Ritalina: hiperactividade, educação ou negócio?

Em democracia não há territórios sagrados, apesar de existirem algumas reservas, na sociedade não médica, à entrada na esfera clínica. Normalmente, quem arrisca, leva com uma bateria de batas brancas em cima que, com argumentos, quase sempre básicos, acaba por intimidar.

Aviso, portanto o leitor, de que não é minha intenção entrar na discussão médica sobre a Ritalina, até porque, ao ler parte da informação oficial disponível, fiquei suficientemente assustado, para nem tentar perceber o mecanismo da droga mais comum nas escolas, por estes dias. O meu olhar é o de Professor.

Nas nossas escolas a quantidade de crianças medicadas é absolutamente assustadora – quase não há turma em que dois ou três meninos não tome algum tipo de medicação para a hiperactividade. E, diz-me o senso comum, que não é possível que cerca de 10% das nossas crianças sejam portadoras desta “doença”. Não é possível.

E, parece-me que há três  factores que contribuem para este manifesto exagero da Ritalina nas escolas:

a) a sociedade em geral e as famílias em particular, que não conseguem educar. Se até há uns anos, a sociedade depositava todas as responsabilidades formativas na escola, agora a situação tornou-se ainda pior com a destruição total que Pedro Passos Coelho promoveu junto da unidade nuclear da nossa sociedade – a família;

b) a escola de Nuno Crato, que, com menos currículo, com menos diversidade, com mais exames e centrada nos conteúdos, afastou a escola dos alunos, das aprendizagens e promoveu a indisciplina, o conflito a instabilidade.

c) o negócio. O infarmed diz que em 2013 foram vendidas, em Portugal, duas caixas de Ritalina. Mas, no mesmo documento onde se refere esta barbaridade, é também apresentado um valor – sete milhões e meio de euros é o total do negócio deste princípio activo.

Ora, perante isto, importa perguntar:

– se a Ritalina não serve às crianças, a quem interessa drogar os nossos alunos?

 

 

Comments

  1. Konigvs says:

    Não faço ideia quem seja essa Ritalina, mas é óbvio que os medicamentos só interessam a quem os produz, vende e quem passa as faturas para ir às farmácias.
    Tal como os herbicidas (que provocam cancro e mais não sei quantos problemas de saúde) e que agora as autarquias aplicam em quantidades industriais junto das casas e das hortas e dos jardins e bem vejo em Gaia e Gondomar (PS) só interessam à SUMA e à Redes Ambiente (o negócio do “lixo” dado a privados (PSD) ) e ao maior produtor mundial da coisa: a Monsanto.
    Tal como interessa a alguém que a Europa se prepare para privatizar as sementes, tal como interessa a alguém que a broa de milho esteja a ser feita com milho transgénico, lá está, uma cultura geneticamente modificada com inseticida incorporado, e que já se começam a saber dos tremendos problemas de saúde que já estão a causar.
    Tal como interessa inventar – e a palavra é esta INVENTAR – novas doenças para que as farmacêuticas (e médicos pois claro) alarguem o leque de clientes.

    • Obrigado pelo seu comentário. Eu, como escrevi, estou longe de ser um especialista na “coisa”, sendo que tenho procurado estudar o que se vai passando porque as consequências directas na saúde das crianças podem ser verdadeiramente inacreditáveis. Confesso que o clique para esta análise surgiu, quando, um após outro, vejo o que o medicamento faz aos miúdos, transformando-os em “zombies”. Mal comparado, é como aqueles pais que não educam os filhos e que, por isso, levam DVD ou outras amas digitais para os restaurantes. Neste caso, à agitação “normal” da idade, responde-se, na ausência de educação (familiar ou escolar) com medicação.
      É um caso de saúde pública, não tenho dúvidas.
      Confesso que desconheço, por completo, o que se passa em relação aos produtos usados nos jardins, na agricultura ou…
      JP

      • Nightwish says:

        O João Paulo pode ir procurar mais sobre a ritalina, o problema não é só português: é muito mais fácil metê-los a drunfos do que lidar com eles como crianças cheias de energia em alturas inconvenientes.

