Comemoração mediática

Comemorando os 35 anos do Serviço Nacional de Saúde, a RTP2 não encontrou melhor destaque que fazer uma extensa entrevista ao seu maior inimigo, Artur Osório Araújo, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada. A banha da cobra foi vendida sem vergonha nem a mais pequena sombra de rigor ou decência. Ficamos a saber o que vem aí para abocanhar os restos do BES Saúde e ferrar o dente na jugular do SNS. Mais tarde, a RTP tentou disfarçar o golpe e, assim, José Manuel Silva teve direito a duas ou três perguntas “a despachar”a que, felizmente e como era de esperar, respondeu rigorosa e certeiramente. Preparem-se, que isto agora é a sério. (Nem falo aqui nas discretas e envergonhadas comemorações governamentais; só faltou pedirem desculpa aos donos por ainda não terem feito o serviço de destruição completo).

A lei da cópia privada no Prós e Contras

Está a começar o programa Prós e Contras na RTP1, desta vez sobre a proposta de lei da cópia privada. Eis algumas questões que gostaria de ouvir respondidas pelo SEC, pela AGECOP e pela SPA:

  1. Como é que demonstram que a cópia privada tem prejuízo para os autores?
  2. Como é que é possível exercer o direito de cópia privada se os DVD e CD vem protegidos tecnica e legalmente contra a possibilidade de fazer cópia privada?
  3. Qual é a percentagem de dinheiro recolhido pela cópia privada que chega aos autores?
  4. Como é que determinam que autores é que recebem dinheiro vindo da cópia privada?
  5. Porque é que quem não exerce o direito da cópia privada tem que pagar este imposto (sim, é um imposto)?
  6. Como é que quem paga o direito da cópia privada nos produtos digitais não irá pagar duas vezes o mesmo imposto?
  7. Com que base é que os meus equipamentos usados para fins profissionais e pessoais onde não irei exercer o direito da cópia privada terão que pagar esse imposto?

 

Pequenos e médios trafulhas

Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada. Por alegado crime insignificante (embora importe que se vá acumulando jurisprudência sobre casos que tais), comparado com o mal irremediável que fez no ministério que tutelou. As próprias palavras por si proferidas à saída do Tribunal ( “Nunca tinha entrado num tribunal. Estou muito mal impressionada com aquilo que aqui vi”) mostram a distância a que esta gente está dos problemas reais de que sofre o país, que governaram de modo, como diz a lei, “solidariamente responsável”.

Ela e o seu herdeiro espiritual Nuno Crato conseguiram um desolador efeito de devastação no sistema de ensino com o qual parecem ter uma relação no limite do patológico. Para lá de todos os problemas já conhecidos, hoje multiplicaram-se as notícias de escolas – algumas novas! – que vão encerrar, embora algumas tenham mais de quarenta alunos. Já não há limites para a barbaridade. No fim, restam condenações por pequenas e médias aldrabices, favorecimentos, tráfico de influências. Mas o mal pesado que foi e continua a ser feito ficará sem outra resposta que as anémicas reacções eleitorais. Só os crentes ficarão descansados, já que acreditam – como uma pessoa com quem falei hoje – que Deus ajustará as contas depois. Chamam a isto esperança de justiça. Eu, com o devido respeito, chamo alienação. Nisto, eles são mais felizes. Mas também mais disponíveis para ser enganados de novo.

Obrigada por este bocadinho, François! (II)

Trierweiler_2012

A baixa política e o baixo jornalismo franceses geraram Valérie Trierweiler, uma cara bonita que aos 23 anos se agarrou com unhas e dentes (literalmente) à corda de ascender socialmente. Valérie era pobre mas aquilo não ía ficar assim. Ensombrada por essa infância de pobreza e por um casamento que não a tirou de lá, muito pelo contrário pondo no Mundo três filhos para criar, Trierweiler (nome do pai dos seus filhos, Massonneau de seu apelido de solteira) descreve no seu livro-vingança, escrito com a raiva do despeito, um começo de vida que evoca um famoso livro de Christiane Rochefort, Les petits enfants du siècle (1961): estimulado pelas ajudas estatais à natalidade, um casal em dificuldades esmifra-se por gerar a descendência que lhe permitirá comprar os electrodomésticos com que sonha. Despeito é a palavra que domina o livro, visando antes de mais François Hollande que, como a maior parte dos homens faz, trocou uma mulher na meia-idade por uma mais nova, mas talvez e sobretudo a mulher anterior: Ségolène Royal, mãe dos quatro filhos de Hollande a cujos poderosos calcanhares influentes Valérie tenta sem sucesso chegar.

