Não há nem pode haver desculpa

Aventem o que quiserem: eu chamo-lhe homicídio. O que passou no Hospital de São José no passado foi puro homicídio. Não há nem podem haver desculpas.
Não existe teoria da conspiração possível para mascarar o que passou: Paulo Macedo sabia. Sabia demais. Tinha sido alertado pelo grupo parlamentar do Bloco. Tinha sido alertado pelos administradores hospitalares. Tinha sido alertado várias vezes pelas Administrações Regionais de Saúde. Não actuou. Matou. Por omissão, o que torna a situação muito mais grave. No São José, nas urgências do Garcia de Horta, no Hospital de Aveiro. Não tenho a menor dúvida quando penso que Paulo Macedo foi longe demais: a ruptura total do SNS tinha como objectivo claro fazer morrer gente para criar um fenómeno de desconfiança dos cidadãos para com o SNS. Quando o ser humano sente que um serviço nacional de saúde completamente desmembrado afecta-lhe o seu bem mais precioso e é uma máquina de criar mortandade, o ser humano pensa duas vezes. Foge. Tem medo. Vai para o privado onde sabe que, pagando, será bem atendido, será tratado na hora.

Paulo Macedo pôs em causa todas as premissas do contrato social. O Estado obriga o comum cidadão a dar-lhe um pedaço do seu suor para o assistir nas alturas mais angustiantes da sua existência. Hajam ou não condições, o Estado, comandado pelos seus governantes, pede uma fatia do rendimento ao comum cidadão para este financiar a sua máquina assistencialista. Depois de receber essa fatia, cujo valor é definido pelo Estado, assumindo-se que servirá para prover serviços mínimos de qualidade, o Estado não pode pura e simplesmente evadir-se das suas responsabilidades. Se o fizer, teremos que qualificar essa atitude como roubo. No caso concreto de David Duarte, teremos de a qualificar como roubo e homicídio.

Mais. Desculpem-me o mau feitio: Só num país de merda é que o Ministério Público demora mais de 3 dias a ir ao encontro de Paulo Macedo para lhe pedir mais esclarecimentos. Só num país de merda é que a lei não obriga o Ministério Público a abrir por ofício um processo de investigação a um caso destes. Só num país de merda é que esta gente passa incólume a tudo isto, obrigando a família a abrir a respectiva queixa para um caso destes ser julgado na justiça. É neste tipo de situações que este país tem um nível de desenvolvimento humano igual a países de 3º mundo.

Comments

  1. Konigvs says:

    Só num país de merda é que cai uma ponte aqui ao lado, que se sabia que estava em risco de ruir, e os tribunais decidem que a mesma caiu por “causas naturais”. Morreram 60 pessoas e ninguém foi culpado de nada.
    Naturalmente que aqui no caso, o problema foi o contribuinte ter adoecido ao fim-de-semana, deveria ter escolhido melhor o dia. Ironicamente nesse mesmo país de merda passam-se diplomas de licenciatura ao domingo.


    • Se está a falar da ponte entre os rios, posso-lhe garantir que o caso foi bem abafadinho. Na altura, o ministro demitiu-se mas a justiça também se demitiu de julgar quem deixou a ponte cair. Garanto-lhe que as entidades sabiam e, infelizmente, também não agiram.

      • Konigvs says:

        Claro que as entidades não agiram, nunca agem contra o poder do dinheiro não é? Na mesma semana que a ponte caiu, iam a tribunal pessoas por se terem manifestado e cortado o trânsito precisamente contra o mau estado daquela ponte. E a razão de não se substituir a ponte era que não havia dinheiro. Pois é, mas ela caiu e depois não se construiu uma, construíram-se duas, uma a par da outra…60 mortes depois.
        Em Portugal as coisas só andam quando os políticos se sentem acossados. Quando, por causa das vacinas da Hepatite, um doente apontou o dedo ao sôr ministro e lhe disse na cara “Não me deixe morrer” e “nós vamo-nos voltar a encontrar” como que por milagre (e porque quem tem cu tem medo) no dia seguinte já havia vacinas para toda a gente… mas isto não sei quantas mortes depois. .


        • Concordo consigo. Em Portugal as coisas só andam quando os políticos se sentem acossados, ou quando os grandes estão a ser acossados (leia-se, a ver a sua fortuna a diminuir) ou quando existem precisamente aquilo que enunciou: mortes. Vivemos num país pródigo a solucionar depois de estoirar em vez de agir para prevenir.

  2. FilipeMP says:

    Este e muitos outros casos não são dignos de um país desenvolvido. É muito grave o que se passa em muitos hospitais portugueses. É necessário o levar isto até aos tribunais europeus, porque em portugal é inútil tentar combater estas acções desumanas.