        • Claro – é isso mesmo que tenho feito e irei voltar ao tema, aqui no Aventar. É um bocadinho isso e o que me preocupa é a facilidade com que as vítimas (aqui refiro-me aos pais) aceitam esta solução e, pior ainda, como Nós, Professores o “desejamos”…

          • Nightwish says:

            São tudo efeitos de continuar a tratar as crianças como futuros empregados fabris. com metas rígidas de conhecimento e habilidades, como se pudéssemos ser todos iguais e como se isso pudesse ser avaliado.

      • Konigvs says:

        É curioso que ainda por estes dias tropecei na capa de um livro, precisamente “Os inventores de doenças”, e fui agora mesmo pesquisar, e na página 111 aborda o tema “Psicofármacos no recreio”:
        “Na Alemanha mais de 50 mil crianças tomam estimulantes psíquicos todos os dias para ficarem mais sossegadas e atentas. (..) “A histeria da SDHA (síndroma da hiperatividade e défice de atenção) tornou-se imparável. Já não só os médicos procuram novos casos, como atualmente também os professores rastreiam as turmas.” (…)
        “A indústria já tem nas mãos o novo grupo alvo de idosos. “SHDA uma companhia fiel para toda a vida”. (..)
        “A princípio, o remédio foi só ministrado a adultos para tratar estados de cansaço intenso, quadros depressivos e episódios de confusão no envelhecimento, ainda não fora inventado o quadro clínico que tornaria tristemente célebre o Ritalin.”

        Sobre os pesticidas/herbicidas/transgénicos a coisa é muitíssimo grave. Dois links:
        http://www.quercus.pt/comunicados/2015/marco/4228-glifosato-o-herbicida-mais-vendido-em-portugal-afinal-pode-causar-cancro-em-humanos
        http://crabastosbrasil.blogspot.pt/2013/04/temores-sobre-os-transgenicos-estao-se.html#.VOvB-BOngTk.blogger

        • albanocoelho says:

          Tinha toda a razão até ao ponto em que meteu pesticidas/herbicidas e trangénicos na mesma frase.

  2. Reaça says:

    As prisões hoje estão mais cheias do que no Estado Novo.
    Teem uma qualidade inferior, mas os presos hoje são muito mais numerosos.
    Naquele tempo havia menos presos, mas seleccionados.
    Estes presos hoje teem menos qualidade..

  3. Maria de Almeida says:

    Pois eu passei por essas interrogações todas à conta do deficit de atenção, E posso dizer-te que por indicação medica, foi feita a experiência e decidi desistir depois de ter percebido que os resultados eram catastróficos, com alucinações e coisas afins. Mas também te digo que o corpo docente fez muito pressão para que continuasse a administrar o metilfenidato, que “dava muito resultado”.
    É tão mais fácil ter meninos amorfos nas turmas que gente que questiona tudo. Foi à conclusão a que cheguei.

  4. Konigvs says:

    Eu não tenho filhos, até hoje nunca os quis ter, não converso muito sobre o tema com outras pessoas, mas fico completamente chocado ao dar-me conta destas realidades que me estão a passar ao lado. É completamente de loucos onde esta sociedade vai parar. A manipulação, a ausência de espírito crítico, o andar no mundo por ver andar o outros.
    É o verdadeiro “admirável mundo novo”, um mundo de zombies que não consegue pensar pela sua própria cabeça, e que precisa que lhe digam o que gostar, o que fazer, como se comportar na manada. Há uma grave doença por aí, que se espalha como um vírus mortal: a incapacidade de pensar pela própria cabeça.

  5. Rui Moringa says:

    Parabéns por trazer o tema à tona. Já fui um curioso do ensino e aprendizagem. A educação é algo diferente, como sabem Deficit de atenção?! Mas como se chega à medição de tal deficit?
    Trabalhei com crianças com problemas neurológicos (cérebro com lesões, mesmo), com os pais e professores.
    Muitas vezes pedem soluções que não existem, compreende-se porque as crianças colocam exigências enormes todos os dias.
    Agora ninguém tem tempo para as crianças, isto é brincar com elas, falar com elas, estar presente quando elas estão doentes. Então recorre-se a fármacos para os ter sossegadinhos. Pede-se aos médicos um comprimido milagroso porque o menino não para o dia todo.
    Está descrito cientificamente o que acontece em face da privação de relações de vinculação e de afetividade.
    As mães e os pais têm que deixar os filhos mais cedo nas creches e infantários por um conjunto de fatores, sempre racionais(!?).
    Mas o sentido de pertença das crianças!?? Fica onde?
    O nosso modo de vida actual lança muita gente para a “valeta” de diversas formas…
    Esta é uma delas. Temos de lutar contra este tipo de situação

