Reality Showcrates

Casa dos Sócrates

Bem-vindo à Casa dos Corruptos, o reality show onde o participante não sai da casa, entra. Nesta casa, a voz de comando é o juíz Carlos Alexandre e no lugar de Teresa Guilherme temos o CM e o Sol, que é mais ou menos a mesma coisa. Infelizmente não dá para votar nos corruptos que queremos ver lá dentro. Aqui o esquema consiste em, de vez em quando, apanhar um potencial concorrente que tenha dado mesmo muito nas vistas e metê-lo na casa para a malta se entreter em frente ao ecrã. Só que desta vez apanharam um participante de elevadíssimo potencial polémico e as audiências dispararam como nem a TV 7 Dias podia prever. Tudo pode acontecer, é o show da vida real!

José Sócrates é o prisioneiro número 44. A primeira refeição de José Sócrates foi cozido à portuguesa. O ex-primeiro-ministro está no sector feminino da prisão de Évora. Aparentemente tudo isto é da maior importância para o país. Como se uma casa dos segredos e toda a idiotice que a mesma encerra não fosse já suficiente, a comunicação social tem feito um esforço por transformar este caso num show de realidade inédito. Há pessoas que tiram selfies à porta da prisão, visitas de amigos que são escrutinadas e sujeitas a violentos interrogatórios de jornalistas que se aquartelaram em frente ao estabelecimento prisional e um ex-primeiro-ministro encarcerado que escreve cartas, que coloca magistrados, políticos, comentadores, jornalistas e outros mortais em permanente alvoroço e que, como é seu apanágio, seca tudo à sua volta. Um “animal-eucalipto” político.

Se o grande Zeca fosse vivo, haveria hoje “em cada esquina um comentador político”. De um momento para o outro, a sonolenta sociedade portuguesa saiu da TVI e discute Sócrates, em todas as dimensões possíveis, como se algo de verdadeiramente fantástico estivesse a mudar na sociedade portuguesa. Não está. Prender um num universo de milhares de corruptos não é assim tão significativo. Ainda por cima alguém que, pelas suas “ramificações” e capacidade de estilhaçar telhados de vidros daqui até Brasil, irá muito provavelmente safar-se por entre os recursos e as prescrições da chuva, ressurgir mais forte e quiçá acabar em Belém. Mas o milagre da multiplicação dos comentadores políticos remete-nos um pouco para aquele ambiente de café onde este tipo de realidades se discutem. É a “casadossegredização” da política portuguesa. Polémica, ódio e manipulação. Só falta o sexo, mas imagino que até agora a CM TV não tenha conseguido meter uma câmara no balneário do estabelecimento prisional de Évora, algo aparentemente mais difícil do que aceder ao segredo de justiça.

Absorto em sensacionalismo e fios de baba, Portugal assiste ao reality showcrates e tudo o resto deixa de ter importância. Já ninguém se lembra das subvenções vitalícias ou da comissão de inquérito do caso BES, a discussão do orçamento de Estado não existe e os outros corruptos, com a excepção do Duarte Lima que entrou recentemente na casa, esfregam as mãos de tão contentes que estão, agora que ninguém quer saber deles. Apesar de tudo, Sócrates continua a ser mais importante nas suas vidas do que alguma vez imaginaram, não só por ser o melhor bode expiatório, que seca e nele concentra qualquer suspeição que possa recair sobre os seus pares na imensidão da sua existência mediática, mas por ter sobre si todos os holofotes que ainda há poucas semanas tanto incomodavam Portas, Passos ou Cavaco e que poderão afundar o PS liderado por um profissional do alagamento, que de resto será o próximo rei mago a visitar o menino. Sócrates é provavelmente a melhor coisa que aconteceu na vida política de Pedro Passos Coelho. Será que lhe vai valer a reeleição como o chumbo do PEC IV lhe valeu chegada ao governo? Ou seremos brindados com uma nova novela mediática com o primeiro-ministro no papel principal que Lá Féria nunca lhe deu mas que a Tecnoforma lhe poderá dar? Aguardemos. A Casa dos Corruptos pode muito bem ter vindo para ficar. Eu faço votos de que fique e que não olhe a idades. É que andam por aí uns decanos que davam excelentes concorrentes…

Comments

  1. José almeida says:

    Excelente!


