À responsabilidade de Paulo Macedo

Para ler aqui, no expresso. 

Nas últimas semanas, a existir um epíteto para qualificar todas as acções do anterior governo que o novo governo está, sem surpresa alguma, a descobrir, podemos designá-lo como “cada cavadela, cada minhoca” – se o governo PS perfurar a fundo a destruição causada pelo anterior governo no país, irá decerto encontrar dezenas ou até centenas delas, cada uma, quase sempre, maior e mais turbulenta que a anterior. O exemplo do que está a acontecer no BANIF, é, somente, mais um cromo repetido na mais recente história deste país, país no qual, todos os banqueiros que afundaram o seu banco em prol da ganância, ao invés de acabarem numa prisão perto de si, acabam quase sempre por contornar a lei e sair do jogo com uma reforma choruda. O que não vale neste país ser banqueiro e gerir mal o seu banco ou desregulador. Numa e noutra profissão, mesmo que as coisas não estejam a correr bem, o Sr. Doutor nunca acaba por ser responsabilizado pelos erros que comete e o comum cidadão acaba quase sempre por pagar a factura.

Pelo meio, passando de fininho sob os pingos da chuva está o ministro Paulo Macedo. Empurrado pelos privados, o antigo gestor dos seguros de saúde do Millenium BCP entrou no governo de Pedro Passos Coelho com a missão de fazer entrar o SNS em total ruptura para levar o máximo número de cidadãos para o privado. Durante 4 anos, ditando a sua lei de completa desregulação, Macedo, castigou a saúde como se não houvesse amanhã, promovendo o aumento das taxas moderadoras nos hospitais para valores mais altos do que as mensalidades que algumas seguradoras do ramo oferecem. Criou uma autêntica situação de ruptura nos hospitais distritais, enfiando para lá todas as especialidades e valências que tinham sucesso e um comprovado atestado de eficiência em hospitais menores, eficiência que se perdeu nos primeiros fruto de uma constante diminuição (ele chamava de racionalização) no número de camas existentes para internamento, item no qual Portugal tem, actualmente, um dos piores registos da OCDE. Pelo meio encerrou urgências e criou situações de cuidados básicos de proximidade que não são pura e simplesmente capazes de dar respostas a problemas que necessitem por exemplo de uma simples operação. Curioso é, pensar, que grande parte dessas alterações foram realizadas no interior em concelhos que distam a 50 ou mais quilómetros do hospital mais próximo.
Macedo, especialista na arte de cortar, desmotivou profissionais clínicos de todas as maneiras e feitios. Ora pelos cortes salariais que empurrar milhares de médicos e enfermeiros para os privados. Ora pela criação subita do médico à peça ou do médico tarefeiro, profissional que, trabalhando aqui e ali ao dia, acaba por não ser um profissional entrosado nas equipas médicas onde é chamado a trabalhar e tampouco se sente motivado para promover qualidade no atendimento. Ora, pela mais indigna forma possível de romper: pela falta de meios (desgraçados dos tipos do INEM que andam a arriscar couro e cabelo por 800 euros, sujeitos muitas vezes a morrer na estrada para levar os doentes mais rapidamente ao hospital). Por outro lado, os cortes de Macedo levaram a situações como a do David, um jovem de 29 anos que morreu durante um fim-de-semana no Hospital de São José porque o SNS achou que a racionalização começa na falta de meios e na falta de profissionais durante 24 horas por dia. Porque Macedo acreditava que uma morte sai bem mais barata ao estado do que o pagamento de um clínico de especialidade. Porque Macedo, noutros casos que bem conhecemos durante o inverno de 2014\2015 não se importou de ver gente a morrer nas urgências à espera de uma consulta e no caso dos doentes de Hepatite C, o Estado não podia gastar o que fosse preciso para salvar uma pessoa que durante uma vida trabalhou para ter direito ao seu bem mais básico: a saúde.

