Os portugueses e o período colonial


A maioria dos portugueses vê o nosso período colonial como uma coisa muito branda. A realidade foi bem mais negra, com o habitual cortejo de racismo, degradação, ignomínia. Filtramos o nosso passado pelas lentes rosadas da nostalgia, nuns casos, da ideologia, noutros casos, ou simplesmente pela ignorância. Penso que cresceríamos enquanto povo se soubéssemos mais da nossa história.

Não sendo eu imune à sociedade que me rodeia, a seguinte passagem do “The Last Train to Zona Verde” de Paul Theroux, chocou-me, por ir de uma forma tão brusca contra a ideia convencional que tantos fazem do colonialismo português:

Probably more nonsense has been talked about, and more myths have been created around, Portugal’s imperial adventures than any other nation’s. The most ludicrous was “Lusotropicalism,” a cockamamie theory and mystique of racial harmony proposed in the 1930s, which posited that because of their unique temperament and culture the Portuguese were the Europeans best suited to adapting to other lands and dealing with equatorial natives — finding (so it was argued) common ground in sympathy and like-mindedness. “We understand the natives better than you do” was the Portuguese boast. This implies not only that Portuguese imperialism had been a triumph, but also that Angolans had colluded in their own enslavement and willingly offered up their diamonds and gold. Provavelmente as aventuras imperiais de Portugal geraram mais absurdos e mais mitos do que em qualquer outra nação. O mais ridículo foi o “Lusotropicalismo“, uma teoria sem sentido e mística de harmonia racial, proposta na década de 1930, que postulava que, devido ao seu temperamento e cultura únicos, os portugueses eram os europeus mais adequados para se adaptar a outras terras e lidar com os nativos equatoriais – encontrando (argumentava-se) terreno comum em simpatia e mentalidades semelhantes. “Nós compreendemos os nativos melhor do que vocês”, vangloriavam-se os portugueses. Isso implica não só que o imperialismo português tinha sido um triunfo, mas também que os angolanos haviam colaborado na sua própria escravização e ofereceram voluntariamente os seus diamantes e ouro.

But the reality is that Angola’s history has been a colonial tragedy, and sometimes a farce, rife with racism, resistance, rebellion, and death. And the briefest glimpse of any Portuguese overseas territory is proof of the mess they made of their colonies. A dramatic fact, pointed out by a historian of Angola, Douglas Wheeler, is that in the four hundred years from 1579 until 1974 there had never been a five-year period in the colony without at least one punitive Portuguese military campaign. The glory of the Portuguese was their great navigators and discoverers, but they were incompetent administrators, ruthless bosses, and greedy exploiters. The crooked aristocrats and desperate peasants who planted themselves far from home, and finally fled, left nothing behind but derelict slave quarters, empty vinho verde bottles, and gloomy churches. Mas a realidade é que a história de Angola foi uma tragédia colonial e às vezes uma farsa, repleta de racismo, resistência, rebelião e morte. O mais breve olhar sobre qualquer território ultramarino português é prova da desorganização que eles deixaram nas suas colónias. Um facto dramático, apontado por um historiador de Angola, Douglas Wheeler, é que, nos quatrocentos anos a partir de 1579 até 1974, nunca houve um período de cinco anos na colónia sem pelo menos haver uma campanha militar punitiva portuguesa. A glória dos portugueses foram os seus grandes navegadores e descobridores, mas eram administradores incompetentes, chefes implacáveis e exploradores gananciosos. Os aristocratas tortuosos e os camponeses desesperados que se transplantaram longe de casa e, finalmente, fugiram, não deixaram nada para trás, a não ser quartéis de escravos abandonados, garrafas vazias de vinho verde e igrejas sombrias.

Traduzido com o Google translate e revisto na diagonal, se encontrarem erros avisem

Eu sei que outros povos foram mais brutais que os portugueses no seu período colonial. Sei também que houve mudanças positivas nos derradeiros anos do colonialismo (pura coincidência!). No entanto, nada disso justifica a ignorância que prevalece em Portugal sobre este tema.

