Das histórias e das memórias

Caro Nuno Feijão

Não se surpreenda com a informalidade do trato: a minha provecta idade tende a considerar jovens todos os que me rodeiam. A juventude é um estado de espírito, mesmo quando as articulações refilam, e o seu livro bem o demonstra. Há nele a espontaneidade, a frescura saudável, a ingénua esperança de quem ainda tem muita estrada à sua frente.

Venho agradecer-lhe o envio de um exemplar, com carinhosa dedicatória, e faço-o publicamente porque é para mim uma alegria imensa ver que, na nossa terra, há cada vez mais pessoas a escreverem com a sinceridade e a modéstia de quem sabe que não nascemos todos Eça de Queiroz. Grande alegria, também, saber que o Nuno é membro da Universidade Sénior de Tomar – uma ideia feliz que defendia e praticava Agostinho da Silva numa garagem perto de sua casa, ao Príncipe Real, sempre apinhada de operários, vendedeiras, caixeiros, funcionários públicos, que ali acorriam com sede de saber. Maravilhoso é o conhecimento, seja qual for a idade. Uma sociedade justa e forte é aquela que garante educação e conhecimento dos 3 aos 100 anos. Muito saboroso o seu livro MEMÓRIAS E HISTÓRIAS. Ninguém devia sair da vida sem deixar escrito o que viveu e sentiu, como viu o mundo à sua volta, assim legando as pedras e as escoras com que se aguenta uma Nação em tempos de perda de identidade e de soberania. Sobre isso, o Nuno pertence às Curvaceiras, a terra do Padre Jerónimo E aqui sou eu a relatar-lhe uma memória bem disposta.

O Padre Jerónimo foi professor de Religião e Moral no Colégio de Nun´Álvares, em Tomar, depois de ali ter ocupado o mesmo lugar o Padre João Ferreira, seu superior hierárquico na capelania da Força Aérea. Era figura que não se esquece: alto, espadaúdo, cabeça levantada, frontal, directo, a bondade em pessoa. Tinha fama, e proveito, de ser grande cozinheiro, e também bom garfo, que arranchava com a rapaziada quando uma galinha ou um peru caía do céu (digamos assim para não mexer em pecados velhos). Depois desse tempo de colégio, levei anos sem saber do Padre Jerónimo até me chegar a notícia de que estava pároco em Newark, nos Estados Unidos. Estava eu em Toronto há pouco tempo quando o então presidente do Sporting, João Rocha, me telefonou comunicando que com o nosso comum amigo Silva Resende vinha a Newark para uma cerimónia com gente da bola, e convidava-me a aparecer lá. Fui com três jovens, um casal nazareno e um rapaz da Ilha Terceira, os três a quererem conhecer aqueles dois dirigentes desportivos. Metemo-nos ao caminho de manhã muito cedo, galgámos quilómetros e quilómetros, atravessámos Nova Iorque e chegámos ao clube de Newark à hora do jantar (que, cá deste lado do rio, anda pelas 18 horas). Confraternizámos com os presentes e foi uma noite agradável. Na manhã seguinte, cedinho, telefonei do hotel para a paróquia portuguesa e disse ao (mais que surpreendido) Padre Jerónimo que estava ali à beirinha dele e gostava de o ver. Resposta pronta: “Oh cachopa, vem já para tomares o pequeno almoço comigo”. Depois de grandes abraços, abancámos para um pequeno almoço tipicamente norte americano: sumo de laranja, frutas, cereal, iogurte, ovos com bacon, torradas com compota de laranja regadas a café. Subitamente, o Padre Jerónimo abriu um armário da cozinha, tirou dele um pequeno prato com uma fatia de queijo da Serra, que pôs diante de mim: “É o ultimo, fico contente se o comeres”. Mãe do Céu, o guloso renunciava ao petisco. Comi o queijo com respeitosa gratidão.Depois de muita papa e conversa, o Padre Jerónimo foi celebrar missa e eu fui encontrar-me com os meus companheiros de viagem para o regresso.

Quiseram ir a Filadélfia. Fomos a Filadélfia, a que guarda a nobreza de ali ter sido feita a constituição americana, a cidade onde, há muitos anos, largas centenas de portugueses refizeram a sua vida trabalhando nas grandes fábricas de tecelagem. Depois quiseram ir a Atlantic City. Fomos a Atlantic City, à beira do oceano, pejada de hotéis-casino. Quiseram entrar num. Entrámos e os três jovens desataram a jogar nas máquinas. Eu detesto jogo, não certamente por virtude, mas porque não lhe acho graça nenhuma, não tenho pachorra para aquilo. Para não os constranger, peguei em meia dúzia de moedas de 25 cêntimos e joguei, enfastiada. A máquina desatou num berreiro de grávida em trabalho de parto, abriu o ventre e atirou-me para os braços com uma catadupa de moedas. Os cachopos ficaram num sino: vamos jogar mais, diziam eles. Puxei pelos galões e fui clara: “Não vamos nada jogar mais, vamos é trocar as moedas por dinheiro que se veja e vamos jantar que nem uns meninos. E depois, ala morenos, vamos todos para casa”. Ficaram desconsolados mas alinharam, que remédio. Foi um jantar magnífico antes de nos metermos à estrada. Entrámos em Toronto ao amanhecer, ensopados de café. Muitos anos depois, ainda os safados dos cachopos se lamentavam de não terem podido jogar mais e ganhar uma fortuna.

Volta e meia o Padre Jerónimo telefonava-me. Depois caiu num grande silêncio. Até que vim a saber que estava num lar em Torres Novas. Na última vez que estive em Portugal, em 2011, grande foi a minha comoção quando recebi um telefonema do Padre Jerónimo. Eu ia a caminho do aeroporto, de regresso ao Canadá. Depois de assentar e repousar, escrevi-lhe. Pouco tempo depois chegava-me a notícia da sua morte. Foi então que sua irmã Carolina me telefonou a contar que a carta tinha chegada ao destinatário já ele estava meio inconsciente, mas que ela lhe disse ao ouvido que tinha ali uma carta minha e Jerónimo abriu os olhos sem nada já poder dizer.

Como vê, caro Nuno, as Curvaceiras são uma referência na minha memória. E agora, com o seu livro, mais o são. Não desista: leia muito, escreva muito. Só assim aprendemos. E resistimos. Não desista, também, da Universidade Sénior, e aprenda tudo o que estiver ao seu alcance.

Bem haja pela sua gentileza. Fique com a saudação que se pratica neste lado do mundo: God bless you!

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Agradecido pela prosa e o seu significado.

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