Como curar-se do medo de andar de avião

Disponho de vários, ainda que pouco sofisticados, recursos para distrair-me do meu medo de voar e nenhum deles inclui meia garrafa de conhaque. O último que usei foi comprar, para a viagem de regresso, Revolución en el Jardín, um livro de crónicas do mexicano Jorge Ibargüengoitia, autor que ainda há pouco eu desconhecia e que tem, entre outras qualidades, a de descobrir a comicidade mais ou menos escondida nas coisas solenes desta vida. Com o livro novinho em folha e a previsão de que a viagem seria rápida, ignorei o facto de me ter sido atribuído o pior lugar possível, o da janela. Quem está à janela do avião sofre triplamente: pode ver, ao contrário dos passageiros do lado, exactamente quão alto está; tem mais dificuldade em perscrutar sinais de alarme na tripulação ou movimentações suspeitas no cockpit; e será o último da fila a conseguir escapar caso seja preciso sair pelo corredor numa emergência. Logicamente, há que escolher sempre o corredor.

Já percebi que falar do medo que se tem de andar de avião tornou-se uma coisa provinciana e démodé, nesta época em que o low cost democratizou as viagens de avião. Eu tenho medo, de facto, de todos os aviões, e nem sequer nas viagens de 10 horas, feitas durante a noite, consegui pregar olho, porque passo todo o tempo atenta a possíveis sinais de perigo. Os motores estão a fazer um ruído estranho? A trepidação aumentou? A hospedeira olha insistentemente pela janela? Ou atravessa o corredor apressada em direcção ao cockpit? O “Plim!” do sinal para apertar os cintos de segurança, então, dá-me calafrios. Se nos mandam apertar agora os cintos, penso de imediato, é porque o avião está a cair.

É verdade que as estatísticas demonstram que não há meio de transporte mais seguro, mas já sabemos quanto pode mentir a objectividade dos números. E os passageiros que encontrei tão ou mais amedrontados do que eu, como certo americano cinquentão que emborcou sete uísques na primeira hora de voo, também sabem, mas pensam sempre que podem ser a desafortunada excepção que há-de validar a regra.

Claro que tudo isto começa com as minhas vertigens, quase tão más como as do Scottie, e que eu ainda não resolvi. Bem, mas desta vez eu ia com o livro do Ibargüengoitia, e estava tudo a correr bem, até tinha conseguido não prestar atenção às idas e vindas da tripulação, o avião já tinha fechado as portas, eu já ia para a terceira crónica, quando me dá – fatídica ideia! – para ir ler a nota biográfica do autor. Foi assim que descobri que Jorge Ibargüengoitia morreu com apenas 55 anos, num acidente de avião, no mesmo, mesmíssimo aeroporto do qual eu estava prestes a descolar.

Não tenho palavras para descrever-vos o meu horror.

Logo a seguir, desatei à gargalhada.

O próprio Ibargüengoitia, suspeito, era capaz de achar graça à situação, caso pudesse conhecê-la. Se o diabo está nos detalhes, deus está nas coincidências e tem um humor perverso como o caraças.  Sobrevivi à viagem, como já devem ter constatado, e fui procurar mais informações sobre o acidente que vitimou Ibargüengoitia. Deveu-se, ao que foi apurado pelas autoridades, a um erro do piloto. Na caixa negra ficaram gravadas as últimas palavras pronunciadas na cabine de pilotagem, em resposta aos insistentes avisos do dispositivo de segurança de que o avião voava demasiado baixo: “Cala-te, gringa!” Logo a seguir, o avião embateu, dando razão à gringa.

Comecei a pensar que bem posso aproveitar esta coincidência para deixar de lado, de uma vez por todas, o medo de voar, sendo certo que não se deixa de ter medo por se decidir deixar, mas é preciso começar por algum lado. Se funcionou só saberei para a próxima. Mas estou tentada a levar sempre o livro do Ibargüengoitia como talismã.

 

Comments

  1. Rui Silva says:

    Cara Carla Remoaldo,

    Tem razão quanto ao…
    “É verdade que as estatísticas demonstram que não há meio de transporte mais seguro, mas já sabemos quanto pode mentir a objetividade dos números. “.

    Estou farto de ouvir dizer isto, e realmente assim é apenas devido á manipulação dos números. Pois se considerarmos o nº de vitimas em função dos Km percorridos a segurança aérea é idêntica á rodoviária. Com desvantagem para a aviação pois no rodovia há imensos condutores muito mal preparados, não há controladores aéreos e outras ajudas …

    cumps

    Rui Silva

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    Sou exactamente como tu – não gosto nada de andar de avião e qualquer coisa, para mim, é um sinal de que algo de mal está a acontecer.
    Felizmente, tenho tido sorte com os copilotos. Tu também, pelos vistos…