Sobre Helder Guerreiro

Mantenho o tretas.org, um wiki onde fazemos investigação e preparamos documentação para memória futura do que vai acontecendo em Portugal.

Comments

  1. Ferpin says:

    A passagem citada é apenas opinativa, tendo tanto valor científico como afirmar que os colonizadores portugueses criaram em sngola um céu na terra.

  2. Há muitas histórias dentro das histórias.Há muitos a contar histórias onde prevalece os seus próprios mitos de organização do mundo e da vida.
    O chamado colonialismo português e o lusotropicalismo são visões da organização social tão válidas como todos as outras.
    Se o Estado Português, no passado, cometeu erros é compreensível. Só não comete erros quem não age.
    Dou pouquíssimo crédito a textos como os que expôs porque são sempre visões parcelares da vida e muito parcelares da vida dos Estados como o nosso.
    Gostaria de ver escritos com a mesma origem sobre a colonização inglesa na África (Mugabé), na América do Norte onde “limparam o sebo” aos nativos.
    Os ingleses têm muita sorte em ter o Estado Português como aliado para poderem entrar no Continente Europeu sempre que lhes fecham as portas.
    A nós dá-nos jeito para nos ajudarem a livrar dos franceses e ´castelhanos se estes se lembrarem de vir por aí abaixo para tomar conta disto.
    Sobre o nosso colonialismo há muitas histórias e uma mais verdadeiras do que outras.
    Acho até que algumas potências conspiraram contra nós por “inveja” e quiseram ajudar a retirar poder ao Estado Português.
    Os ingleses estão entre eles.
    Sobre a conduta dos ingleses estamos conversados…
    Acham-se os maiores…apesar de serem na, generalidade, uns borracholas…

    • Rui Naldinho says:

      Genericamente concordo com o seu comentario, ainda que aqui e ali salpicados com alguns estereótipos cuja veracidade não pode ser comprovada. Por ex: uns borracholas…
      Jeroen Dijsselbloem disse o mesmo do nós!
      Eu nasci em África. Vivi em Moçambique durante os meus primeiros dezanove anos de vida. Uma ex colónia com uma forte influência ângulo saxónica, da África do Sul e da Rodésia, hoje Zimbábue. Recordo-me bem desse tempo. Como se fosse “quase hoje”. E mesmo que um dia fique senil, essa memória será a última que irei esquecer.
      O nosso colonialismo não foi bom, como alguns pretendem insinuar. Como se alguma vez houvesse um colonialismo de boa qualidade, generoso, e afectivo,? Isso é a negação racional daquele que conquista, usurpa ou ocupa militarmente um território pela força.
      Agora, podemos afirmar sem o risco de errarmos muito, que o nosso sangue latino, a nossa ligação forte ao cristianismo através da ICAR, a nossa indolência por vezes, o nosso laxismo aqui e acolá, deram aos regimes coloniais uma imagem meio soft, por vezes abrasileirada, mais em Angola, uma certa multiculturalidade, onde os costumes deles, autóctones, se misturavam com os nossos, das roupas à alimentação, da música às danças.
      Mas por cá, no pós CEE, pós Euro, pós Bolonha, pós Maastricht, … não assimilamos também toda a paparoca que nos quiseram enfiar goela abaixo?
      Não fizemos nós um Acordo Ortográfico com as nossas ex colónias, no qual, eles nunca cumpriram o Acordo, e nós passamos a escrever mal e porcamente, para cumprir esse Acordo.
      O nosso colonialismo também foi assim.

      • Rui Naldinho says:

        Deve ler-se
        Anglo Saxónica

      • Sim Rui por vezes resvalamos para generalidades…
        Sim, quer os ingleses quer nós gostamos de vinho…
        Porque devemos ser nós “os maus colonizadores” e eles os bons?
        Certo, somos tão borracholas como eles e como os holandeses, genericamente falando….

        • Paulo Marques says:

          Não houve, nem há, bons colonizadores, só horríficos mesmo.

