A antiga casa do guarda florestal ainda não ardeu este ano


Há muitos anos, ainda Vila Real de Santo António tinha um parque de campismo onde era possível passar uma semana agradável no Verão, ardia outro parque de campismo no Algarve, que isto de incêndios não é de agora, apesar de ter piorado. Um cavalheiro com idade para ter netos tinha deitado à minha frente uma beata de cigarro para o chão, ainda acesa, ali mesmo no meio do parque, abundante de caruma e pronto para um belo incêndio. Chamei-o à atenção, até porque se aquilo ardesse seria a minha preciosa tenda canadiana que se perderia. O que eu fui fazer. Só não houve porrada porque o cavalheiro, ao contrário de mim, era pessoa educada. 

No passado domingo o país esteve novamente transformado num enorme braseiro. Li relatos sobre foguetes lançados em Aveiro e sei de um fogo que terá começado porque um velhote decidiu queimar os carolos no domingo à tarde. Não morreu ninguém e nem arderam casas, nem mesmo a do guarda florestal, tão abandonada quanto os pinhais que a rodeiam.

Haverá fogo de origem criminosa, sim, mas também há muita incúria. No país falta tanto de sanidade como de dinheiro que se gaste numa campanha continuada para educar as pessoas. Uma campanha bem feita funciona. Basta lembrarmo-nos da prevenção rodoviária e de como hoje em dia o uso de cinto se tornou algo aceite sem ser por receio da multa. Ou da campanha “se conduzir, não beba”. Não será por falta de dinheiro que estas não se fazem, pois os Canadair não ficam baratos. 

Hoje choveu. Talvez a velha casa do Guarda da Mata sobreviva este ano. Continuando assim, será apenas uma questão de tempo até que dela nem as ruínas restem do que foi a primeira linha de proteção da floresta. E, já agora, coloquemos nomes nos malfeitores. Sócrates iniciou a extinção do corpo de guardas florestais, Passos Coelho concluiu o serviço e Costa deixou andar.

Comments

  1. Fernando says:

    Campanhas de informação/ sensibilização são uma intromissão inaceitável do Estado nas liberdades individuais!
    Temos sim é deixar o mercado funcionar!
    Se há incêndios é porque há demasiado Estado!
    As sociedades livres têm pouco ou nenhum Estado!
    O único investimento estatal aceitável é o investimento em militarismo de forma a garantir que os terroristas e comunistas não destruam a tão preciosa liberdade que o mercado nos garante!

  2. Luís Lavoura says:

    Haverá fogo de origem criminosa, sim, mas também há muita incúria.

    Exatamente. Muito bem dito.

    Eu diria que um terço das ignições neste país é causada por beatas de cigarro. Outro terço será causado por máquinas (roçadoras, tratores, rebarbadoras, automóveis) a funcionar onde e quando não deviam.

  3. JgMenos says:

    Tanto se me dá que haja um corpo de guardas florestais como que a Guarda Republicana tenha meios e saber para fazer esse serviço.
    O que não é indiferente é que em vésperas de chuva, antecedido de um fim-de-semana, não tenha incrementado a vigilância quando em 2013, em circunstãncias idênticas, também houve mais de 500 ignições.
    E o governo de cretinos deu o verão por terminado a 30 de Setembro!!!!

    • António Fernando Nabais says:

      Isto era entregar tudo aos privados, que ficava tudo resolvido! Espera: já está!

      • joão lopes says:

        melhor,muito melhor.moção de censura ao governo é boa noticia.é obrigar todos os partidos a falarem sobre o abandono do interior e suas consequencias.porque todos são responsaveis por isto.porque o interior esta literalmente forrado de monocultura(eucalipto e pinheiro) e mato por todo o lado.existem milhares de imagens que provam isso.

  4. Ricardo Almeida says:

    A tese de um incêndio acidental é plausível e algo provável mas quando todo o país arde, com múltiplos focos de incêndio individuais a surgirem como minhocas em dia de chuva, as probabilidades depressa revelam uma certeza.
    É fácil obter valores concretos pegando no pior dia – a última 6ª feira – no conceito de acidentalidade e na teoria básica de probabilidades.
    A maioria das publicações nacionais atira o número de focos de incêndio individuais da última 6a feira para bem acima dos 200. Nem preciso de ser picuinhas com este número. Aliás, vou até ser muito conservador e considerar que apenas 100 destes foram acidentais. Quanto à acidentalidade, isto é, as beatas mal apagadas, os churrascos no meio da floresta ou assumindo que 100 aldeias lançaram foguetes em 100 festas, vou admitir que, a probabilidade de um fogo ser acidental é de 75%, valor que tem tanto de ultra-conservador como de ridículo pois se assim fosse já não restava uma única árvore no país à muito tempo. Nestas condições a probabilidade de 100 dos fogos de 6a feira ser acidental é de 0.000000000032%!
    Traduzindo: a probabilidade de ganhar o 1º prémio do Euromilhões é 22 vezes superior!
    Portugal foi vítima de um ataque terrorista e é possível prová-lo matematicamente.

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