A Disneylândia do vinho

World of Wine. Imagem divulgada pelo Município de Vila Nova de Gaia a 9 de Junho de 2017. Clique na imagem para ampliar.

A opinião de Maria Abrunhosa Pereira (Arquitecta; Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) e Álvaro Domingues (Geógrafo; Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) sobre a Disneylândia do Vinho que vai nascer em pleno Centro Histórico de Gaia e cuja primeira pedra foi colocada ainda antes de iniciado o processo de licenciamento:

 

Jornal PÚBLICO
16 de Junho de 2017 (Texto integral):

“World of Wine: a vista do Porto para Gaia com mais um chiringuito
O Mundo do Vinho pretende afirmar-se como a nova Disneylândia de Vila Nova de Gaia.

Começou por ser planeada para ser a Cité du Vin, à semelhança da homónima de Bordéus, mas a ambição de algo maior, e certamente o sonante acrónimo WoW, combinaram-se para lhe dar o nome de World of Wine – Mundo do Vinho.
O Mundo do Vinho é um enorme complexo que vai emergir no miolo da encosta do centro histórico de Gaia, e será constituído por vários museus, espaços para exposições temporárias, restaurantes, lojas de artesanato, uma escola de vinhos e uma zona de estacionamento. Constitui um investimento a rondar os 100 milhões de euros do grupo Fladgate Partnership formado pela Taylor’s, Croft, Fonseca e Krohn, sendo parte deste montante proveniente de apoios comunitários, nomeadamente do programa Jessica (raio de nome).

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Os portugueses e o período colonial

A maioria dos portugueses vê o nosso período colonial como uma coisa muito branda. A realidade foi bem mais negra, com o habitual cortejo de racismo, degradação, ignomínia. Filtramos o nosso passado pelas lentes rosadas da nostalgia, nuns casos, da ideologia, noutros casos, ou simplesmente pela ignorância. Penso que cresceríamos enquanto povo se soubéssemos mais da nossa história.

Não sendo eu imune à sociedade que me rodeia, a seguinte passagem do “The Last Train to Zona Verde” de Paul Theroux, chocou-me, por ir de uma forma tão brusca contra a ideia convencional que tantos fazem do colonialismo português:

Probably more nonsense has been talked about, and more myths have been created around, Portugal’s imperial adventures than any other nation’s. The most ludicrous was “Lusotropicalism,” a cockamamie theory and mystique of racial harmony proposed in the 1930s, which posited that because of their unique temperament and culture the Portuguese were the Europeans best suited to adapting to other lands and dealing with equatorial natives — finding (so it was argued) common ground in sympathy and like-mindedness. “We understand the natives better than you do” was the Portuguese boast. This implies not only that Portuguese imperialism had been a triumph, but also that Angolans had colluded in their own enslavement and willingly offered up their diamonds and gold. Provavelmente as aventuras imperiais de Portugal geraram mais absurdos e mais mitos do que em qualquer outra nação. O mais ridículo foi o “Lusotropicalismo“, uma teoria sem sentido e mística de harmonia racial, proposta na década de 1930, que postulava que, devido ao seu temperamento e cultura únicos, os portugueses eram os europeus mais adequados para se adaptar a outras terras e lidar com os nativos equatoriais – encontrando (argumentava-se) terreno comum em simpatia e mentalidades semelhantes. “Nós compreendemos os nativos melhor do que vocês”, vangloriavam-se os portugueses. Isso implica não só que o imperialismo português tinha sido um triunfo, mas também que os angolanos haviam colaborado na sua própria escravização e ofereceram voluntariamente os seus diamantes e ouro.

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