  3. Konigvs says:

    Eu nunca andei de avião. Já me ofereceram uma viagem e estadia de uma semana em Londres (só tinha de pagar a alimentação logicamente) e estupidamente declinei tão simpática oferta. Porque era dezembro e porque no ano anterior os aeroportos tinham estado fechados por causa da neve, mas no fundo não fui porque coisa e tal.
    Depois de bastante tempo desempregado, eis que vou a uma entrevista, e dizem-me “para que depois não digas que não foste avisado” que é muito provável que tenha de ir para o Brasil ou Angola… Era uma só vaga, milhares de candidatos (poucos selecionados para entrevista) e dou por mim, convicto que era um candidato forte, mas já quase em pânico, a desejar não ser eu o azarado que ia ficar com o raio do emprego. “Estou a ligar-lhe para lhe dizer que foi a pessoa escolhida” disseram-me dois dias depois. Quase um ano depois continuo virgem, e ainda bem.
    Mas sinceramente, e quando, lá está, mais uma vez estatisticamente, tenho 3x mais probabilidades de ter um cancro que a maioria da população (e em cada duas pessoas uma vai ter um), e vejo à minha volta toda a gente a morrer dessa forma pouco digna, começo a achar que morrer de avião seria bem melhor.
    Ainda sobre as estatísticas, acho que é comummente aceite, que o meio de transporte mais seguro, é o elevador, ou ascensor, ou monta-cargas. Milhões de pessoas usam-nos a toda a hora, e que se saiba não andam para aí a cair. E não têm pilotos nem costumam entrar em greve.


  4. Já devo ter visto todos os episódios dos programas “segundos fatais” ou “mayday” nos canais temáticos e procurei no youtube os episódios que perdi… Dito isto faço com alguma regularidade viagens de avião. Este ano tem sido praticamente 2 viagens por semana, algumas com escala em pistas que nada têm a ver com aeroportos internacionais. Já perdi a conta e também o medo. Mas estou sempre atento nos momentos da aterragem e principalmente descolagem, no primeiro caso até sentir os travões, mesmo que bruscos é sempre uma sensação de alívio, no segundo caso até que soe o sinal que identifica que a subida está estabilizada e podemos desapertar cintos.
    Mas em toda a minha vida apenas tive um voo complicado, já lá vão 16 anos, é inesquecível. Durante as 2 horas do voo não foram permitidas refeições, a tripulação permaneceu sentada nos seus lugares, uma turbulência quase constante, uma aterragem na Portela com ventos cruzados. A bordo ouviam-se gritos, pessoas a rezar e outras mudas que não deveriam estar menos que em pânico. No final o piloto garantiu a segurança dos passageiros e aterrou na Portela quando a maioria dos colegas optou por Faro…
    Eu diria que o pior é a sensação de impotência, o não podermos fazer nada. Mas por exemplo na estrada, quando depende de nós, quando podemos fazer algo, por vezes sai asneira. Ainda que não seja dos piores, já contribuí para a estatística da sinistralidade rodoviária, felizmente sem outras consequências que as materiais. Mas temos sempre a sensação que estamos no comando. Vale o que vale.


  5. Sempre que viajo de avião escolho o lugar à janela, não sei porquê mas é onde me sinto mais segura! Imagino que se acontecer alguma coisa…talvez consiga sair por aquele “buraquinho” a que chamam de janela LoL
    A primeira viajem que fiz foi ao Brasil e logo que entrei dentro do avião pensei – porra bem que podias tirar a “virgindade de voar” num percurso mais curto, agora vais levar com 9 horas e se tiveres medo não vais ter hipótese nenhuma de te porem em terra! – pois, claro que tive medo, muito medo! Mas não dei parte de fraca. Na altura ainda se fumava nos aviões e naquelas 9 horas fumei mais de 1 maço de tabaco enquanto vi um filme do 007; e o Império do Sol. Dormir? Nem pensar…não fosse o avião cair…
    Cheguei ao Rio de Janeiro, sã e salva! O regresso foi feito durante a noite…adormeci uma hora depois de o avião ter descolado, e só acordei quando a hospedeira me veio trazer umas toalhinhas quentes para lavar as mãos e poder tomar o pequeno almoço…e aterrei em Lisboa também sã e salva!
    A partir daí para onde vá, se puder, vou de avião. É o transporte que prefiro, pelo conforto e rapidez da viagem…
    Quando chegar a minha hora, não importa o sitio onde esteja, seja ar, terra ou mar, ela vai chegar sem qualquer aviso prévio.Quando tem de ser é! Porque até há aqueles que tinham a viajem naquele avião que caiu, mas ou porque adormeceu, ou porque não conseguiu chegar ao aeroporto por causa do transito, ou, ou, ou…simplesmente porque não tinha chegado a hora!
    Por isso há que aproveitar a vida enquanto cá andamos e sem medos 🙂

  6. Nightwish says:

    Aconselhava a Carla a não ir para a Madeira, para o medo não voltar a duplicar. Aquilo é um ai Jesus.