  2. Muito bem João Mendes!
    Subscrevo inteiramente e confesso sinceramente que não teria capacidade para o expressar tão bem.
    Beijinhos. 🙂

  3. Rui Silva says:

    Concordo com algumas coisas que escreve, mas acho excessivo a previsão que faz, de que nada está a mudar na sociedade portuguesa. É um pormenor neste texto de toda a importância. Parece-me que pela analise que faz , é uma pessoa interessada e que acompanha de forma critica a vida politica do Pais, no entanto ( no meu entender ) ao presumir que nada está a mudar na sociedade, está a presumir algo que não está em condições de fazer, como ninguém estará. A evolução dum sistema complexo ( como a sociedade humana) é de difícil para não dizer impossível. E como digo, penso que a assunção de que nada está a mudar, pode exprimir um estado de negação. E se assim for, quererá dizer que subliminarmente até pode achar que está a mudar mas no sentido para si indesejado. Ou seja os presos deviam ser outros não estes que eu acho que são “piores” . Em resumo estará a contribuir para o tal Reality Show que condena nos outros.

    cumps

    Rui Silva


    • Rui,

      Infelizmente já não me deixo iludir com tão pouco. Vejo processos mediáticos em cima da mesa (Armando Vara, Duarte Lima) que ainda serão sujeitos a todos os recursos possíveis e que, a julgar pela história recente do nosso país, acabarão por cair na prescrição. Espero estar errado mas não é por terem prendido agora o Sócrates, que muito provavelmente ainda se vai safar, à semelhança daquilo que tem acontecido com os seus pares, e acabar novamente a governar. Porque se alguém tão venerado por alguns sectores como este indivíduo se safa, é para ser levado em ombros até uma eleição perto de si.

      Eu acho que Sócrates deve ser preso e, ao contrário de algumas virgens ofendidas que por aí andam, não acredito minimamente na sua inocência. Eu sei que não é politicamente correcto mas é essa a minha opinião. Mas também acho que este caso está a ser usado como diversion para alguns que, como ele, usaram e abusaram do estado para prosperarem e fazerem outros prosperar e que continuam a passar por entre os pingos da chuva. Basta ver a reunião que se verificou este fim de semana por ocasião do aniversário da Mário Soares para perceber isso. E gente como ele ou Cavaco nunca irão pagar pelas trafulhices em que estiveram envolvidos. Sócrates pagará, enquanto estiver em preventiva, por todos eles.

      • Rui Silva says:

        Caro João Mendes,

        Penso que me aproximo muito da sua posição. O que suscitou o meu comentário anterior foi a sensação com que fiquei, que estaria a condenar a justiça pelo facto de esta estar a atuar. Penso que afinal não é o caso, reconheço que provavelmente foi errada a minha interpretação. Penso que depois de ver tantos comentadores, que andam á décadas a criticar a inoperância de justiça, a criticarem a atuação da justiça em prol da defesa atabalhoada (diga-se) do Eng. José Sócrates ( como Miguel Sousa Tavares, Clara Ferreira Alves e muitos outros) já estou de “pé atras”.
        No entanto, queria dizer que devemos apoiar a justiça nestes casos para que esta se sinta obrigada a atuar nos outros nomeadamente nos que aqui citou.
        Se criticarmos a justiça neste caso, os interessados na inoperância judicial vão “cavalgar” esta opinião pública, para ver se ninguém se lembra deles mesmos.
        Nesse sentido este “Reality Show” ( que eu não defendo ), pode também exercer uma “pressão útil” sobre este habitualmente e seletivo inoperante, sistema judicial.
        As pessoas tão preocupadas com o garantismo do direito dos arguidos que não se preocupem , que , se no fim de contas a pessoa estiver incidente ( com a sua inocência cabalmente demonstrada), formar-se-á de novo um outro “Reality Show” para o respetivo desagravo,

        cumps

        Rui Silva


        • Nada disso Rui: não condeno a justiça por actuar. Pelo contrário, gostaria que actuasse mais vezes e não apenas de vez em quando para serenar a turba. Mas repare que hoje tudo voltou ao normal: o caso dos submarinos foi arquivado e Portas voltou a escapar. Teremos que esperar que saia do governo para que a justiça volte a funcionar?

      • José Peralta says:

        João Mendes

        http://duas-ou-tres.blogspot.pt/2014/12/presuncao.html

        “Se o caso contra José Sócrates não fôr suficientemente sólido, se do trabalho dos acusadores viesse a saír apenas um novelo de suspeições circunstanciais, um pacote de meras convicções, estaríamos perante uma canalhice sem nome, uma acção miserável sobre um homem, que credibilizaria então todas as suspeições que existem sobre a instrumentalização do sector da Justiça”.
        (Francisco Seixas da Costa)

        “Eu acho que Sócrates devia ser preso e, ao contrário de algumas virgens ofendidas que por aí andam, não acredito na sua inocência”.
        (João Mendes – Aventar)

        Em primeiro lugar, caro João Mendes, digo-lhe que concordo com quase todo o conteúdo do seu texto, no que se refere à “casa dos corruptos” versus “casa dos segredos”.