Embora ciente da ironia do destino que expõe com crueldade o ciclo da infidelidade, a despeitada dedica longas passagens do seu livro-sensação Merci pour ce moment a desancar Ségolène. A actriz Julie Gayet, por quem Hollande se perdeu de amores, não está isenta de culpas, mas a pior de todas é Ségolène que, não satisfeita e tendo perdido a eleição presidencial anterior, se abalança em 2012 à presidência da Assembleia nacional de França, a câmara baixa do Parlamento francês. Supostamente em nome da defesa da separação dos poderes executivo e legislativo, Valérie lança no espaço do Tweeter 139 caracteres em defesa de outro candidato ao cargo, desafiando a paciência de Hollande que publicamente apoia Ségolène, «o símbolo supremo, a mãe, a intocável». Trierweiler também é mãe, «mas não a dos filhos do Presidente», e por isso não conta. Royal é uma espécie de Hillary Clinton, diz a dado passo a despeitada. O caso do tweet terá sido o começo do fim para Trierweiler.

Pelo meio, a best-sellerista vai descrevendo a sua triste vida privada de “First Girl Friend”, como lhe chamavam os norte-americanos por não ser casada com Hollande, e os encontros com este e aquele, no âmbito das responsabilidades de Estado que, como mulher de Hollande, teve de acompanhar. O dia em que se encontrou pela primeira vez com Angela Merkel, por exemplo, que a convidou para ir ao festival de Bayreuth.

Como é sabido, os políticos dizem o contrário do que pensam

Passos Coelho diz que prazo de venda do Novo Banco “não tem relação com qualquer processo eleitoral”

“O que tem valido ao SNS é a mãe, a Constituição”

Um balanço dos 35 anos do SNS por António Arnaut.

A justiça relativa dos erros

Portugal não conseguiu alcançar o desiderato de ficar em segundo lugar, posição que ainda poderia levá-lo à segunda ronda da Liga Mundial, feitas as contas pela Federação Internacional em reunião que terá lugar no dia 28 deste mês. É que, ao contrário da primeira edição da prova, ainda não se sabe quem avança, salvo os primeiros classificados, que garantiram já a acesso. No caso de Lousada, a Áustria é, assim, a única selecção com lugar marcado. [Read more…]

Sons do Aventar :: U2 :: Songs of Innocence II

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O tempo é bom conselheiro. Escrevi aqui sobre o último trabalho dos U2 logo após a sua publicação no iTunes. Agora, passados uns dias e depois de ouvir “Songs of innocence” várias centenas de vezes (sim, centenas delas) julgo estar mais habilitado para uma análise mais “profunda”.

Para início de conversa: é o melhor álbum dos U2 desde 1991. Ou seja, desde “Achtung Baby”. Nunca me tinha acontecido tal. Nas primeiras audições gostei, apenas e só. Quanto mais vezes ouvia e ouço, cada vez gosto mais. Talvez tenha começado por ouvir ainda com os dois anteriores em mente, os que menos gosto da banda. Um preconceito errado. Mea culpa.

As primeiras músicas que me despertaram a atenção foram “Every breaking wave”, “California”, “Song for Someone”, “The Troubles” e “Raised By Wolves”. Ao longo dos dias e das várias audições despertei para “Iris, hold me close” e “Sleep like a baby tonight”, “Cederwood road” ou “This is where you can reach” e assim de repente temos praticamente todo o álbum. Portanto, estou rendido. Algumas vão “explodir” ao vivo graças ao seu enorme potencial em concerto. Outras vão ficar para sempre coladas ao corpo. Ok, não estamos perante um “War”, “Inforgettable Fire”, “The Joshua Tree” ou mesmo “October”. Mas não fica muito longe de alguns deles, não senhor. Arrisco mesmo que é um renascer.

Agora é esperar, ansiosamente, que arranquem os concertos! E enquanto isso, mais umas centenas de vezes a ouvir estes “songs of innocence” enquanto não chega o “Songs of Experience”…

Every breaking wave on the shore
Tells the next one “there’ll be one more”
Every gambler knows that to lose
Is what you’re really there for
Someone I was fearless
Now I speak into answer phone
Like every falling leaf on the breeze
Winter wouldn’t leave it alone
Alone

If you go?
If you go your way and I go mine
Are we so?
Are we so helpless against the tide?
Baby, every dog of street
Knows that we’re in love with defeat
Are we ready to be swept off our feet
And stop chasing
Every breaking wave