O “fato” académico


Santana Lopes orgulha-se de ter assinado, em 1990, o chamado acordo ortográfico (AO90), mesmo se considera a ortografia um assunto maçador. Há cinco anos, julgando mostrar o seu conhecimento sobre o assunto, desvalorizava as críticas ao AO90, acrescentando a seguinte cereja: “Agora ‘facto’ é igual a fato (roupa).”

Em 2009, Paulo Feytor Pinto, então presidente da Associação de Professores de Português, declarava o seguinte: “Contrariamente ao muito que se diz por aí, as alterações que vão ser introduzidas são muito poucas e julgo que basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las.”

Em 2015, Cláudia Madaleno, sob a orientação de Luís Teles de Menezes Leitão defendia a sua tese de doutoramento na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, tendo-lhe dado o título A responsabilidade obrigacional objetiva por fato de outrem. Uma análise ao texto permitirá confirmar que aí abundam as grafias “fato”, “contato” e formas verbais do verbo “contatar”.

Uma passagem pelo repositório virtual de teses da Universidade de Lisboa permitiu-me, ainda, descobrir mais dois trabalhos académicos carregados de “fatos” e de “contactos”. Dois, senhores, dois.

Quase todas as semanas, o nosso Francisco Miguel Valada apresenta ao mundo exemplares destes espécimes (dis)ortográficos, sempre muito activos no Diário da República. Sim, no Diário da República. Olhai, olhai: ainda agora…

Uma investigação no Google, tomando como referência o domínio .pt, leva-nos a descobrir uma miríade de “contatos”. Se procurássemos “fatos”, é claro que não sairíamos do mundo da roupa; já a expressão “fato consumado” confirma que a ortografia está pelas páginas da amargura.

O AO90 vai fazendo o seu caminho, à maneira de uma manada de elefantes em fuga, destruindo a ortografia. De certa maneira, Santana Lopes tem razão: facto é igual a fato. Ou vice-versa. Tanto faz. Se esta dúvida (ou certeza, tenho dúvidas) se instalou na Universidade, imaginai o resto.

Comments

  1. JoãoBarroca says:

    Só não vê quem não quer…

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    É, de facto, uma pena que todos esse “fatos” não sejam despidos na praça pública, demonstrando, de uma vez por todas, que “o rei vai nu”.

    Mas, tal como Santana, muitos dos nossos responsáveis acham a ortogtafia um assunto “maçador”, e para eles tanto faz, desde que os nossos “irmãos” (não deveria ser “filhos”?) brasileiros estejam contentes.

  3. José Fins says:

    Burro também é Cavalgadura !

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