O homem que dizem ter matado o Convento de Cristo


[Tiago Cardoso Pinto]

Em relação à polémica sobre o Convento de Cristo, convém que se apurem verdades, não alegações baseadas em denúncias sem rosto, quando algumas das pessoas entrevistadas nem sequer lá trabalham e não podiam, portanto, ter presenciado as filmagens de O Homem Que Matou Dom Quixote, do realizador Terry Gilliam.

A reportagem da jornalista Soraia Ramos, da RTP, peca em vários aspectos.

Além de nem sequer ter contactado a produtora Ukbar Filmes, não falou com figurantes nem ninguém da equipa, não entrevistou nenhum dos muitos tomarenses que foram figurantes e trabalhadores na rodagem da película. E foram dezenas. Ignorou por completo o realizador. Não houve lugar ao contraditório, como manda o Código Deontológico, que a jornalista devia conhecer.

A jornalista da RTP esteve no recinto durante umas parcas 3 horas. Durante este tempo foi acompanhada por um funcionário do Convento de Cristo e visitou todos os locais que quis. Foi para isso devidamente autorizada.

Questionou o funcionário sobre as datas dos estragos que mostrou? Pessoalmente duvido. Porque, se o tivesse feito saberia que, além de serem já antigos (a cruz de pedra que aparece na reportagem faz parte de um conjunto artístico danificado em 2010 quando do tornado) não atestam em nada qualquer “destruição” durante as filmagens.

Mais, nem sequer é feito um plano de imagem que coloque aquele elemento arquitectónico no seu devido espaço.

Mas adiante…

A reportagem da jornalista Soraia Ramos é altamente enviesada e dá a ideia que toda a gente se curvou à vontade do realizador. O que não corresponde de todo à verdade.

Fazer uma entrevista ao ex-produtor do filme, Paulo Branco, que teve uma guerra em tribunal com o realizador e não consultar quem realmente produziu a película é de uma falta de rigor jornalístico que não fica bem nem ao programa “Sexta às 9”, que se diz de investigação, nem à RTP.

Quanto à grande polémica da fogueira no Claustro da Hospedaria, a reportagem fala da presença de apenas 2 bombeiros no espaço, mas ignora todos os dispositivos de combate a incêndio que lá foram colocados para ajudar a prevenir qulquer acidente, como sprinklers de grande capacidade.

Também ignora que junto às chamas, que alega terem atingido 20 metros, se encontrava equipamento de filmagem (sete câmaras) a menos de 10 metros do fogo, além de figurantes à mesma distância. Assim sendo, a temperatura das chamas nunca poderia ser de tal ordem que impedisse o funcionamento dos equipamentos.

Se tivesse reparado nas ligações de gás que mostra na reportagem, saberia que as mesmas alimentavam vários bicos de fogo, e não uma fonte apenas como quer fazer parecer com as imagens que tornou públicas. Também não especifica quanto tempo as chamas estiveram acesas…

Quanto à problemática da bilhética, a meu ver  o mais interessante da reportagem, ficam no ar demasiadas dúvidas. E, talvez o facto mais importante que ficou por assinalar: o sistema de bilhética é o mesmo em todos os monumentos da afectos à DGPC.

Deixo ainda uma declaração de interesses: nada me move contra a jornalista Soraia Ramos nem contra o Sexta às 9, que já produziu bom jornalismo em TV.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O Quinto Poder é perigoso, porque influencia e raramente utiliza o contraditório como peça de investigação.
    Para além disso, é matemático, pois parte de axiomas, desafiando a partir daí outra realidade, centrando-se apenas no que pensa ou na receita que lhe encomendaram.
    É assim que o Quinto Poder funciona.
    E para chamar a atenção dos incautos, usa as parangonas e foca-se nos instintos primários das pessoas.
    É assim na vida social e também, na vida política…
    Um exemplo quase generalizado de uma enorme falta de profissionalismo…

  2. Claudia Alves says:

    E as árvores do interior do claustro desaparecidas?

    • Fernado Campos says:

      Já está explicado, não estão desaparecidas. Procure que encontra a resposta. As árvores não eram do Convento. Tinham sido lá plantadas há uns anos pela produção de um outro filme e no final desta rodagem “os serviços do Convento de Tomar justificado a decisão com o facto de não se tratarem de espécimes autóctones, que deveriam ser substituídos”.

      • Fernando Manuel Rodrigues says:

        Mas que raio de explicação é essa? Então as árvores foram cortadas porque não eram espécies autóctones, e no seu lugar ficou cascalho?

