O país do “mas”


Numa reportagem sobre o Simplex nos centros de saúde, ouvi duas admiráveis expressões ditas por dois cidadãos portugueses:

“Isto está a ficar um bocadinho no século XXI” e “Tenho de andar nos médicos”.

Parece-me que algumas das características mais importantes da portugalidade se reúnem nestas duas frases. Por um lado, está o entusiasmo moderado. Sim, há avanços, inegavelmente há avanços, o português reconhece-os, mas desconfia do seu alcance, mantém sempre uma reserva de cepticismo, e o máximo que pode reconhecer, em Maio de 2016, é que se alcançou “um bocadinho” de século XXI. Porque o português sabe que o avanço brilha, o avanço refulge, mas o avanço é enganador. E, a qualquer momento, o português inflamado pela miragem do Simplex tecnológico, baterá com os dentes todos num demolidor “estou sem sistema” ou num impreciso “a impressora está desfigurada”, que o fará retroceder ao passado dos requerimentos, dos P1s, da palavrinha à senhora doutora, da chamadinha, do “ela não me está a atender”, do “volte para a semana”.

Calejado, sofredor, o português sabe que não deve embandeirar em arco (outra maravilhosa expressão) de cada vez que lhe falam de progresso porque isto é tudo muito bonito, mas. Portugal não é concebível sem este “mas”. Portugal até podia chamar-se apenas “Mas”.

Por outro lado, está o fatalismo resignado. O português “tem de andar nos médicos”, como se anda na escola ou na droga, de tal modo que essa necessidade passou a resumir um modo de vida, mas nem chega a dar lugar à queixa, ou pelo menos não mais que um encolher de ombros rematado com um paciente “tem de ser”. “Andar nos médicos” é olhar para eles como uma cambada da qual não se pode prescindir, e que por isso se trata com deferência, mas que constitui uma espécie de condenação eterna.

Uma vez que se cai “nos médicos”, nunca mais se pode sair deles. Atrás de uma consulta, vem uma análise em jejum, em seguida vem uma ecografia, logo depois uma pastilha todos os dias ao almoço, mais tarde uns exames de vigilância, e por aí fora. “Tenho de andar nos médicos” significa: fui condenado e cumpro pena, mas paciência, podia ser pior. Porque, como bem sabe quem é português, pode sempre ser pior. E isso, parecendo que não, também reconforta.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. José Aurélio Godinho Galhoz says:

    Por que andam alguns a badalar regionalismos e regionalidades? Isto pode passar-se no Porto, em Lisboa, no Alentejo ou em Trás-os-Montes. Tudo é Portugal profundo, com a sua auto-consciência, mesmo que alguma “modernidade” vá tentando abrir caminho, como pode e com a indispensável paciência.

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