  6. PBeirao says:

    a) Esses problemas nao existiam antes de 2011? Agora o Passos Coelho o responsavel por destruir as familias? E a fome e a peste? Sera’ ele um dos cavaleiros do apocalipse?

    b) Nao havia indisciplina, conflito e instabilidade antes de 2011? Mais currículo, mais diversidade, menos exames vao resolver os problemas de indisciplina? Nao ha sequer discussao sobre outras causas, sei la’, a educacao que as criancas tem em casa?

    c) O negocio e’ uma questao pertinente. Mas acha que vai deixar de haver com um governo PS?

    O uso de Ritalina esta’ espalhado hoje por toda a Europa e EUA, portanto nao e’ so’ um problema portugues e nao tem nada a ver com a crise. E’ muito feio usar as criancas como arma num debate politico. Sei que detesta em absoluto o governo, mas nao vale tudo na politica. Como professor, de o exemplo.

    • Rui Silva says:

      Caro PBeirao,

      Realmente este João Paulo faz-me lembrar aquela história do individuo que tem um martelo na mão. Tudo lhe parece “um prego”.
      Evidentemente que este o assunto da “medicalização da vida” não só de Portugal. E não só nas crianças como também nos adultos. Mas a culpa a nível mundial é de passos/crato.

      cps

      Rui Silva

      • Meu caro Rui, obrigado por ter respondido. Talvez eu seja um prego… Deve ser isso. Só que estou farto de ser martelado. O que eu escrevi é que a “escolarização” que Crato introduziu na escola está a condicionar a forma como se ensina. Está a exigir apenas e só “canalha” quieta e sossegada a ouvir o mestre… E isso é impossível e inadequado porque não é assim que se aprende. É um erro. E tenho que o afirmar. PONTO. Agora se é o Crato ou a tia do Crato, para mim é indiferente. Mas, acontece, que neste caso, ter alguém como Crato à frente do MEC é um problema para os alunos. O que nos vale é que a coisa está por dias…
        JP

  7. Rui Santos says:

    Finalmente!!! Julgo ser a primeira vez que vejo este assunto a ser falado e a chamar os bois pelos nomes!!!
    Uma amiga minha disse-me, ainda a semana passada que, só na sala de aula da filha dela, a professora pediu que 5 das crianças fossem analisadas por médicos porque provavelmente sofriam dessa tal doença de hiper-actividade.
    Sabendo que o país atravessa uma crise enorme e que os professores não estão imunes a essa mesma crise levanto a seguinte hipótese: quem nos garante que os chamados delegados de acção médica (o vendedores das farmaceuticas) não estão a fazer junto dos professores o que fazem junto de médicos. isto é, aliciar os professores com prendas de forma a que mais crianças sejam diagnosticadas com esta doença?
    Bem sei que estou a entrar no reino das conspirações mas como, por outro lado, as conspirações só o são até provarem que o não são.
    Por último uma observação só sobre esta doença da hiper-actividade nas crianças, em 99% dos casos não passa de crianças a serem aquilo que elas são… crianças. Depois o resto é um problema da cabeça dos adultos, que não tem paciencia para aturar os miudos, que tem negócios para defender, e acima de tudo que se esqueceram o que já foram crianças, o restante 1% é o beneficio da dúvida que dou sobre se existem realmente crianças com hiper-actividade.
    Envenenar crianças com pseudo-medicamentos como a Ritalina é um crime e devia ser tratado como tal, e como prova deixo aqui o link da bula do dito medicamento é só ver as contra indicações que ocupa mais de 70% da mesma. http://www.medicinanet.com.br/bula/4550/ritalina.htm
    … esta é a bula do Brasil aqui fica a de Portugal… vejam as diferenças:
    http://www.folheto.net/ritalina-la-metilfenidato-bula-do-medicamento/

