarajevo.

Hoje não vi cemitérios, nem memoriais aos mortos. É o meu último dia em Sarajevo. Vivo os lugares dos vivos. Mesmo se é impossível ignorar a melancolia que têm os lugares e as pessoas onde e a quem aconteceu um grande sofrimento.

O meu hotel fica no coração da cidade velha. Se há uns dias atrás, quando aqui cheguei, esta parte da cidade me pareceu confusa, hoje perder-me seria impossível. Hoje e para sempre se e quando regressar. Saio do hotel e caminho pela rua Zelenih, com a Torre do Relógio por companhia, até à rua principal da cidade velha, a Ferhadija, que se liga à direita, junto à Chama Eterna à Marsala Tita e, termina, à esquerda na Fonte Sebilj. Viro à direita, um bocadinho apenas e, através de uma viela novamente à direita, mesmo junto à inscrição, no chão, ‘Sarajevo, meeting of cultures’, encontro o museu e o bairro judeu, assim como a velha sinagoga. Já aqui passei, nesta praça tranquila, outras vezes. Mas hoje paro. Há um pequeno café cujas mesas e bancos me lembram as carteiras da minha escola primária. Sento-me numa e uma senhora sorridente serve-me um café e água. Fico a apreciar a calma e a afeiçoar-me mais a Sarajevo por um bocado.

Quando me levanto, atravesso a pequena praça e encontro a rua Baseskije, onde viro à direita. Caminho devagar, não tenho pressa e, mesmo sendo de manhã, está calor. Do lado esquerdo da rua, encontro a velha igreja ortodoxa, cheia de sombras flores no pátio. Um pouco mais adiante, à direita, a fonte Sebilj e o largo onde estão sempre muitas pessoas e onde os pombos voam constantemente alvoroçados. O meu destino, nesta manhã, é a ‘câmara municipal’, onde se encontra a biblioteca nacional e universitária da BiH. Fica junto à ponte Seher Ceajas que é, também ela, bonita. A biblioteca é um edifício imponente, não apenas pelo tamanho, mas também pelas cores e a arquitetura.

Neste edifício, acabado de reconstruir agora mesmo com o apoio da União Europeia, encontravam-se milhões de livros e documentos da BiH quando, na noite de 25 para 26 de agosto de 1992, o exército Bósnio-Sérvio o incendiou. Há uma placa, logo à entrada que nos diz que, nessa noite, dois milhões de livros e outros documentos foram destruídos pelo fogo. 2 milhões de livros que representavam cerca de 70% dos fundos da biblioteca. Na mesma placa, um aviso à humanidade, que já viu o mesmo acontecer em tantos outros lugares, em todos os tempos: ‘do not forget. Remember and warn’. Entro com a intenção de ver a nova biblioteca. Não se pode visitar e fico ligeiramente triste. Depressa me esqueço, não dos livros, mas da tristeza, diante das cores e dos detalhes deste belo sítio.

Sem a biblioteca, onde contava demorar-me algum tempo, a visita não é longa. Quando saio, o calor aumentou bastante. Procuro uma sombra, sento-me num banco, à beira da ponte, olhando o pequeno rio Miljacka, agora límpido. Estou a pensar onde vou a seguir, calmamente e passa uma rapariga diante de mim. Passa e volta para trás. Pára em frente ao meu banco, diz qualquer coisa que não compreendo (naturalmente, fala em bósnio), mas intuo e digo ‘da’ (sim). Ela sorri, agradece e senta-se no banco ao meu lado. Embora sabendo agora o que me perguntou, confirmo, em inglês… pergunto-lhe, assim, se ela me perguntou se se podia sentar ali. Com uma pronúncia inglesa maravilhosa responde que sim e acrescenta ‘I am sorry, I didn’t realize you’re a stranger’. Sorrio(lhe) apenas, embora pensando em dizer-lhe que não sou. Ou que para ela não o sou. Apenas para mim. Estranha, quero dizer. Pensando ainda na estranha (justamente) escolha da palavra. Eu teria usado ‘foreigner’ (estrangeiro) e não ‘stranger’ (estranho**). Como frequentemente acontece, quando viajo em circunstâncias semelhantes, lembro-me do Vila-Matas. Já escrevi a mesma frase tantas vezes, noutros postais, mas aqui fica, como uma estranha maneira (ou nem por isso) de ligar os lugares por onde vou passando: ‘quando viajas com alguém tudo te é estranho. Quando viajas só, o estranho és sempre tu’.

Digo ‘bye bye’ à rapariga quando me levanto do banco, passado um bocado, a pensar na escolha da palavra e na frase do Vila-Matas. Ela não pensou que eu fosse ‘estranha’. E eu sinto que sou sempre estranha, ainda que Sarajevo se me tenha afeiçoado.