        Enquanto não eram substituídas, ficavam lá. Elas foram cortadas “agora” porque dava jeito para as filmagens, e a explicação é, no mínimo, canhestra, e não convence.

        Fico à espera de ver imagens das “espécies autótones” lá plantadas. Mas vou esperar sentado, ou talvez deitado, porque desconfio que vai passar muito tempo.

  3. Há sempre alguém para defender o indefensável.

  4. Olá, Sr. “autor convidado” sem rosto nem nome. Eu não sei quem é o Sr. Mas seja você quem for, tenho a dizer-lhe que há ali uma OPACiDADE TOTAL, onde reina o medo de falar, com vozes distorcidas fugindo a toda a identificação.
    Acha que isto é saudável?
    Contra tudo o que você diz, basta constatar o seguinte: NINGUÉM SABIA DE NADA e continuaríamos a não saber. O sr. “autor convidado” defende isto? É isto sequer defensável?
    Todas as suas alegações são posteriores.
    Mas o facto inicial de silêncio forçado é inadmissível; só que o Sr. –“autor convidado” nem a esse silêncio se refere.
    Pela quantidade de dados e de pormenores que o Sr. “autor convidado” refere, ficamos a saber que que você está por dentro de tudo e que, portanto é um dos responsáveis.
    Venha falar à luz do dia e não se esconda, sr. “autor convidado”

    • Fernado Campos says:

      O texto está assinado… É só ler, porque é que não lê… leia… está assinado… é ler… leia… está assinado: Tiago Cardoso Pinto, é só ler. Está assinado: Tiago Cardoso Pinto. É só ler. Leia. Está lá, bem visível. Leia… é mesmo só ler. Bem assinado.

    • Tiago Cardoso Pinto says:

      O autor convidado.sou eu. Tenho nome. Está no início. A foto não é minha, mas podia ser.

  5. joão lopes says:

    impressionante,simpesmente…uma reportagem que consegue misturar o Terry Gilliam com roubo nas bilheteiras,por puro aproveitamento do nome do realizador para causar impacto(esta é a tecnica do CM,senhores) jornalistico,é pura demagogia.Mais:não aconteceu,mas podia ter acontecido o quê? ou os jornalistas agora são todos neuroticos,e já trabalham com hipoteses,e não factos…de qualquer forma a produtora vai pagar 5 telhas,duas pedras e duas arvores,estão felizes?

  6. Cristiana Nunes says:

    Olhe que não. Olhe que o nome que lá aparece é o do autor da fotografia. Este autor convidado, numa pesquisa rápida, parece-me trabalhar para a produtora do filme… Posso até estar errada, mas quando se trata de defender património desta dimensão… às vezes nem flashes deviam ser permitidos, quanto mais fogueirinhas que fossem…

    • Tiago Cardoso Pinto says:

      Trabalhar para a produtora? Há-de me explicar, se.não for.pedir muito, como é que chegou a essa conclusão maravilhosa. Foi a Soraia Ramos e as suas investigações fantasiosas?

  7. Sigillum says:

    O seu texto é um jogo de palavras.
    Edição de texto posterior aos comentários: “Foi devidamente autorizada por Terry …” (quem é esta pessoa para autorizar o que quer que seja dentro do Monumento?) revela contudo o seu carácter …
    Interessante ver a sua “lealdade fraternal maçon” (independentemente do que esteja em causa, ou do que seja correcto), contudo convinha ter em conta que “a Cozinha” tendo alegadamente ficado «apenas chamuscada» (como disse o seu fraternal avental) em oposição às fotografias, é dever e obrigação ser protegida.
    Não podem dispor como bem lhes aprouver; não são nem donos, e muito menos senhores do local.

  8. Victor Ângelo says:

    Por ter nascido assim não me considero culpado desta falta de estupidez que tanto cresce por aí à minha volta. Nota pessoal: ora se os estragos na pedra são tão antigos , questiono-me.. de onda raio terá vindo tanto cascalho e bocadinhos de pedra da mesma raça que varriam para o lixo após as ditas cujas filmagens? Maldição que sobre mim cai e que me faz questionar estes pequenos detalhes de gente estúpida que pensa que todos o são …

    • Victor Ângelo says:

      Botijas … ( e já apanhei algumas em casa com fugas por defeito de fabrica) nem todos os bombeiros do mundo chegavam e para quem não sabe … montaram dispositivos sprinklers?? para fogo de classe C?? anedótico !!!!!

