A ameaça extremista e os saudosistas do rectângulo


Austriapic

Nos dias que correm, o significado do termo “liberdade” começa a perder propriedade e passa a servir para tudo. Serve para justificar a especulação e o terrorismo financeiro, serve para legitimar a exploração e a destruição de direitos laborais, serve para subjugar Estados à ditadura dos mercados, serve para que os opositores do Estado Social justifiquem financiamentos estatais ao privado dependente e parasitário e serve também para trazer alguma extrema-direita a reboque. O Partido da Liberdade da Áustria, uma agremiação de fanáticos de extrema-direita neonazi que empunha com vigor a habitual bandeira da xenofobia, é um exemplo que incorpora muito do acima referido.

Acontece que estes fundamentalistas estiveram perto de vencer as Presidênciais austríacas do passado fim-de-semana, embalados por uma oportunista e chico-esperta instrumentalização da crise dos refugiados. Tal como alguns profetas da desgraça que por cá vão saindo do armário, também os nazis austríacos fazem uso, em permanência, da arma do medo. E isso entusiasma os seus pares europeus como Marine Le Pen ou Geert Wilders, sedentos de mais “liberdade” para discriminar, intimidar e reprimir.

Cá pelo rectângulo, a ascensão da extrema-direita austríaca não parece criar grande alarme entre aqueles que habitualmente instigam o pânico e o medo com recurso ao exemplo grego ou ao suposto radicalismo subjacente ao entendimento à esquerda que suporta o actual governo português. As grandes ameaças, no entender destes indivíduos, são governos como o português ou o grego – que tal como o alemão ou o francês falharam sucessivamente o atingimento das metas do défice – que acumulam dívidas gigantescas resultantes de um cocktail explosivo de despesismo público corrupto, da imposição de medidas recessivas e contraproducentes de austeridade e do facto de vivermos numa Europa onde as economias periféricas não conseguem acompanhar o andamento das economias mais poderosas do centro, fazendo com que, desde sempre, a União se mova a duas velocidades distintas e geradoras de desequilíbrios.

A luta por melhores condições de trabalho, acesso a bons sistemas de Saúde e Educação ou apoios sociais que muitas vezes traçam a fronteira entre uma vida digna ou uma existência miserável são, para estes indivíduos, a catástrofe absoluta. Já a ascensão do verdadeiro extremismo, de mãos dadas com um discurso violento e segregador, que já rendeu ameaças e promessas de atentados contra o recém-eleito presidente Van der Bellen (Verdes), não passa de um mero detalhe que não colhe grande preocupação entre os académicos e opinadores público-privados da direita radical portuguesa. Que falta que eles sentem daquele respeitinho pidesco do tempo do outro troglodita.

Comments

  1. Tudologos aparentemente com instrução, teimam em etiquetar os que pensam diferente de extremistas , nazis, fascistas, empurrando os outros para o lado., parecendo ignorar os prejuizos, contradições e desastres que essa prática provocaram no passado e vão provocar ainda.
    Faz-me lembrar a fábula do “vem aí lobo” e temo que o final possa um dia ser parecido.

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