Franchsing – o renascer do velho cabeça de ovo!

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Isto ia acontecer um dia. Depois das desvairadas recriações de famosas personagens literárias em filmes e séries de televisão, por vezes com recursos cénicos delirantes ou anacronismos patuscos – eventualmente com resultados interessantes, diga-se -, chegou-se ao puro gangsterismo editorial.

Um descendente/herdeiro de Agatha Christie, decidiu – e pode! – fazer negócio com uma escritora inglesa, à qual vendeu o direito de “continuar” a obra da mestra do policial, nomeadamente ressuscitando a figura de Poirot que vai, assim, continuar a exercitar “his little grey cells”. Isto é, Poirot é um franchising! Como asas de frango, cachorros quentes, hambúrgueres. Aposto que o pobre Hastings vai ser substituído por uma capitosa loira cheia de truques e o brioso chief inspector Japp por algum mutante especialista em artes marciais.

Mas o herdeiro e a autora estão felizes, que eu vi. Já lançaram o livro. E em vários países simultaneamente. Ousam declarar que vão continuar a obra de Agatha Christie e já prometem uma sequela. Se isto faz escola, vai ser o bom e o bonito. Estou a ver algum descendente de Proust autorizar um Em Gozo do Tempo Encontrado. De Eça poderá sair Padre Amaro II: o Gay ou A Reliquia II – o Regresso a Jerusalém. De Camilo, Amor de Perdição – Mariana Sabia Nadar!. E nem quero pensar nos heterónimos que Pessoa pode vir a ganhar. Para não falar na publicação de um Azul e Verde, que continuará, em variação cromática, Stendhal, ou na mina que seria continuar a obra de um velho moralista como Sade. E por aí fora. Tremei, escritores vivos! Um qualquer bisneto desusado pode continuar-vos. A possibilidades são infinitas. Basta arranjar um descendente/herdeiro com o adequado perfil de chulo.

Os primeiros livros da vida

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© André Letria

Talvez os livros mais importantes de todos sejam os que são feitos para as crianças, escritos e desenhados para que um dia os abram e descubram dentro deles quase tudo o que interessa saber. Talvez o que depois aprendam, e designadamente a ler, não sirva para quase nada, a não ser para deixarem de ser crianças. Na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, em Lisboa, um curso de pós-graduação em Livro Infantil preenche uma lacuna de formação específica nessa área, destinando-se tanto a profissionais da Edição como do Jornalismo cultural, da Educação ou da Pedagogia, podendo interessar ofícios tão diversos quanto aqueles exercidos por bibliotecários, educadores de infância, assistentes sociais ou animadores culturais.

Vários especialistas ensinam o que sabem fazer melhor, entre os quais a escritora Margarida Fonseca Santos, os ilustradores André Letria e Danuta Wojciechowska, ou o designer gráfico Jorge Silva, e tendo já participado em conferências e seminários de edições anteriores do curso escritores fundamentais como Luísa Dacosta, António Torrado ou Alice Vieira, ilustradores de ponta e lança como António Jorge Gonçalves, ou importantes editores nesta área como Carla Oliveira ou Pia Kraemer. Coordenado cientifica e pedagogicamente por Dora Batalim e José Alfaro, o curso em Livro Infantil está aberto a todos quantos desejem alargar o seu campo de saberes ou simplesmente actualizar-se, e não apenas a licenciados. Mais informações aqui.

“Os onze poderes do líder”

Quem lê muito, acaba, mais tarde ou mais cedo, por ser capaz de produzir umas frases jeitosas, daquelas que ficam no ouvido. E, se tiver ódios de estimação entre figuras mediáticas, sujeita-se a escrever livros. É uma tentação, e já Oscar Wilde explicava isso muito bem, quando assumia que a única coisa a que não resistia era à tentação. Ora, a tentações, nenhum de nós é imune!

“Os onze poderes do líder” é um livro que acaba de sair. O autor, Jorge Valdano, figura incontornável do Real Madrid como atleta, mas proscrito por Mourinho como director, aquando da sua passagem pela capital espanhola, caiu na mais primária das tentações para ficar ainda mais célebre: mostrar ao mundo que, por mais cultura que se tenha e por mais livros que se leia, hélas, somos humanos e faz parte dessa característica mostrarmos ao mundo quais são os nossos inimigos. Amesquinhando-os. A primeira falácia. [Read more…]

Sons do Aventar :: U2 :: Songs of innocence

Songs of innocence

Songs of innocence

 

Já uma vez escrevi: os U2 até podiam lançar um disco de fados que eu o compraria para juntar à minha colecção. Porém, uma coisa é coleccionar. Outra é gostar. E sou assaltado por justas dúvidas da qualidade que teria tal obra.

As mesmas dúvidas que tenho com os últimos dois álbuns dos U2 (“How to dismantle an atomic bomb” de 2004 e “No line on the horizon de 2009”). Nem me atrevo a comparar com “War” de 1983, “The Unforgettable Fire” de 1984 ou “The Joshua Tree” de 1987 – estes dois últimos são os meus preferidos sendo que se fosse obrigado a escolher “o melhor” não teria qualquer dúvida: “The Joshua Tree”. Ainda hoje é obrigatório na minha playlist e a ele volto sempre que me apetece ouvir boa música. Ou seja, todos os meses.

