Abriu a época da caça

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Abriu a época de caça. Aos patos, aos coelhos, às rolas, aos pombos e mesmo a alguns animais em vias de extinção, como os funcionários públicos.
“Estes calendários, têm como objectivo indicar aos caçadores quais as espécies que podem ser capturadas, o período em que a caça pode ser exercida, o número de peças que podem ser abatidas e os locais onde a caça é permitida”, dizem os jornais. Confere. De resto, quanto às espécies classificáveis como “funcionários públicos”, raramente os períodos de defeso são respeitados, sendo frequente a caça furtiva. Mas agora é oficial.

Por estes dias, a escumalha telejornalística e os seus tartufos comentadores têm atirado, sobretudo, nos professores e nos médicos, essas mal agradecidas e fugidias espécies, cujos espécimes parecem estar a transformar-se, de endógenos e autóctones, em migratórios. Assim, ficamos a saber que os docentes foram”privilegiados” por uma pequena percentagem deles se ter livrado do abate e obtido vinculação – após só 14, 15, 20 anos de bons serviços. Dos outros, parece que alguns foram abatidos por terem caído nas malhas do Acordo Ortográfico naquele exame do Crato. Muitos destes eram espécimes capazes de altos voos, mas voar alto é hoje, como se sabe, suspeito. Já os médicos foram atacados com vários tiros rasteiros, nomeadamente a repetida referência ao seu suposto “ordenado normal” que seria, segundo os atiradores, na ordem dos quase 4.500 euros mensais! Ora, sabemos todos que, salvo situações contratuais excepcionais, tal não é, nem por sombras – tomaram eles!…- o vencimento “normal” de um médico do SNS, a não ser que seja o ilíquido de um especialista com dedicação exclusiva no topo da carreira e, mesmo assim…
Aliás, a agitação dos supostos “ordenados milionários” dos trabalhadores mais qualificados – que, em alguns casos, são inferiores ao salário mínimo de alguns países europeus – e o cozinhar em lume brando da inveja como suprema virtude social é um dos ingredientes com que os celerados que nos governam vão envenenando a tal “coesão social” que tanto dizem defender (claro que não abordo aqui a praga de analfabetos percevejos políticos que invade os ministérios, nomeados pelos seus padrinhos e com vencimentos que, sendo elevados, seriam sempre excessivos, dada a inutilidade de tais criaturas).
Abriu a caça. Cuidado, animais voadores, espécies nobres, feras de coração valente. Estejam à vontade, ratos, baratas, vermes, répteis em geral; a vós, os vossos amigos não perseguirão.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Ah,ahahah,
    Boa. Escrito ao bom estilo do Gil Vicente.
    Estou feliz por ainda há gente sã.


  2. Parabéns! Gostei muito deste texto!

  3. orquidea says:

    Os meus parabéns. Está maravilhoso este pequeno texto satírico. É exatamente assim. Não diria melhor.


  4. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  5. sinaizdefumo says:

    Supimpa de facto, parabens.


  6. Adorei o seu texto! Muitos parabéns!
    Mas que excelente analogia metafórica!
    Mais claro que isto…é impossível! 🙂

  7. José Peralta says:

    José Gabriel

    Cumprimento-o pelo seu texto.

    Quando haverá uma possibilidade, mesmo que remota, de um movimento de cidadãos, sentar estes canalhas no banco dos réus ?

    Aliás, como preconizava para os “outros”, há três anos, o canalha-mór, o varrasco coelho !

    Calou-se, o biltre ! Porquê ?

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