        Depois, manifesto-lhe a minha mágoa por JÁ não ser “virgem” e muito menos “ofendida” por que, para o bem ou para o mal, virgindade, incluindo a “política”, já se foi há longos anos…

        Por isso, fazendo minhas as judiciosas palavras do Embaixador Francisco Seixas da Costa, com as quais concordo, convido-o a reflectir sobre uma outra vertente daquilo a que chama “Showcrates”:

        E SE, “do trabalho dos acusadores vier a saír apenas um novelo de suspeições circunstanciais”?

        E SE, “estivermos perante uma canalhice sem nome, uma acção miserável sobre um homem”, destruindo-lhe a vida, e não só a vida política porque, por muito inocente que esteja, haverá sempre “virgens ofendidas” que dirão sempre o contrário !

        E SE (hipotética e alegadamente) se confirmassem estes pressupostos, que aconteceria aos fautores de tão clamoroso erro judiciário ? Seriam relapsos ao reconhecimento do erro ? Seriam protegidos pelos seus pares, utilizando todas as prerrogativas e escapatórias da Lei que tão bem conhecem ?

        Ou, para Honra e Bom Nome da Justiça, seriam sentados num competente banco dos réus ?

        Cumprimento-o com consideração


        • José, quando falei em virgens ofendidas, referia-me a determinados socialistas, repletos de telhados de vidro, que agora clamam pela inocência à prova de bala do antigo primeiro-ministro. Por princípio, sou a favor da presunção da inocência mas depois deparo-me com situações como o arquivamento do caso dos submarinos, caso que condenou outros intervenientes na Alemanha, e fico triste por verificar a facilidade com que se foge à justiça neste país. EU não acredito na justiça no que aos políticos diz respeito. Não acredito. E aquilo que dá substância à minha não crença é o regime clientelista em que vivemos em que, apesar de tantas evidências sobre comportamentos “desviantes” da casta política, acaba sempre tudo bem para tais indivíduos. Se um dia se provar que Sócrates é inocente em todos os casos em que se vê envolvido, serei o primeiro a retratar-me, pode ter a certeza.

          Um abraço

  4. luis says:

    Não deixa de ser curiosa a forma como todos os quadrantes do “Arco da Corrupção” lidam com esta.
    Se os ouvirmos em coro todos dizem que não “sentem” a corrupção, que a corrupção por cá não é maior do que lá e que essa mesma corrupção não é a causa da verdadeira tragédia que nos persegue.
    Estas “opiniões” passam por debates “terríveis” entre a lesma e o caracol que têm como protagonistas um Daniel Oliveira, o cara de bolacha e a perua enfatuada do “eixo do Mal”, passando pelos especialistas Louçã, ( uma excelente conversão do regime), ou Pedro Adão e Silva e pelos “credíveis” Tavares “Rico”, (desde que a filha casou com o filho do burlão do BES), e por aquela “jornalista, Inês Serra Lopes que viu um sósia de Carlos Cruz para ajudar o pai advogado do mesmo.
    A filha da Felgueiras colabora trazendo para os debates o advogado dos vigaristas como a mãe dela e junta uma mosca à volta deles chamada Inês Serra Lopes “jornalista” que viu um sósia de Carlos Cruz, que por acaso tinha o pai dela como advogado.
    Como acima disse toda esta gentinha não “sente” a corrupção”, pelas mais diversas razões e, quando a justiça ataca os poderosos do regime, cá os temos em chusma a criticarem as leis, os procuradores e os juízes, as fugas de informação fazendo-se desentendidos de que é a corrupção do sistema que está em causa.
    E como é que eu sei estas coisas todas?
    Onde é que eu vou beber estas “novidades”.
    Ao Expresso? À SIC ou à TVI ou à RTP? Ao DN? …
    Não senhor!
    Vou ao “tablóide” Correio da Manhã TV, onde vejo e oiço debates com contraditório e onde se discute o conteúdo do texto e não as virgulas.
    Vejo o Dâmaso e o Marinho Pinto que desde sempre denunciam a corrupção em Portugal. Vejo o Paulo Morais a quem o cara de bolacha chama populista. Veja a Joana Amaral Dias. Vejo o Viegas ex-secretário de estado do Passos. Vejo o Rui Pereira que foi ministro do Sócrates (excelente a sua participação nos debates), e vejo dos melhores jornalistas de investigação que há em Portugal.
    Pode-se não gostar das pessoas e do estilo mas que há debate de ideias há.
    Passem por lá e vejam os debates nessa TV “tablóide”, (que denunciou a permanência na mesma cela do motorista e do amigo do Sócrates), e comparem-na com os debates políticos nas televisões desinfectadas do regime.
    Declaração de interesses: não sou accionista da CMTV e só por lá passei por indicação do perua enfatuada da SIC que se referiu com desprezo a esta estação televisiva!