  8. Hiperactividade (doença?, mau comportamento?…) e (combate? com) Ritalina (fármaco) : é um tema interessante e oportuno.
    . Pelo que li/vi, o problema não é só de agora nem só de Portugal, mas está a agravar-se e expandir-se…
    ..Tem uma componente social/ educacional (ou sua deficiência, até por também existir menos tempo disponível e disponibilizado para os filhos/ família, …), focada por JP.
    .. Mas também tem uma componente ‘ambiental/alimentar’, pois os OGM e pesticidas (focados por outros comentadores), mais o processamento dos alimentos e seus aditivos/ componentes/ preservantes/ edulcorantes/ hormonas/ … TAMBÉM influem no metabolismo das crianças/jovens e no seu desenvolvimento e comportamento.
    .. Claro que a ‘moda’ da teoria/ideias da psico/pedagogia mais o negócio dos fármacos para tudo … também ajuda a ‘visualizar/enquadrar’ o problema.
    Cumprimentos
    Xa2

  9. joão lopes says:

    aqui vai uma opinião politicamente incorrecta sobre o assunto:a ritalina sustitui a educação que não se dá em casa,o tababefe que se deixou de dar na caprichosa criança que quer tudo(materialmente falando) menos ser educada e culta,que não quer lêr porque dá trabalho,que não tem espirito critico,que não se cultiva.Culpa dos pais,da escola ou de todos nós?

  10. Celeste Bastos says:

    A responsabilidade é de todos nós… porque aqueles que sabem argumentar se calam, e os que não sabem facilmente entram em desespero perante os comportamentos das suas crianças e recorrem ao médico, que em teoria, detém o saber máximo. E os media são fantásticos para ajudar a criar negócios rentáveis.

  11. Maria José Brito says:

    Tenho um sobrinho com 7 anos e frequenta o 2° ano do ensino básico.
    O menino foi adotado por uma minha irmã, que nunca teve filhos e desde que se viu com a criança nas mãos, só não lhe dá o mundo porque não pode…
    Ele tornou se numa criança muito traquina e com muito puder verbal para com a mãe, tudo o que ele diz ou faz, a mãe acha que é de uma inteligência louvável, visto que o menino veio de um orfanato.
    Os problemas começaram quando a criança foi para a escola e as primeiras queixas vieram para casa mencionadas na respectiva caderneta.
    Porque era muito falador, porque distraía os colegas, porque questionava muito o prof, sobre assuntos que não tinham nada a ver com o ensino escolar, etc..
    A criança passou a ser a acompanhada por um psicólogo, mas teve que ser em consultas particulares, pois os pais tinham uma situação financeira muito estável.
    Passou a ser acompanhado por um psicólogo muito conhecido da TV.
    DIAGNOSTICO… DEIXEM A CRIANÇA BRINCAR E NÃO LHE TIREM PRAZER DE SER FELIZ.
    Voltou à escola e as queixas aumentaram, ao ponto de uma criança com 7 anos ter sido posta para fora da sala de aulas só porque se estava a rir do prof… Palavras da criança.
    Continuando as queixas de mau comportamento, mesmo sendo aluno de notas consideravelmente altas, média de 86%, o respectivo prof, aconselhou a mãe a dar lhe a RITALINA, para que o menino ficasse mais calmo e concentrado na aula e que assim as notas viriam a aumentar, pois era um excelente aluno.
    E assim foi, passou a tomar todos os dias o famoso medicamento.
    Neste momento a criança, passou de muito esperto a zombie, muito apático e sobretudo com muitos medos.
    Este prof é um senhor jovem e há primeira vista sem qualquer tipo de problemas, tirando um que é o de ter muitos alunos na sala de aulas e não ter paciência para eles, até porque mora longe e não têm vínculo afetivo com a dita escola, mais tem 8má criança ( especial), que lhe ocupa muito tempo, criança está que tem notas de 90%… Agora digam me, será que estas crianças são doentes, ou é o prof que está na profissão errada?… Disse.
    .

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