        • Rui Naldinho says:

          Olá!
          Desculpe-me só agora ter visto a sua resposta.
          Sim, concordo consigo. A começar no Czar da Rússia e a acabar no Far West com CowBoys, de Hollywood, só vi até hoje histórias onde pontificam grandes borracholas, e de todas as nacionalidades.
          O melhor deles todos terá sido um tal Winston Churchill!
          Cumprimentos

      • xavier says:

        Desculpe, o que é o ICAR…?

    • convém ler “The Scramble for Africa” de Thomas Packenham (não sei se está traduzido em português), para se ter uma noção mais clara do que foi a colonização de África pelos europeus.

  3. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Este é mais um texto que enferma do “politicamente correcto”, sem qualquer valia histórica, que mais não expressa senão a opinião pessoal do seu autor. A valia histórica (ou falta dela) está bem espelhada nesta passagem: “Os aristocratas tortuosos e os camponeses desesperados que se transplantaram longe de casa e, finalmente, fugiram, não deixaram nada para trás, a não ser quartéis de escravos abandonados, garrafas vazias de vinho verde e igrejas sombrias.”

    “…quartéis de escravos abandonados, garrafas vazias de vinho verde e igrejas sombrias.”… A sério? Essa das garrafas do vinho verda faz-me lembrar o comentário do senhor Dijsselbloem.

    • Eu gostava de saber qual a validade cientifica dos autores/comentadores que condenam de todas as formas e feitios o colonialismo de “ontem” com “os olhos de hoje” e se esquecem as coisas positivas que os europeus levaram para os colonizados.

      Rui SIlva

  4. atento às cenas says:

    como diria o senhor jaquim que, cansado de ser preto cá,
    fugiu para ir mandar nos pretos de lá : nem tanto ao mar nem tanto à terra

  5. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O texto reflecte uma opinião que vale o que vale ou o que, cada um de nós, quisermos que valha.
    Mas há, de facto um conjunto de circunstâncias que merece reflexão.
    Nos anos cinquenta, altura em que meu pai pensou ir para Angola, era necessária uma carta de chamada para podermos migrar. E como a não tínhamos, a família não foi. Não era em nada diferente ir para Angola ou Moçambique, do ir para França.
    O português daquela faixa de terreno a que chamavam metrópole, até ao início das guerras de libertação, foi sempre tratado como um estrangeiro pelo seu próprio país (governo).
    Pessoalmente, não tenho dúvidas que fomos dos colonialistas mais brandos, com uma capacidade de integração admirável, mas temos que assumir que só tratamos as nossas colónias como território nacional quando a guerra começou.
    Por último retenho a frase do articulista inglês : ” (…) administradores incompetentes, chefes implacáveis e exploradores gananciosos (…)”, referindo-se aos portugueses…
    E pergunto: se olharmos para a grande maioria dos nossos gestores, actualmente, esta imagem não assenta como uma luva?
    Não há que ter pruridos, mas sim aceitar uma realidade que saiu de fragilidades próprias que, podendo estar empolada pelo articulista, enferma de algumas verdades que não podemos negar.

    • Cada um vê a “coisa” com o “filtro” da sua experiência, como a que refere a propósito da sua família, num do contexto da nossa história (anos 50). Depois foi diferente…
      Outra coisa é “botar” texto sem factos, ou melhore com factos observados por quem e quando, como se fosse toda a verdade…
      Li há momentos uma notícia sobre uma investigadora do Porto em Austin.
      O chefe dela esteve nos Açores durante a 2.ª guerra. Para ele Portugal de onde veio a sua “musa cientista” era a terra de carros de bois e pessoas descalças…
      Faz dó este tipo de opinião.
      Então teríamos a mesma ideia sobre a América dos vaqueiros rudes aos tiros entre eles e aos nativos.
      Aqui há falta de seriedade intelectual menosprezando o que foi a colonização portuguesa que tomando a nuvem por Juno.

  6. JgMenos says:

    Vá o investigador pela História e verá quanto baste de ‘colonialismo português’ sem sair do Portugal nos seus actuais limites.
    Independente do que foi alcançado, o simples facto de ter pretendido ser e fazer diferente vale por si mesmo.

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