Num país que já foi inventado: Portugal Anedótico e digno de registo

Joaquim Vitorino

ria

1. Estava eu a alinhavar um artigo onde queria fazer referência a um texto publicado por um correspondente do jornal “O Concelho da Murtosa”, mensário, edição de Agosto de 2006.
2. Dirigi-me à redacção e director do jornal para aquela consulta e ouvi isto: não temos. Perguntei onde podia encontrar, e a resposta foi: na biblioteca municipal.
3. Lá fui e disse ao que ia. A senhora foi ver e disse: só temos até 1996. E perguntei onde poderia encontrar. A resposta foi: na Câmara, no gabinete do senhor vereador do pelouro da cultura. Estranhei muito e fui a outra biblioteca, que supostamente teria.
4. Dirigi-me à biblioteca municipal de Estarreja, uma vez que aqueles dois concelhos são gémeos e o que se publica dum lado publica-se do outro. E aí, ouvi isto: temos até 2005, mas depois a Câmara deixou de comprar.
5. Fui então à Câmara da Murtosa e na recepção (lá escrito receção), disse ao que ia, e que na biblioteca não havia. Respondeu ele: então vá ao jornal. Lá tive que contar todos os passos anteriores. Aí, disse-me para esperar e subiu as escadas. Voltou alguns minutos depois, dizendo. Temos; e o que é que o senhor pretende? Respondi que queria consultar e, eventualmente obter fotocópia duma página. Mandou-me subir e dirigir-me a um dado gabinete, que a senhora já sabia o que eu queria.

6. Subi, entrei e cumprimentei. Disse ela: é o senhor do jornal? Disse sim, e ela saindo para o corredor mandou-me segui-la, e subimos mais um andar. Fomos ao encontro duma outra senhora que já vinha em sentido oposto e perguntou: qual a data do jornal? Lá lhe disse, mandou-me esperar, voltou atrás, veio com uma caixa de arquivo, entrou para outra sala, pousou o material numa mesa, puxou de duas cadeiras, sentou-se e mandou-me sentar. Eu disse que a pesquisa poderia demorar um tempinho, que dispensava a sua presença e depois a chamava. Disse que ficaria ali. E ficou, observando tudo o que eu observava, página por página. Encontrada a matéria, disse-lhe que pretendia uma cópia daquela página. Pegou nela e disse, venha comigo. Descemos ao rés-do-chão.
7. E dirigindo-se ela a outra funcionária disse: faça um requerimento para este senhor obter uma cópia desta folha do jornal. E esta outra, pediu-me o BI e o cartão de Contribuinte, e começou a escrever, depois de perguntar à primeira, se o requerimento era para o presidente, para o vice-presidente ou para o vereador. Nem percebi qual a resposta, mas ela escreveu e pôs-me o papel e uma caneta à frente para eu assinar.
8. A funcionária que comigo veio, pegou no requerimento e na folha do jornal, subiu escadas, e alguns minutos depois voltou com o despacho de deferido e com a cópia da folha. Mas antes de me passar a cópia para a mão, apontou para um outro funcionário e disse: pague ali, Lá fui e ouvi: são €2,20. Paguei e recebi um recibo.
9. Disse boa tarde aos circunstantes e agradeci a Deus por me ter dado este país maravilhoso. Nem digo mais nada! E para quem não acreditar, que vá à Murtosa para saber o que o jornal publicou no dia tal…

Comments

  1. Ricardo Santos Pinto says:

    Kafka
    (ias ao Porto e era mais rápido)

  2. Rui SIlva says:

    E o Zé a pagar isso tudo. A eficiência do sistema publico no seu melhor…

    cumps

    Rui SIlva


  3. quem os conhece não estranha, quem não os conhece admira-se. mas eles existem, podem, querem e mandam.


  4. hoje, com um reles smartphone,gotográfa-se… Fico envergonhado pela minha terra dar esta caricatura do pior do estilo manga de alpaca burocrático.

  5. Mariana Correia says:

    É com muita pena minha que vejo que Também na Murtosa se passa o que se passa em Portugal! Se próximas “buscas” surgirem recomendo parar para provar uma bela caldeirada de enguias, uma aula de kitesurf na ria ou um café à beira mar. Muito de bom também acontece na Murtosa!

    • Rui SIlva says:

      Fique descansada Mariana , este problema não é da Murtosa, o problema é desta máquina publica infernal que está disseminada por todo o País garantindo a burocracia e criando “jobs” para o funcionalismo público.

      cumps

      Rui SIlva


  6. Deus o tanas, mas isto é serviço púdico.

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