A História do David é triste. Regresso ao Aventar para lembrá-la. À responsabilidade (jurídica) de Paulo Macedo, num país onde este tipo de criminosos continua a viver de rosto alegre, impune a todos os actos maldosos que cometeu.

 

Comments

  1. Rui Moringa says:

    João,
    É uma catástrofe a morte de uma pessoa e mais difícil de aceitar se foi por falta de assistência sendo ela possível.
    Contudo, custa-me a acreditar na versão, assim tão simples, como ela é apresentada.
    É verdade que a tal racionalização é um eufemismo para reduzir despesa do SNS a qualquer preço.
    Sabendo-se que não havia neurocirurgiões ao serviço no fim-de-semana, tenho a convicção que se fosse necessário estavam à chamada, ou seja, embora não estivessem presencialmente no Hospital viriam logo que chamados para a emergência (note não é uma urgência normal).
    Se isto não foi feito será grave ou no que acredito, o jovem não tinha condições, tal a dimensão do aneurisma, para ser operado no momento e estavam a ver se estabilizava para ser operado logo que possível. é nisto que acredito.


    • Rui, sinceramente já começo a acreditar em tudo porque efectivamente este tipo de casos negligenciais tem acontecido na saúde portuguesa nos últimos anos. Não se esqueça na antiga ordem da saúde em Portugal, este tipo de clínicos eram aqueles que recebiam autênticas fortunas pelos bancos realizados ao fim-de-semana chegando efectivamente a auferir, à peça, 400 e 500 euros por 12 horas de trabalho. Foram obviamente os primeiros a serem riscados pela relação ocorrências\custo. O único elo que me suscita dúvida é: com tantos hospitais em Lisboa, não haveria um capaz de receber o doente para ser operado durante o fim-de-semana? Nenhum teria um único especialista? Esperemos pelo desenrolar do episódio. Se for verdade, a família do falecido irá claramente avançar com um processo na justiça para apuramento de responsabilidades e aí decerto saberemos o que é que realmente aconteceu.

      • Rui Moringa says:

        João,
        Tenho de admitir que a situação da falta de médicos de especialidades ao fim-de-semana é mais grave do que pensava.
        Acabamos de saber das demissões na ARS LVT e nos Hospitais com responsabilidades na assistência ao jovem falecido.
        Efectivamente, ter os meios para assistir e salvar uma vida e não o ter feito por questões de planeamento dos meios, é gravíssimo.

    • Aventador says:

      Rui,
      A administração do Hospital de São José acaba de se demitir em bloco, subendentendo-se que têm alguma responsabilidade no caso.

      Nos últimos dias tem havido muito coisa difícil de acreditar …

  2. Nightwish says:

    É o que dá eleger psicopatas, disso não se arrepende o seu colega Vieira.

  3. Rui Moringa says:

    Sem dúvida que há coisas difíceis de acreditar.
    Parece que o “diabo anda à solta”…
    Chego à conclusão que somos constantemente enganados…


  4. Havia um produto que a frase publicitária dizia: “mata-os bem mortos”.

    Espero que o actual primeiro ministro António Costa tenha presente que, quando na Quadratura disse, que o ministro da saúde paulo macedo estava a fazer um bom trabalho, estava profundamente errado.

    • Nascimento says:

      E porque será que esse merdoso sempre teve boa imprensa? Os tudologos , salvo o Daniel Oliveira, verdade seja dita,andaram 4 anos a dizer benzinho de um nojo que tudo deu ás misericórdias, clinicas privadas e seguradoras. Destruiu praticamente o SNS.
      Em Almada, um Hospital que era muito bom,hoje é uma merda! Está um caos nas urgências.Quantas pessoas morreram o ano passado nas urgências? Haja memoria.


      • O Garcia de Horta é outro dos casos mais claros de esviaziamento de competências e falta de meios. Bastará para isso dizer que há 6 anos atrás era o hospital com menor tempo de espera nas urgências do país.

