A metáfora da moda


vacaA coisa é séria e já dava bem uma rechonchuda tese de pós-doc. Falo na importância das metáforas vacuns no discurso político nacional. Ele são as vacas que sorriem, as que voam e, até, as vacas que falam de vacas. Não ignoro, claro, a presença das metáforas e versos de temas animais, digo mais, veterinários. Tudo isto tem raízes antigas, que remontam à esmerada educação de que os mais velhos de nós bem se lembram. Quem pode esquecer a anualmente repetida redacção subordinada ao título “A Vaca”? Obedecia, até, a um modelo, uma matriz. “A vaca é um animal doméstico.Quadrúpede, porque caminha sobre quatro patas. Mamífero, porque se alimenta de leite nos primeiros tempos da sua existência. A vaca é muito nossa amiga e muito útil. Dá-nos o leite, tão importante para a alimentação. A pele, com que se fazem sapatos e vestuário.Os chifres – jamais cornos, atenção! – utilizados em cabos de talheres, botões, etc. E os ossos, com os quais se faz a refinação do açúcar (nunca percebi esta parte, mas era obrigatória). Eu gosto muito da vaca.” Ora, estes eram os atributos que, obrigatoriamente deviam ser mencionados em tal redacção. Jamais se mencionou a capacidade das vacas sorrirem, voarem ou, muito menos, falarem no Parlamento. Claro é, bem o sabemos, que, apesar da sua recente popularidade, a vaca não está só na metáfora política ou na criatividade poética popular. Mesmo formulações genéricas como “V.Exa. é uma besta!” nunca faltaram no Parlamento, ensina-nos Eça. E não faltam as referências desprestigiantes que metem porcos e gamelas, galinhas, seu cacarejo e pequeno cérebro, ovelhas e a sua tendência para ir no rebanho, gatos que devêm timoratos depois de escaldados, leões que se tornam sendeiros à saída, ou dos burros e a sua alegada falta de inteligência – que, na minha opinião, é usada em injustas e desfavoráveis comparações. Desfavoráveis para o jerico, entenda-se. Já nem falo no frequente recurso retórico a bicharada menos doméstica como papagaios, catatuas, vampiros, sanguessugas, lacraus, abutres, vermes em geral e mesmo parasitas intestinais.

Na poesia, é outro nível.Canta a musa popular:
-da ecologia e efeito de estufa:
Uma vaca, duas vacas
A pastar alegremente
Dando peidos, as velhacas!
Para mal do ambiente
-do seguidismo:
“Um porco e outro porco
e uma porca de má cara
juntaram-se a outro porco
e fizeram uma vara!”
-das conveniências:
“Quem tem vacas tem leite
Quem tem porcos tem presunto
E quem casa com uma viúva
Tem sobejos de defunto.”
-da demora na decisão::
“Caga, cão; caga cão!
Já cagaste?
Ainda não!”

Os exemplos são incontáveis. Tivera eu um espírito mais torpe e não me faltariam estratégias para remeter algumas destas pérolas a destinatários adequados. Mas move-me a habitual seriedade com que orno – por assim dizer – os meus textos. Metáforas zoológicas: é o que está a dar. Usai-as, pois, que ninguém fará menos de vós.

Comments

  1. Pois, vacas que dão leite, vacas que nem isso, vacas que voam e cuidado com a defecação mas, nem só esses animais dão leite, também o senhor abade dava leite mas em pó, vinha dos gringos.

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