Esta madrugada fui surpreendido com uma prenda da Apple: descarregaram automaticamente e de borla o novo trabalho dos U2, “Songs of Innocence”. Não teve nada de inocente. Uma borla que serve todas as partes envolvidas: os U2 pela promoção e sabendo que nos tempos que correm não é a vender música que se ganha dinheiro (é a vender concertos), a Apple que sabe como poucos publicitar os seus produtos sem gastar grande coisa em publicidade e eu que, independentemente da qualidade da obra, teria de a adquirir na mesma.

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Verdade, essa vingativa

Perdoem-me que regresse a temas locais.

O Porto tem um belíssimo teatro municipal, o Rivoli, um edifício de inícios do século XX, e que após um período de remodelação reabriu, em 1997, como um dos principais equipamentos culturais da cidade. Durante os mandatos do executivo liderado por Rui Rio, e no âmbito da sua política de “contenção de despesas”, o teatro foi entregue a uma empresa privada, a do encenador Filipe La Féria.

O actual executivo de Rui Moreira herdou um teatro entretanto vazio (La Feria saiu há anos) e abriu um concurso público para a escolha de um director artístico do Rivoli e do Teatro Campo Alegre. O escolhido foi Tiago Guedes, que, na sua primeira entrevista nessa qualidade, afirmou que encontrou um teatro que havia sido deixado “em muito mau estado pelo Filipe La Féria”, afirmação que parece ter enfurecido Álvaro Castello-Branco, líder da distrital do CDS-Porto, e que foi também vice-presidente durante os mandatos de Rio, e que para além de acusar Guedes de “ignorância e arrogância”, se declarou “preocupado porque pelos vistos há um avençado da Câmara Municipal do Porto que quer ter opinião política”. [Read more…]

Durão Barroso e 30 anos de política: reflectir

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© euinside (http://bit.ly/1seimMg)

Segundo o Expresso, Durão Barroso terá declarado o seguinte: “Eu acho que neste momento, por várias razões – algumas até pessoais -, é importante respirar, ter uma pausa, pensar, *refletir”. Não é verdade. Lamento imenso. Já aqui no Aventar tive a oportunidade de chamar a atenção para o correctíssimo e exactíssimo reflectir da entrevista de Durão Barroso. Reflectir. Efectivamente. Reflectir.

 

E você? aumentava os impostos?

Os actos de banditismo político em que consistem os saques – pomposamente designados por “cortes na despesa” – dos vencimentos dos funcionários públicos e das reformas dos aposentados, espécie criminosa de imposto dirigido a grupos específicos e, por isso, ilegal, estiveram, curiosamente, ausentes do debate entre os candidatos à liderança do PS. Isto percebe-se e pelas piores razões.

Sei que é injusto para muitos dos melhores portugueses dizê-lo, mas a verdade é que tais esbulhos têm apoio popular e dão votos. É que a soma dos espoliados por estes meios não chega a 10% do eleitorado. Os restantes pensarão – que as muitas excepções me perdoem – que enquanto os predadores estiverem a atacar os servidores públicos e os reformados, não lhes aumentam a eles os impostos. Isto explica que a questão fiscal seja a pérola de todos os debates. Até deste. A palavra de ordem é: “touche pas mon IRS“.

Luxo pago com o dinheiro do contribuinte é imoral

Não sei se o conteúdo deste vídeo é novo para quem o está a ouvir. Para mim não é mas mesmo assim senti a necessidade de o partilhar. Ele fala-nos de um juiz do Supremo Tribunal de Justiça da Suécia que todos os dias pedala até à estação de comboios da sua cidade – Uppsala – e dai segue, imagino, para Estocolmo, num comboio que faz o percurso, segundo o Google Maps, em 38 minutos (de carro seriam 53). Um juiz que, imaginem lá o maluco, é contra a corrupção e acredita que luxo pago com dinheiro dos contribuintes é imoral.

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Francisco José Viegas, o anjinho da procissão

000z90cfO chamado acordo ortográfico (AO90) assentou em três ilusões: o “critério fonético” (traduzido na expressão “escrever como se fala”), a “simplificação” da ortografia para facilitar a aprendizagem e a uniformização ortográfica do mundo lusófono como meio de criar textos ortograficamente iguaizinhos.

Não foi necessário perder muito tempo a pensar para se chegar, rapidamente, à conclusão de que o “critério fonético” acabaria por impedir a criação de uma ortografia única, cuja inexistência, aliás, já estava patente no texto do AO90, em que se admite que ponto máximo a atingir será o da “aproximação ortográfica”, o que correspondeu a destapar de um lado e tapar do outro. Nada disto, no entanto, tem servido de impedimento para que pessoas investidas de autoridade continuem a mentir, anunciando um futuro em que deixará de haver versões diferentes do mesmo texto ou edições diversas do mesmo livro.

Defender a simplificação de qualquer conteúdo a fim de facilitar a aprendizagem é um logro que serve para desvalorizar a importância do esforço e faz parte de um programa facilitista que está na base, por sua vez, de um processo de desinvestimento na Educação. Ainda por cima, um sistema ortográfico mal concebido e, portanto, incoerente, é fonte de confusão e nunca será fácil de aprender. [Read more…]