    • Rui Silva says:

      Boa Luís,

      Gostei do seu comentário. Em relação á sua observação sobre o “grupinho” que diz que a corrupção não existe, só me faz lembrar do velho adágio: ” … o peixe não sabe que está molhado…”.
      E a esses “comentadeiros” e “jornaleiros” que se alimentam indiretamente do sistema através da “migalhas” que comem das palminhas os “políticos” , convém chamar “populistas” aos colegas do Correio da Manha, que fazem o trabalho que eles deviam fazer.

      Agora a má da fita é a Felícia Cabrita.

      Mas é assim a comunicação social que temos.

      cumps

      Rui Silva


    • Confesso que me causa alguma estranheza a integração do Daniel Oliveira no lote, até porque é uma das vozes mais activas contra o regime e tudo aquilo que este encerra. Mas são opiniões. Eu acompanho o Eixo do Mal e o Governo Sombra e não me lembro de ver serem colocados panos quentes sobre as trafulhices dos senhores do regime, pelo contrário. Agora querer fazer do CM um baluarte da investigação independente soa-me anedótico. E mantenho a minha opinião sobre o estilo tablóide e sensacionalista do CM porque é isso que ele é: tablóide e sensacionalista.

  5. Rui Silva says:

    :


  6. http://www.provoca-me.com/post/104811159690/carta-a-jose-socrates Também escrevi sobre as cartas. A proeza dessas porcarias fazem-me escrever. Não me lembrei foi dessa parte das atenções sobre tudo o resto. Texto muito bom o seu, pena o estrangeirismo.

  7. campus says:

    João Mendes, no último parágrafo está a referir-se a Mário Soares ?


  8. O post como entretenimento vai dando. Nem reparou que o cunhado do rei de Espanha levou vinte anos, coisa impensavel dez anos atrás. Em toda a UE as coisas estão mesmo a mudar.
    http://offshoreleaks.icij.org/search . para quem gosta de perceber do que fala aconselho este link acima.

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  1. […] uma visita oficial da direcção do clube a que preside ao mediático benfiquista confinado ao reality show preventivo. Onde estava Carlos Abreu Amorim quando as escutas telefónicas entre Pinto da Costa e […]


  2. […] Claro que, como em tudo, a parvoíce tem limites. Entre a demagogia o populismo que têm caracterizado parte da sua defesa de José Sócrates, Mário Soares fez um conjunto de afirmações extraordinárias no artigo “Portugal e o novo clima” (DN) que parecem algo “desfasadas” da realidade. Entre outras pérolas, Soares afirma não serem apenas os socialistas que estão “a favor” do ex-primeiro-ministro e “furiosos” com a situação em si. O presidente da fundação com o seu próprio nome vai mais longe e refere mesmo que “Nunca tantos portugueses se manifestaram a favor de Sócrates, estando ao mesmo tempo indignados pelo que lhe aconteceu“. Não sei se Soares se estará a referir ao célebre autocarro que veio da Covilhã, cujos fervorosos e democráticos socráticos obrigaram a intervenção policial para evitar que um humorista no local fosse agredido, ou se por outro lado se refere aos camaradas do partido que se dirigiram a Évora para visitas protocolares, quiçá movidos pelo medo de virem a ser os próximos a entrar no Reality Showcrates. […]


  3. […] O reality show favorito dos portugueses está de volta. José Sócrates viu a medida de coacção alterada para prisão domiciliária e, de repente, nada mais parece existir. Os telejornais abrem com José Sócrates e dedicam-lhe seguramente cerca de 1/3 da sua duração. Por todo o lado se discute Sócrates e tudo o resto – que conveniente – deixa de ter importância, seja a atribulada campanha para as Legislativas, a venda do Novo Banco aos camaradas do PCC, a alienação ao desbarato do património do Estado ou o futuro da Segurança Social. Já vimos este filme. […]

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