A single postcard from Krakow


«Sou muito cosmopolita…

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sinto-me o mesmo desgraçado em toda a parte», escreveu Manuel Rivas, num livro de crónicas que li há uns anos. Pensei nisto hoje quando realizei que tinha tomado o pequeno almoço em São Petersburgo, o almoço em Moscovo, o lanche em Viena e o jantar em Cracóvia, onde estou neste momento. Não que me sinta desgraçada, ou sequer cosmopolita, mas a frase de Rivas veio-me à cabeça. Por muito que andemos, por muito que vamos e regressemos a casa, somos sempre os mesmos, pelo menos no modo como sentimos as coisas, no modo como olhamos para as coisas.

Não me sinto desgraçada agora que esta viagem está a chegar ao fim. Sinto-me apenas estranha, como sempre. E esta é outra frase de que me lembro sempre e me acompanha nas viagens quase todas. A de Enrique Vila-Matas, em ‘A Viagem Vertical’, que estou sempre a citar nos postais que escrevos dos sítios onde vou. De muitos, não de todos. «Quando viajas com alguém, tudo te é estranho. Quando viajas só, o estranho és sempre tu». Há bocado, depois da longa viagem de hoje em que atravessei 3 fronteiras e 2 fusos horários, já sentada numa esplanada de uma das mais bonitas praças do mundo que conheço, em Cracóvia, estava a pensar também, ao ver as pessoas ir e voltar, como seria bom se ao chegarmos a um sítio fossemos instantaneamente dali. Mas não.Levamos tempo a habituarmos-nos aos lugares e quando, finalmente, parece que estamos já familiarizados temos de regressar. pelo menos comigo é sempre assim.
Em Cracóvia já õa me sinto tão estranha, no entanto. Ainda há 2 semanas estive aqui 6 dias, 4 num congresso europeu de sociologia rural, cheio de trabalho e reuniões e reencontros com pessoas de quem gostamos mas quase só se vêem nestas circunstâncias. Os restantes 2 dias foram já de férias. Já tinha estado em Cracóvia há uns 13 anos. lembro-me bem a primeira vez que vi a praça principal, era de noite e não estava quase ninguém, havia pouca luz e tudo me pareceu surreal. Gostei muito de Cracóvia há 13 anos, bastante mais do que de Varsóvia e das suas enormes avenidas que tornam os homens minúsculos. Cracóvia tinha uma dimensão bastante mais humana, apesar de mesmo aqui ao lado se encontrarem alguns dos mais terríveis lugares da história, que também visitei dessa vez. Uma vez é suficiente para perceber mais de perto o terror, para sentirmos vergonha pela humanidade. Falo de Auschwitz e de Birkenau. E do silêncio pesadíssimo que não voltei a encontrar em mais nenhuma parte.
Desta vez passeei apenas pela cidade, quase sempre na companhia da Txus e da Stina. Visitei a Fábrica Schindler, revisitei o bairro judeu e o gueto, andámos de barco no rio Vistula. Fizemos coisas alegres, portanto, celebrando o encontro e a alegria de estar vivo. Devia ter escrito este postal antes, nessa altura, mas não me apeteceu. Agora estou aqui apenas por umas horas. Cheguei à pouco e vou-me embora daqui a pouco. Continuo a gostar de Cracóvia, embora Cracóvia não seja a mesma de há 13 anos. Tem muito mais pessoas a toda a hora nas ruas e na praça principal. Organizam-se ‘pub crawls’, coisa que eu desconhecia até agora que existisse. Há gritos e bêbados nas ruas durante toda a noite. Os preços também subiram muito, comparativamente. Nota-se também nos cafés, restaurantes e serviços em geral uma vontade de fazer dinheiro rapidamente com o turismo, sem ter em conta a qualidade. Tenho pena que assim seja, mas creio que se pode compreender. Talvez venha a acontecer o mesmo em Lisboa, em breve, para onde vou amanhã. A única cidade no mundo inteiro onde não me sinto estranha.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    Não custava nada ter post um acento no o de Kraków.
    Lê-se “Crácuv”. O acento no o transforma o som o em u.

  2. Jesus says:

    Lembra-me o “quem da pátria sai a si mesmo escapa?”.
    Interessantes reportagens,pessoais.

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