Grécia e desinformação

Quando se lê uma notícia sobre a Grécia começa a funcionar bem uma regra simples: é exactamente ao contrário. O afastamento de Varoufakis das negociações directas com a Alemanha e seus protectorados anda por aí contado como uma cedência, já que o seu lugar foi ocupado por Euclid Tsakalotos, um “moderado”, dizem. Stathis Kouvelakis, dirigente do Syriza ligado à sua minoria mais à esquerda, escreveu hoje no Facebook, onde cheguei via Jorge Costa:

Gostaria de pedir a todos os que vêem a experiência do Syriza com um mínimo de boa fé, que requer (e é compatível com) crítica, lucidez e vigilância, que não façam julgamentos muito precipitados acerca da remodelação na equipa Grega de negociação da dívida.

O facto de Euclid Tsakalotos assumir agora um papel mais importante não deve ser interpretado como um sinal de suavização da posição do governo. Na verdade, o ‘discreto’ Tsakalotos é um acérrimo (e não um ‘errático) marxista e sempre se posicionou à esquerda do bloco maioritário do Syriza (que foi agora reformulado como ‘a iniciativa dos 53’). Não sendo favorável à saída do euro, sempre defendeu a linha de ruptura firme com a austeridade e considerou, como uma alternativa séria, o perdão da dívida.

Mesmo em declarações recentes, afirmou que a ‘quebra de relações’ é uma opção se as negociações fracassarem e admitiu que o acordo de 20 de fevereiro enfermou de um erro fundamental, já que nenhuma garantia foi dada relativamente ao fornecimento de liquidez à Grécia, um ponto também levantado por Tsipras na sua entrevista televisiva de ontem.  Nessa entrevista, Tsipras não descartou a possibilidade de um referendo em caso de ‘bloqueio’ das negociações e, como se sabe, a mais pálida menção à palavra ‘referendo’ é considerada como uma declaração de guerra pela União Europeia.

Em qualquer caso, as pessoas devem ser julgadas pelos seus actos.

Andamos também na fase em que os neoliberais mais ou menos assumidos tomam a realidade pela medida do seu desejo. Pode ser que a realidade lhes caia em cima.

Comments


  1. Não bem o que me chegou. Ao que parece Varoufakis não seria muito claro nas negociações e parecia apenas querer ganhar tempo. O substituto estará até bem mais à esquerda, mas será bem mais rigoroso e objectivo. Os mercados para já até reagiram bem. Veremos o resultado até dia 9, como anunciou o próprio Tsipras, ou em definitivo para Julho. Futurologia aqui é um terreno demasiado incerto…

  2. VaideMota says:

    Eu ainda me espanto quando por vezes leio como a diferente malta do Syriza se explica e vai mantendo relativa coerência. É tão raro que o problema – para eles – chega a ser esse.

    • Rui Silva says:

      É evidente que Varoufakis foi afastado porque estava a ficar mole, a Grécia corria o risco que ele cedesse das justas reivindicações do povo Grego. Este seu substituto é um individuo mais á esquerda e mais firme que jamais cederá ás imposições da UE.
      A ver vamos …
      cumps
      Rui SIlva


  3. Interessante é o romancear que se faz a volta duma tragedia que me parece ter mais a ver com má preparação para governar ali e agora. Provavelmente num país não integrado numa UE, se pudesse por a prova as varoufakisses, mas nunca num país com acordos e compromissos com mais 500 milhoes de palermas e que pelos vistos não estão de acordo em entrar com as massas para as fantasias esquerdo-caviares de jogadores de playstation.
    Até fins de junho a coisa resolve-se. Para nós era mais educativo que a saida da Grecia pudesse servir de ensaio e podermos decidir com mais dados se vale a pena sair do euro -ainda há para aí muitos desconfiados que estamos a desperdiçar as nossas enormes capacidades com gente mal formada como os alemães e finlamdeses.

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