Atravesso a ponte e caminho até à praça Austrijski, devagar. Passo pela Mesquita do Imperador, em obras e entro. Lavo as mãos na fonte e um homem diz-me que não posso estar ali. Não percebo bem porquê, estou devidamente tapada. Apesar da blusa ter um decote, uso uma encharpe por cima… não percebo… e ele não fala inglês. Mas dirijo-me à saída, claro. Aparece uma mulher loura, de t-shirt, e eu pergunto-lhe porque não posso estar ali, se ela está. Ela diz, em inglês, que está a trabalhar na renovação da mesquita e o que o que o senhor me disse foi apenas que, com as obras, era perigoso andar por ali. Ah. Agradeço e saio. O senhor continua a comer uma maçã muito amarela. E a senhora loura lava as mãos na fonte. Tudo regressou à normalidade.

Continuo pela rua Konak até à igreja de Santo António (e mosteiro franciscano). Ali, pergunto a um polícia, que não fala inglês (fala alemão, como aqui acontece frequentemente, sobretudo entre as pessoas mais velhas) onde é a praça que procuro, mostrando-lhe o mapa. Explica-me por gestos, à direita, passa o arco, é logo ali. Agradeço-lhe e ele faz um sorriso largo e dá-me duas palmadinhas amigáveis nas costas. Encontro, era logo ali, a praça Austrijski. A seguir também encontro, sozinha, a ruazinha onde está a tumba dos sete irmãos. Não, não vou ver mais mortos… mas já que ali estou… É uma casa baixinha, à frente de uma pequena mesquita (há mais de cem mesquitas em Sarajevo), com uma porta e sete janelas, atrás das quais estão os túmulos dos sete irmãos. Irmãos de destino não de sangue***. Reza a lenda que se pusermos uma moeda em cada túmulo, exatamnte do mesmo valor, o nosso pedido se concretizará. Há uma rapariga a colocar moedas nos sete túmulos. Não sei que pedido faz, mas pára uns segundos em frente a cada janela antes de colocar a moeda. Sento-me num banco e enquanto ali estou, mais cinco ou seis mulheres colocam moedas nos sete túmulos. Leio depois que vêm pessoas de toda a BiH para fazer pedidos aos sete irmãos de destino. Ainda espreito a carteira. Só tenho três moedas iguais e precisaria de sete, pelo que me levanto, regresso à praça, atravesso o arco, sigo em frente, passo a igreja de Santo António (o polícia deve ter ido almoçar) e encontro a fábrica de cerveja Sarajevska. Um belo sítio para gastar as três moedas iguais! Entro, peço uma Sarajevska preta, feita ali mesmo, fresca. Sabe-me bem. Abençoada.

Quando saio da Sarajevska Pivara são mais que horas de almoçar. Caminho por outras ruas, de novo em direção ao rio (quando antes passei reparei num restaurante encantador, junto à ponte que atravessei). Numa parede, um grafiti de um gato sorridente, amarelo. Penso que não vi gatos em Sarajevo. Nem nas ruas, nem nas casas ou pátios e, ao desviar o olhar da parede, dou com ele, a uma janela, sossegado como são os gatos. Não é amarelo, mas branco e preto e reparando que estou especada a olhar para ele, faz-me um sorriso, juro.

Almoço no restaurantezinho à beira da ponte. É pequeno, confortável. Estou tão bem instalada que me ponho a ler. À minha volta italianos, ingleses, franceses e locais. Vou ouvindo pedaços das conversas e lendo. Como. Peço um café. O italiano da mesa em frente enrola dois cigarros, um para ele (Lorenzo) e outro para a sua companheira (Elisa). Devo ter qualquer coisa que não sei que seja mas que parece atrair (e atrair-me para) todos os italianos que encontro no mundo, fora de Itália, porque o homem pergunta-me, quando levanto os olhos do livro e pego na chávena de café se quero um cigarro. Pergunta-me em italiano, como se fosse evidente que o entenderia. Em italiano agradeço mas digo que estou a deixar de fumar, a tentar (ainda), vá. Responde-me que é pena. Faço um olhar interrogativo e ele diz: ‘I just love people that smokes’. Diz em inglês isto. Eu respondo, na mesma língua, que ainda fumo. Fumo é pouco. E ele convida-me para a mesa deles, onde não fumo, mas onde passamos uma parte do resto da tarde a conversar disto e daquilo, numa algaraviada de inglês e italiano. O Lorenzo e a Elisa vão para Montenegro, ver as montanhas e fumar. Isto do fumar sou eu que digo. De qualquer maneira, parece-me um bom plano. Fumar longos cigarros contemplando as doces montanhas. Tenho de deixar de ter qualquer coisa não sei que seja que me faz estar sempre a esbarrar em italianos. O romantismo é contagioso.

Regresso ao hotel por um bocado, por entre as ruelas da cidade velha. Sarajevo é uma cidade que se me acomodou no coração. Uma cidade de quem poderei dizer para sempre: ‘I didn’t realize you’re a stranger’.

Laku noc.

** evidentemente ‘stranger’ pode ser usado como ‘estrangeiro’, embora não seja o mais usual.
*** mais sobre a lenda dos sete irmãos milagreiros, aqui:http://sarajevo.travel/en/things-to-do/jedileri-the-tomb-of-the-seven-brothers/185

Comments


  1. O discurso da semântica do foreigner e do stranger estava lindo!
    O passeio e as suas coisas agradavelmente simples fizeram-me bem.
    Beijos.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.