  5. FilipeMP says:

    Náo conheço o caso de perto e a julgar no manifesto apresentado pela namorada da vítima, é muito grave uma pessoa partir por uma questão monetária. Julgo que é preciso apurar responsabilidades, pois a amanhã podemos ser nós.

  6. Nascimento says:

    E agora demitem-se os medrosos fingindo que não andaram a mamar durante 4anos!!!Que bando de filhos da puta.

  7. Rui Moringa says:

    Nascimento,

    O anterior ministro é próximo-membro (?) da opus dei.
    Expliaca alguma coisa?!

  8. José Oliveira says:

    O meu comentário, já expresso noutro local do facebook, é muito sucinto, e nao dispensa a leitura da crítica acima exposta.
    Na verdade, apenas quero reafirmar a necessidade de encontrar os responsáveis por estes acontecimentos. E puni-los. Estamos fartos de, diariamente, nos confrontarmos com os mais variados desvarios e “assassínios” de cidadaos, nao por desleixo ou por desígnio, mas porque quem tem responsabilidade política interfere de forma criminosa no direito às mais variadas funçoes sociais do cidadao.
    Fomos construindo uma sociedade onde os dirigentes com plenos e superiores poderes nunca sao responsabilizados pelos erros que praticam. Responsabilidade e Justiça!

  9. joão lopes says:

    os gajos de alguma direita(por exemplo o mirone) só pensam mesmo no privado,no dinheirinho,no “eu tenho seguro de saude,os outros que se lixem( e tão burros,que são,se lessem bem as condições dos seguros,mas nem lerem sabem)” e o SNS,para eles tem que ser caritativo(tipo EUA) e gerido pelos gajos das misericordias,ou seja tudo muito medieval,tudo muito vergonhoso:é o que dá seremos governados por “tias” com valores “conservadores”.


    • A saúde do SNS devia ser igual para todos. Há quem more em zonas/cidade servidos com hospitais públicos bem geridos e há quem more em zonas/cidades servidos por hospitais públicos que nada mais são que matadouros. De resto os maiores clientes do sector de saúde privado são os funcionários públicos com ADSE e não as tias com seguros de saúde.

  10. socialista sempre says:

    Prisão já para Macedo,Paços e portas .São os responsáveis pelos cortes na saúde para encher o CU aos bancos . PARASITAS. todos para ELVAS, CELAS 45,46,47,48,49,etc,etc,etc,,,,,,,,,,,,,,,,

  11. jag18180SC1972JM1972xm says:

    A Justiça é Cega, A Saúde está doente, a Educação Analfabeta, a Cultura Silenciosa, a Economia poupada e o Governo…esse…o que é isso?O “Governo”? Já nem me lembro!…

  12. Gil Figueiredo says:

    De que vale abrir inquéritos atrás de inquéritos se chegamos á conclusão que existe culpados no topo da pirâmide hierárquica e que o inquérito fica em águas de de bacalhau. Fruto da política do passado recente, asfixia do serviço nacional de saúde ,falta de verbas, por via destas serem canalizaras para os hospitais privados por pura e simples opção ideológia. O que se passou no hospital S. José é o reflexo disto mesmo, e temo que existam muitos mais casos similares ,mas que a lei da rolha impede de virem a público ,sob. Pena de existirem represálias no campo profissional. É fundamental que sem faxiosismos ,estejamos alerta para denunciar todos os atos desumanos que são uma verdadeira afronta á sã vivência dos humanos.


  13. Eu tinha vergonha de escrever este post. Basta ler os srs da ordem dos médicos para ver argumentos semelhantes. Deviam era ser julgados os incríveis com neuro cirurgião a cinco minutos de taxi, no H. Sta Maria, não o tenham recorrido. Em qualquer das cidades de países bem governados, não há todas as valências 24 horas por dia; são reencaminhados duns para os outros. Não têm é tanto pulha a vender o peixe , para gáudio dos palermas que pagam a factura, da ineficiência.