O granel

11009145_804741579619231_426917489460106792_n
É uma coisa amargamente sabida: um dia, muitos de nós, com ou sem vontade, mais batráquio menos batráquio, poderemos estar na dispeptica situação de, na eleição presidencial, ter de votar no candidato que se opõe ao candidato da direita. Isso faz com que o espectáculo indecoroso a que se vai assistindo para os lados do PS seja assunto de todos, já que não faltarão, nesse momento, apelos à concentração dos votos da esquerda, sobretudo, claro, na segunda volta, se a houver. Não fora isso e não perderia um minuto com este assunto.
1º Capítulo – Henrique Neto anuncia a sua candidatura, no pleno direito que lhe assiste. Logo Medina Carreira se lhe cola e, passadas horas tem honras de ataque grosseiro – ao estilo dos protagonistas – por parte do José Lelo e Santos Silva. Da direcção do PS, silêncio.
2º Capítulo – Sampaio da Nóvoa candidata-se a candidato. Logo tem o apoio de Mário Soares e Manuel Alegre. Mas também as dentadas nas canelas por parte de Vera Jardim, Vital Moreira e, pior ainda, Sousa Pinto. E digo que é pior a intervenção deste último porque é membro do Secretariado do PS e não comentador ou jornalista de tablóide. Quer dizer, as suas declarações, se lhe resta algum respeito pelo compromisso partidário que tem, criam um problema mais complicado ao líder. Criará? Parece que não. Instado a comentar a bagunça, António Costa – que se esperava mais assertivo -, relutantemente, não achando melhor discurso, lá foi dizendo que o PS é um partido de pessoas livres, etc e tal, conhecemos a retórica.
O problema é que, sendo todas estas pessoas livres – ai de mim duvidá-lo – deviam, também, ser responsáveis. E não parecem ser. A sucessão de eleições que aí vêm não são nenhuma brincadeira e dispensamos todos esta feira de vaidades e de egos enfunados. Não me pronuncio sobre nenhum dos candidatos, muito menos me cabe questionar as suas motivações. Tampouco discutirei aqui, por ser prematuro, as suas perspectivas políticas. Mas recuso-me a assistir a calado ao modo como se queima, de forma mais ou menos reptícia, mais ou menos bronca, o terreno político a quem, no pleno uso da sua cidadania, apresenta candidaturas que podem vir a ser vitais no momento certo. Não questiono a livre crítica, mas as personagens que apareceram a emiti-la – na falta de ideias políticas e procurando entreter os incautos do que mais importa – não têm feito outra coisa que não minar este processo, produzir ataques ad dominem e estreitar um terreno que, parecendo agora uma coutada do PS, mais tarde ou mais cedo será de todos. O que me dá direito a escrever isto? É o facto de nunca ter faltado com o meu voto para, custasse o que custasse, derrotar o candidato da direita. Por isso, do meu modesto lugar, protesto contra este enredo de mau gosto. A não ser que eu esteja a ver mal tudo isto e a direcção do PS não é, afinal, incapaz, dividida e desorientada, mas predadora e manhosa, estando, de facto, à espera que os coelhos (salvo seja…) saiam da toca para os ir abatendo um a um, libertando a cena.
Conhecem a figura mítica do Ouroboros? É a cobra que se devora a si própria. Penso nele quando vejo tudo isto. Embora saiba bem que é um símbolo com um significado demasiado sofisticado para representar esta situação. Este desatinado granel.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Meu caro José Gabriel: Compreendo perfeitamente o seu raciocínio, mas depois de passados quarenta anos em que vimos a ser governados por políticos de três partidos (se quiser, dois partidos e um reboque) que com mais ou menos maioria, criaram verdadeiros cartéis que nos depenaram, pensar que um deles faz política de um modo diferente do outro, não será ingenuidade? Cumprimentos.


  2. Caro Ernesto Martins Vaz Ribeiro: compreendo o seu ponto, com o qual não me é difícil concordar. E respondo~lhe com o velho Sócrates (o Grego!…): “Não sou céptico, mas não tenho ilusões.”


  3. Tenho que discordar da visão( numa eleição uninominal principalmente) da dicotomia esquerda/direita; como é mais que logico nem dum lado estão todos os bons nem do outro todos os maus. Reduzir a vida politica a um campeonato é proprio de “democracias” africanas, sulamericans ou mais refinadas de Cuba ou Coreia do Norte.Analisar as valias individuais dos candidatos sejam ou não da seita parece-me mais ajuizado.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Carocristof9.
      Esta manhã postei no Facebook, o que aqui lhe deixo, a propósito de virtudes:
      A “COERÊNCIA” DELES.
      De manhã ouvi as declarações de Manuel Valls, 1º Ministro Francês :
      1 – Junto a Passos Coelho:
      “Cumprimentar o governo e o povo português pela coragem das reformas”.
      2 – Junto a António Costa:
      “Portugal e a França na mesma luta contra a austeridade”.
      Fantástico !!!
      Agora entre eles:
      1 – Diz António Costa ao Jornalista que o entrevistava: “É com muito gosto que recebo o primeiro ministro francês que tal como nós, pertence à família social-democrata europeia”
      2 – Atalha Manuel Valls de imediato: “Socialista, socialista” …
      Quem gozou foi o jornalista que ia dizendo o pensamento de António Costa, há semanas em frente aos chineses…
      Gloria sic transit mundi…
      Parabéns à coerência!!!


  4. ps de esquerda? psd cds de direita? Poupa-me. Estão os três ligadissimos desde sempre e os dois são de direita e um de esquerda, que categoria.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.