    • Teresa Bizarro says:

      Pois tanto quanto me lembro, a minha estreia em viagens de avião foi mesmo para a Madeira e não tive medo nenhum…e sempre que possível, quero o lugar da janela, gosto de ver a paisagem 😉

  7. adelinoferreira45 says:

    Tenho horror em andar lá em cima e pelo que percebo todos vós falam em aviões.
    De forma abreviada quanto possível vou contar o meu baptismo nessa coisa de andar no ar.
    Estava à cerca de 3 meses numa operação militar de grande envergadura designada “Nova Luz” numa zona chamada Missão, por aí em tempos ter existido uma organização religiosa.
    No local havia 2 batarias de artilharia e um posto de Comando Avançado do QG. Todos os dias durante a noite os obuses faziam o que deles a tropa espera. De lá saíam os hélis com os comandos para os deixarem algures, e o som dos tiros eram audíveis. Na operação estavam dezenas e dezenas de unidades, pois a mesma tinha por alvo uma região (Dembos ) imensa.
    Cerca de 3 meses a dormir no chão, sem nunca ter tomado um banho, cortado o cabelo ou feito a barba e a minha mulher de bebé em Luanda de onde eu tinha saído. Por dever de ofício era o primeiro a saber de tudo que era relevante. Num “belo” dia começo a ler, letra à letra que as unidades deveriam regressar 4 dias após, às suas origens. Os “turras” estavam de certeza furibundos com tanta metralha e eu com cerca de 600 kms de auto estrada para percorrer em 6/7 dias. Pensei, a mulher de bebé tinha que servir para alguma coisa e se estivesse doente ainda melhor. Consegui a permissão para alugar um teco-teco (4 lugares com piloto incluído ). O perigo residia agora nos 30 kms até à Fazenda Maria Fernanda, onde havia uma porção de terra plana num morro que se chama pista. O teco-teco quando chegou já trazia 2 militares; entrei naquela coisa, o piloto começa a acelerar, aquilo abanava por tudo que é sitio, o espaço da “pista” cada vez é menor, o morro tinha chegado ao fim e aquela coisa deixou o contacto com terra firme. A viagem (o que me trouxe aqui) foi de morrer. Tão arrependidinho. Só quem viajou numa coisa daquelas pode perceber. Lá do alto a paisagem era toda verde, olhava para baixo e tudo estava no mesmo sítio, o aparelho estava parado ia cair, não havia pontos de referência para ter a noção do deslocamento. Ainda não refeito deste susto, aquela coisa tem uma queda na vertical que me deu volta ao estômago. Esta última foi multiplicada por 5 ou 6 vezes. Um horror.
    Passados uns tempos fui para S.Salvador do Congo. Faltava pouco tempo para acabar a guerra e a mulher e o bebé permitiram que todos as sextas viesse a Luanda no Nord Atlas da FA e na segunda regressava no Dakota da DTA, mas cheio de medinho.
    Não fora a contenção e o tema dava para uma folha A4.

  8. A. Pedro Correia says:

    Eu pelo-me por uma janela. Se não me dão janela, fico amuado, é das poucas coisas que me faz amuar. Algumas das coisas mais bonitas que vi na vida foi a partir da janela de um avião. Uma delas foi uma tempestade nocturna sobre o Sudão. Bonito mesmo!

  9. Dora says:

    O medo/pânico de viajar de avião é terrível, o que tem sido uma grande limitação na minha vida.

    Quase tão mau como viajar de avião é estar em aeroportos. Os aeroportos tiram-me do sério e perco-me completamente com os papéis, passaportes, gares e mais gares e mais gares, atrasos e filas. Já nem falo em voos não directos. Aí é o descalabro total.
    E depois, há o espaço mínimo entre assentos, numa promiscuidade com os viajantes da frente, de trás e de lado. Os WCs causam-me claustrofobia, mesmo pensando nas cenas fetiche de hot sex.

    Os olhos ficam cansados de olhar para o pessoal de bordo nos aviões, à espera de qualquer sinal fora do normal.

    Resumindo: não há nada como andar a pé e fumar 1 cigarro, embora aquelas portas de certos edifícios, todas envidraçadas, sem que se vislumbre em tempo normal a porta de entrada e aqueles elevadores me façam lembrar o embaraço de aviões e aeroportos.

    É chato!


    • Eu acho piada a aeroportos até ao momento em que é preciso passar no controlo. Já as filas de hamster, às voltinhas, são irritantes que cheguem. A ridícula inspecção de tubinhos de pasta de dentes, os detectores de metais a apitarem, os seguranças mal-encarados… Desta vez, as pessoas que estavam a olhar para o monitor do raio X às malas estavam muito entretidas à conversa:
      – Então deixaste de comer alface?
      – O médico proibiu-me, faz-me muitos gases.
      Belo momento. E com isso, a minha pasta de dentes passou indetectada.


  10. Apesar de mais de 200 horas de vôo, continuo a ter um medo que me pelo das alturas. Das sete ou oito vezes que atravessei o Atlântico, ou sempre que sobrevoo o mar, os sentidos ficam mais alerta. Como os rafeiros medrosos, finjo que estou a dormir, um olho aberto, outro fechado. Ainda não encontrei explicação racional para ter mais medo se voar sobre água que sobre terra.


    • Atravessar o oceano é angustiante para quem tem medo de voar. Talvez o que assuste mais seja a dificuldade dos meios de socorro em chegar ali. Isto no pressuposto optimista de que o socorro seja útil, claro.

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