Jornalismo


A cena passa-se num desses incêndios que lavram por aí, num canal de notícias desses que há por aí, protagonizada por um “repórter” desses que andam por aí. Um habitante de uma aldeia ameaçada pelo fogo corria, de balde na mão, procurando apagar umas labaredas que lhe ameaçavam uma construção, talvez um curral, um palheiro, não sei bem. De microfone na mão, o diligente repórter tentou, pondo-se ao lado do homem, entrevistá-lo. Quiçá para fazer uma daquelas inteligentes perguntas tipo “o que sente neste momento?”. Ficamos sem saber a resposta, pois o homem continuou a sua tarefa em silêncio – não ouso imaginar a resposta que lhe devia bailar na cabeça. O jornalista – chamemos-lhe assim…- vira-se para as câmaras e anuncia: “este senhor não quis responder-nos – faz tom de paternal censura – talvez porque tenha coisas mais importantes a fazer…”.

E ainda há quem pense que as críticas à comunicação social são exageradas.

Comissões

Um dos problemas das comissões parlamentares transmitidas em canal aberto pelas televisões é o da contradição, ou talvez paradoxo, que reside na tensão entre a bondade, em abstracto, da sua transmissão por razões de transparência democrática, e o facto funesto de tal transmissão intervir dramaticamente na disposição de muitos deputados os quais, enquanto têm consciência da presença das câmaras, falam para a audiência, que julgam ignara, esquecendo qualquer espírito analítico, chafurdando na mais básica demagogia, enfeitando de pesporrência as suas discursatas. Mal liguei a televisão e logo a tonitruante voz de Carlos Abreu Amorim me empurrou para outro canal, onde o Delgado, mostrando a verdade da tese de Einstein sobre a infinitude da estupidez humana, exortava o Ministro da Defesa a cobrir os céus, 24 horas por dia, de vigilantes helicópteros e drones – é engraçado ouvir o Delgado, que sempre se mostrou tão alerta em relação às questões do défice, propor uma iniciativa para a qual, provavelmente, nem todo o Orçamento do Estado chegaria. Com um nó no estômago, voltei à Comissão. Contrariado, mas voltei. Alguém tem de testemunhar, senão não se acredita.

Um dia resolver-se-ão os problemas sem ser pela produção de legislação (e, em particular, feita em cima do acontecimento)

António Louro, Presidente do Fórum Florestal e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Mação, em Audição Conjunta na Comissão de Agricultura e Mar Intervenção do Fórum Florestal, afirmando o óbvio (a partir do 4º minuto).

Assunção Cristas, ombro a ombro com Hugo Soares no ranking da falta de noção do ridículo

Recorte: TSF via Uma Página Numa Rede Social

Enquanto milhares sofrem e lutam contra o flagelo dos fogos florestais, um bando de oportunistas sem vergonha na cara ou noção do ridículo continua a instrumentalizar a tragédia com vista à obtenção de mais-valias político-partidárias e eleitorais. Hoje foi a vez de Assunção Cristas, que acusou o governo de “não saber lidar com situações sérias, difíceis e onde é preciso ter comando e autoridade“. Sim, esta pérola tem como autora a mesma senhora que assinou de cruz a resolução do BES. A mesma que, perante a seca de 2012, tranquilizava o país com a sua fé inabalável de que a chuva estaria para chegar. Que se calou bem caladinha quando o seu irrevogável líder lançou o país e a governação no caos, ao apresentar uma demissão de ocasião, apenas para colher dividendos para si e para o CDS-PP, à custa de uma subida de juros como não há memória desde que este executivo assumiu funções. Que atulhou a Parque Expo com as suas clientelas partidárias. Eis como Assunção Cristas lida com situações sérias, difíceis e onde é preciso ter comando e autoridade. Só ao alcance de quem não tem noção do ridículo.

“Leave Europe and go where … to another galaxy?”

Pois é. O silêncio do BE e de mais uns quantos (Louçã, por exemplo) é ensurdecedor.

E se o publicitário corrupto trabalhasse para a esquerda?

Isto é, obviamente, uma não-notícia. Pelo menos no que a Pedro Passos Coelho diz respeito. O homem pode ser culpado de muita coisa, mas seguramente não será responsável pelas alegadas maroscas em que um publicitário que em tempos trabalhou para si se mete ou deixa de meter. Claro que a imprensa não deixa passar em branco, porque, não-notícia ou não, vende mais se lhe for associado o nome do líder da oposição. Como venderia com o nome de outra figura de destaque do panorama político nacional.

[Read more…]

Wikileaks,  Panama Papers e a lista de mortos de Pedrógão Grande: dois casos de censura e um de excesso de informação no Expresso

Wikileaks,  Panama Papers e a lista de mortos de Pedrógão Grande

Muito se tem recordado, e bem, o caso Panama Papers. Mas é de lembrar  que há precedente, no Expresso também, nomeadamente quanto à divulgação dos textos WikiLeaks. Onde está a publicação integral dos cables que o Expresso censurou? Não existe, apesar da promessa de Ricardo Costa:

“No site vamos publicar na integra todos os telegramas. Quem quiser pode ler tudo. No jornal, enquadramos, editamos e corrigimos.
Achamos que temos, neste caso, uma dupla obrigação:
– divulgar a informação relevante, apenas e só depois de a termos trabalhado;
– disponibilizar aos leitores os telegramas que utilizámos.
Com este processo estamos a ser transparente e podemos ser facilmente escrutinados” [Ricardo Costa, Expresso, 01/03/2011; A publicação original no Expresso já não existe, mas está disponível no Aventar ]

Se nestes dois casos a censura de informação foi a marca dominante, já contenção foi coisa que não existiu quando o Expresso resolveu publicar o nome dos 64 mortos no incêndio de Pedrógão Grande. Zero de relevância jornalística, já que a notícia teria o mesmo valor sem esses nomes chapados, sem pudor, nas páginas de um jornal. E o mesmo se poderia dizer da PGR, que acabou por ceder à pressão política por parte do PSD e do CDS, apesar disso ser tema para outras conversas.