  3. Nightwish says:

    Só discordo quando exalta as virtudes do privado, também há médicos, vá, menos bons e outros problemas no privado.


  4. Só num país de merda se faz a comparação que li acima. Ainda vai aparecer alguém a comparar o caso do post, com a tragédia da “Ponte das Barcas”
    Nota: a tragédia da Ponte de Entre-os-rios foi muito grave. A exigência das populações nada tinha a ver com o que deu origem à tragédia que foi a falência da base de um pilar que não estava à vista dos utentes.
    No caso do post os pantomineiros sabiam que quem quer que fosse que recorre-se ao hospital de Santarém com uma rutura de um aneurisma ao fim de semana morria.

    • FilipeMP says:

      Fico feliz em saber que existem dias específicos para se ter uma ruptura de um aneurisma. Obrigado e um prospero ano novo.


  5. Só posso desejar que para quem tem tanta certeza das acusações que faz, que se informe do que acontece em cidades como Estocolmo, Copenhague e muitas outras pela essa UE, qunatos hospitais têm neurocirurgioes de serviço 24 horas. Provavelmente apenas um já que os doentes são reencaminhados dum para o que tem. No dia do crime o neurocirurgião estava de serviço em St Maria; talvez para quem tem agenda politica , como o palhaçoa da oredem dos medicos, nçao interess que esse facto seja mencionado, porque passava o asssasinato para os mçedicos de serviço e já estragava a agenda dos pulhas de serviço, que se preocupam muito pouco com a verdade, sempre prontos a arranjar bodes.


    • Você quer comparar a noite para o dia. Quer comparar países nos quais a assistência está sempre salvaguardada porque existe respeito para com quem contribui para países cujo paradigma é bipolar, ou seja, países que aumentam os meios quando existem uns trocos a mais para dois anos depois a cortar por falta de verbas, não havendo qualquer respeito pelos contribuintes excepto quando eles são chamados às urnas ou são chamados a contribuir com mais para evitar a desgraça financeira nacional. Os nossos impostos não servem nem podem servir para pagar dívida. Ponham isso na cabeça. Os nossos impostos servem para fazer mexer a máquina assistencialista do Estado.Se pretendem a mudança de regime, deixem de cobrar impostos e tornem o Estado não-interventivo.
      Desafio-o portanto a provar por A+B que o tal clínico estava de serviço no Santa Maria. Assim como desafio-o a esclarecer o porquê do Hospital de São José não ter feito a transferência dos doentes para o Santa Maria.

    • Nascimento says:

      Pulhas ?Estás -te a ver ao espelho? Vai ladrar para o Observador.
      Olha meu palhaço, o Bode das seguradoras e o careca do IPO de Lisboa, uns vermes que tu defendes, e que há um ano afirmavam que os doentes estavam muito bem nas urgências porque estavam em macas nos corredores dos hospitais? São estes os BODES A QUE REFERES?Ranhoso.

  6. Graciano Dias Rodrigues says:

    Vocês mostram-me, que tenho 78 anos, que valeu a pena fazer o 25 de abril de que vocês são fruto,certamente. Mostram-me que o país não está morto, há pessoas novas com um grande espírito crítico correto e justo e desejável e muito aceitável. Por favor, continuem e nunca desistam.Não tenham medo, conservem a democracia, sejam vanguarda na libertação de Portugal das mãos de gente que são a escória do passado fascista que nos travou, mas não venceu. Viva Portugal e todos os portugueses de boa consciência que estão alerta e falam.

  7. tuga says:

    Concordo que foi homicídio, mas discordo que tenha sido directamente causado pelo Macedo. O homicida foi o responsável de serviço que deveria ter encaminhado, IMEDIATAMENTE, o moço para um hospital onde existissem os cirurgiões adequados. Se o tivesse feito, o moço teria sido salvo, presumo, e o Macedo não estaria agora a ser acusado, apesar de, de facto, ter cortado demasiado em tudo. Senão, vamos querer que um bom ministro tenha todos os especialistas em todos os hospitais a todas as horas. É possível ? quanto custa ? De onde vem o dinheiro para pagar isso ?


    • Não discordo da sua opinião, mas pergunto-lhe: os directores de serviço, os directores clínicos de hospitais e os Administradores Regionais de Saúde são por norma nomeados por quem? Quantas demissões tivemos nestes cargos quando Macedo entrou no poleiro? Muitas. A responsabilidade acaba por ser neste caso transversal porque a política aplicada veio de cima e foi cumprida de forma cega por grande parte das camadas dirigentes de baixo.