      Sr autor do presente artigo, para mim perdeu toda credibilidade, sou capaz de respeitar todas as opiniões e discernir as verdades , mas após ter lido o que escreve vejo-o mais no papel que acusa a jornalista de ter tido … veja se para a proxima faz como recomenda fazer.. informe-se e estude …

  9. João Sousa says:

    Ao ler o artigo, fico com a ideia que Dom quixote foi morto no Convento de Cristo e o realizador entendeu agora filmar esse episódio. Ou então o homem que o matou, refugiou-se naquele edifico.
    Creio que não estamos perante um código “deontológico” mas, mais perante um código “Doentológico”.

    Reza a experiencia de vida que: “onde há fumo há fogo”, aqui parece ter havido uma grande fogueira, vai ser difícil de ser apagada, mesmo com paninhos quentes.

    Como ali foi realizado um filme, nada ,melhor que esperar para o ver, assim certamente teremos uma melhor percepção do que aconteceu na realidade (ou ficção) melhor dizendo.

    “Se tivesse reparado nas ligações de gás que mostra na reportagem, saberia que as mesmas alimentavam vários bicos de fogo, e não uma fonte apenas como quer fazer parecer com as imagens que tornou públicas. Também não especifica quanto tempo as chamas estiveram acesas…” (sic)

    Aqui é pior a emenda que o soneto. Ao tentar explicar o inexplicado cai num erro, admite haver uma quantidade de garrafas de gás (botijas grandes) se não fosse para fazer uma grande fogueira, não havia necessidade de tanta botija tendo em conta a quantidade de gás que cada uma tem, certamente que metade das mesmas daria para a realização da imagem pretendida.
    Provavelmente irá dizer: “muitas estavam sob reserva, não fosse haver qualquer anomalia”.

  10. “Deixo ainda uma declaração de interesses: nada me move contra a jornalista Soraia Ramos nem contra o Sexta às 9, que já produziu bom jornalismo em TV.” por certo? Metade do texto contradiz.

  11. Devia ver melhor então o que afirma…porque algumas coisas sei de fonte segura que são verdade…

  12. Manuel Joaquim says:

    Toda esta polémica da fogueira já podia ter sido esclarecida e para isso bastava a produtora divulgar as imagens não editadas da borralheira..
    Segundo o que me foi dito por figurantes dessa cena, foi-lhes solicitado para que aguentassem o maximo que pudessem o calor e se não conseguissem que saíssem da cena.. mas para tentarem aguentar o maximo que pudessem..
    Segundo ainda os mesmos figurantes na bancada superior que havia junto á tão famosa janela, houve figurantes que não conseguiram ficar até ao fim, tendo que fugir devido ao excessivo bafo de calor que o fogacho emanava..
    Mais os sprinkels não estavam lá para controlar a fogueira mas sim para fazer o efeito de chuva numa cena a seguir gravada..
    Mas para acabar a especulação a produtora que divulgue as imagens não editadas da fogueira controlada..

  13. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Se foi autorizada por Terry, porque é que teve de filmar às escondidas?

  14. Duarte Manuel says:

    Ninguém filmou nada ás escondidas !!! O convento esteve sempre aberto ao publico em geral e não foram poucas as pessoas nacionais e estrangeiras que assistiram ás filmagens, que também filmavam e fotografavam e divulgavam …. foram talvez dezenas de actores portugueses que participaram, centenas de pessoas de Tomar , arredores e cidades vizinhas, gente de todas as idades e profissões, professores, advogados empresários, desempregados e funcionários, a própria comunicação social anunciou por diversas vezes a rodagem do filme no Convento em Tomar …. Na altura nenhuma voz se levantou e estou certo que muitas das pessoas que agora se manifestam , se a filmagem não tivesse sido autorizada, estariam agora a criticar por isso. E sim também lá estive, Também sou tomarense. Quem disse que a fogueira tinha 20 metros não esteve lá, de certeza. Se deveria ter sido autorizada? Eu próprio, não achei boa ideia, mas sou um simples cidadão. Mas também vi sempre um cuidado extremo por parte de toda a gente que lá estava. Partiram-se telhas, lascaram-se pedras valiosas? Provavelmente sim. E as que se partem de cada vez que alguém ( visitante) tem menos cuidado? Passam por lá milhares de pessoas por ano…Também não gosto de ver seja o que for estragado, nem danificado, muito menos o “nosso” Convento, mas também me zango muito, de cada vez que vejo mais um título que anuncia a destruição do Convento de Cristo, noticias que estão a correr mundo, Denunciar as situações sim a quem de direito, alertar as pessoas claro que sim, mas sem causar prejuízos maiores. Já alguém pensou no impacto que estas noticias terão no turismo futuramente ?

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