  8. Rui Moringa says:

    João e comentadores,
    O que se passou com a morte do jovem é gravíssimo.
    Independentemente da opção política de cada um de nós no momento do voto, há um valor para além desta decisão: O valor da vida e de a protegermos. O SNS é essa garantia entre Nós.
    Seja quem for que não esteve vigilante, atento aos seus deveres deverá ser identificado perante Nós.
    Compreendo algumas das circunstâncias adversas associadas à saúde do jovem e conheço com alguma profundidade o funcionamento dos serviços do SNS.
    Tenho a manifestar que não fazia ideia que não tinham especialistas em “prontidão” para estes casos clínicos na Região de Lisboa.
    Na região de Coimbra e Porto com as mesmas regras orçamentais e de organização dos serviços há neurocirurgiões de “prontidão”;
    De notar, isso é público, que os hospitais do Norte e de Coimbra têm menor dotação orçamental a nível hospitalar.
    Os dirigentes dos Hospitais do Norte têm manifestado esse desconforto, ou seja produzem mais e melhor com menos dinheiro.
    Outra questão: Sabendo-se que pagam mal as horas extraordinárias a médicos, enfermeiros, auxiliares, porque não foram convocados para mesmo pro bono salvar uma vida?
    O que move esta gente!!!!?
    Bem, não tenho certezas, tenho mais dúvidas e um grande espanto por aquilo que está acontecendo ao Nosso País.
    Tam pouco se trata de uma visão divisionista entre Norte e Sul (apontei um exemplo apenas).
    Desgraçado país que não consegue salver uma vida tendo meios para isso.

    • Konigvs says:

      O SNS é uma garantia? De quê? Deveria ser mas não é. O anterior governo até era suportado por dois partidos (os únicos) que votaram contra a criação do Serviço Nacional de Saúde. E o que o anterior governo sempre mostrou, seja no corte cego de freguesias (quando até o que estava contratualizado com o FMI era o corte de municípios mas que não dava muito jeito porque eram uns bons tachos que se perdiam) seja na saúde como se viu no caso dos Laboratórios que vendiam drogas que salvavam vidas no combate à Hepatite C, é que sempre olharam para a folha de cálculo, pouco importados que estavam com a vida das pessoas, pouco importados que estavam se com as medidas que estavam a tomar, muitas pessoas acabassem por morrer por falta de assistência. Quando até a própria senadora do PSD, Ferreira Leite, veio dizer há não muito tempo, que os hemofílicos com mais de 70 anos têm direito a viver “se pagarem” quer dizer.. Que garantias é que nós temos contra políticos monstruosos deste calibre? Que garantias é que nós temos, quando depois disto tudo, os partidos que suportaram este governo são os mais votados nas eleições?
      O que move esta gente? É o dinheiro, sempre mais e mais e mais dinheiro, nem que para isso dêem cabo da saúde às pessoas, nem que para isso matem umas quantas pessoas. Por alguma coisa só a venda de armas dá mais que a saúde privada. Daí que o governo anterior tenha desmantelado a saúde pública, porque tendo um bom serviço gratuito de saúde público ninguém vai fazer segurinhos de saúde privados não é?

  9. Rui Moringa says:

    Para quem quiser ler mais um pouco e alargar a perspectiva para além dos mass média do “regime inquinado”.

    http://saudesa.blogspot.pt/

  10. Rui Moringa says:

    Oh senhor,
    O que diz tem lógica irónica.
    Mas pergunto? O que garante a confiança e segurança entre os cidadãos? em que planos estão numa situação idêntica em termos de benefícios sociais. Onde não se deve transigir sob pena de tudo de desmoronar?
    Se tudo se resume à luta de classes, então estamos conversados!

  11. bruno sousa says:

    Em que data portugal deixou de ser um país de terceiro mundo!!???

  12. Conceicao Amaro says:

    O dinheiro dos nossos impostos deve ser canalizado para o bem comum que passa, sem dúvida, por garantir o SNS, uma boa assistência na doença e não para andar a sustentar a banca e banqueiros, fugas e evasões ao fisco, sobtetudo por parte das 900 famílias com maiores rendimentos.
    O Ministério Público devia ter actuado, de imediato.
    Senhora PGR, isto foi negligência.. Não, foi mesmo crime!


  13. Não há dúvida! Foi mesmo crime! E tem que ser julgado, porque o bem mais precioso…é a vida! Paulo Macedo não desconhecia a situação, porque foi avisado! Na sua grande insensibilidade perante a morte… só percebia verdadeiramente a extensão… se se tratasse de alguém muito chegado da sua família! Então compreendia a grande dor…de quem perdeu o seu ente querido!