“Os políticos não se educam, pressionam-se”


Fotografia LUSA/Paulo Novais

Uma expressão como “época de incêndios” poderia ser cómica, não fosse enorme a tragédia. Faz tanto sentido como “época de inundações”, como se houvesse uma obrigatoriedade de haver fogo e água por toda a terra, dentro dos períodos respectivos, como se tudo, no fundo, fizesse parte de um planeamento. São expressões que transformam probabilidades em inevitabilidades e que são o retrato de um país ou de um mundo por civilizar.

O professor Jorge Paiva, um especialista em floresta, ao contrário de gente mais mediática e sem vergonha, anda, há anos, a chamar a atenção para vários problemas que poderão estar na origem dos fogos, nomeadamente a falta de guardas florestais.

Entretanto, o jornalista José-António Pimenta de França, na sua página de Facebook, num post intitulado “Fogos: a quem aproveita o crime?”, criticou o facto de a Força Aérea ter sido afastada do combate aos fogos, o que abriu caminho “a negociantes (…) interessados em fazer arder o país para vender equipamentos e serviços de extinção de fogos.”

Há vários anos, o lado perverso de uma globalização comandada pelos interesses empresariais e financeiros tem pressionado os países a tornar o Estado numa coisa mínima ou, de preferência, inexistente, sempre em benefício do negócio e em prejuízo do mexilhão. O outsourcing é uma das práticas que permitem aos privados ocupar áreas que deveriam estar a salvo do desejo do lucro, não por horror à usura, mas devido ao mais elementar bom senso.

Esta vertigem do desinvestimento público tem sido aprofundada nos últimos dez/quinze anos, mesmo que o fascínio por essa prática já tivesse começado a germinar em eras anteriores.

Desde as refeições nas escolas até à desgraça na protecção civil, passando por muitas outras áreas, o desinvestimento público tem vindo a causar problemas ou tragédias. A destruição contumaz do sistema de protecção civil é da responsabilidade do Centrão que finge, há vários anos, alternar no governo. Se é certo que haverá responsabilidades políticas que poderão ou deverão levar a demissões ou a pedidos de demissões no actual executivo, não é menos verdade que a Assembleia da República está pejada de gente que teve oportunidade para melhorar aquilo que foi sempre piorando. É claro que esta circunstância não impede ninguém de falar da tranca que está no olho alheio, esquecendo que está no no próprio. Aqui, não faz sentido falar em argueiro.

Aliás, se não se desse o caso de a Assembleia da República estar transformada numa central de negócios ou, na melhor das hipóteses, de estar dominada por claques, deveria haver um pacto de regime que levasse à definição de um Estado forte e auto-suficiente nas áreas em que a sua intervenção deveria estar liberta de qualquer influência que não fosse o interesse público. No entanto, sabendo como são os políticos, temos de seguir o conselho do professor Jorge Paiva: “Os políticos não se educam, pressionam-se.”

Comments

  1. joão lopes says:

    por mim,que a geringonça cai com estardallhaço,mas que obrigue a debater em AR,todas as negociatas privadas(é verdade,o outsourcing imposto pelo passos/troika é sem duvida um dos responsaveis) incluindo madeireiros e o negocio de milhões que é neste momento a agroindustria que está por trás de tudo isto.

    • Carlos Silva says:

      As mortes aparecem com a gerigonça e a culpa é do governo anterior? Só podes ser parvo e burro.

      • António Fernando Nabais says:

        As mortes aparecem com a geringonça e a culpa é sobretudo, e não exclusivamente, do actual governo, mas o desinvestimento na prevenção e no ordenamento do território já se arrastam há anos. Parvo e burro não são argumentos, mesmo que pense que sim.

  2. joão lopes says:

    mais uma:nas imagens só se vem eucaliptos e matas por limpar.Facto…

    • Carlos Silva says:

      Dizes isso porque deves ser da cidade e não és proprietário (por herança) de pequenas parcelas de terreno em zonas inacessíveis.
      Morreu uma criança de um mês queimada? Paciência. Tragédia é o Isaltino ter sido eleito. Isso é que não.

  3. Rui Naldinho says:

    Não podia estar mais de acordo, com este texto. Este país, tornou-se num país de outsourcing’s.
    Aliás, quando me falam da despesa pública com a saúde e a educação, apetece-me perguntar-lhes.
    O Estado nos últimos sete anos despachou mais de 70.000 funcionários públicos para a reforma, ou para o desemprego (contratados).
    Os ordenados dos que ficaram, e as reformas dos que saíram para a aposentação foram reduzidos pelos cortes ou pela via fiscal. Nem no ano de 2018 ainda não estarão como estavam em Janeiro de 2010, por causa dos escalões de IRS.
    Mas a despesa continua intacta. Ou reduziu pouquíssimo.
    E qual a razão?
    Ah, é culpa do chulo do funcionário público!
    Ou talvez não.
    É a empresa de limpeza e o catering nas escolas. Mas o pior é que a limpeza vale pouco, e a comida uma boa bodega. Perguntem aos putos? Nalgumas até a Segurança é privada. Universidades e Politécnicos em especial.
    Nos hospitais, idem. É limpeza, o catering, e a Segurança. O velho electricista, canalizador ou trolha que ia fazendo a manutenção, conservação, e tapando os buracos deixou de existir para dar lugar aos ajustes directos. Até os espaços públicos, jardins são arranjados por empresas outsourcing.
    Qualquer dia vamos ao balcão das Finanças da nossa residência fiscal, e em vez do funcionário que nos habituámos a consultar, está uma menina dos CTT para nos atender, informando-nos que os CTT tinham ganho o concurso público para cobrar os impostos.

  4. JgMenos says:

    O Estado uma coisa mínima?
    Ou o Estado uma agência de tachos e benesses?
    Quanto mais cresce mais esquece aquilo para que foi feito: Segurança e Justiça.
    Mete-se em toda a merda e abandona o essencial.
    Votos e clientela são as palavras chave.

    • António Fernando Nabais says:

      O Estado está transformado numa agência de tachos e benesses, mas não para os funcionários públicos. E é por isso que abandona o essencial, como, por exemplo, a Protecção Civil, e, portanto, só faz merda. O seu querido Passos, aliás, aprofundou bem esse trabalhinho, ao vender anéis e dedos, ao contrário do que tinha prometido em campanha. Mais um menos na caderneta.

      • Rui Naldinho says:

        Ó António, a esse nem vale a pena dar um menos na caderneta. Nem sequer reprová-lo.
        É um caso típico de insucesso escolar.
        O Menos faz-me lembrar aquela anedota do Cristo, que na sua peregrinação milagrosa pelos territórios do império romano, ao chegar ao Alentejo, na altura não teria esse nome, mas isso também não interessa para o caso, perante o desespero e o desalento de um centurião Romano, que acompanhava com os seus homens a construção do Templo de Diana, em Évora, terá pedido ao divino pregador, que intercedesse por aquela gente e por ele próprio, queixando-se da indolência e da moleza daquele povo, no trabalho. Ao que Jesus num pranto sussurrante, lhe retorquiu:
        – Irmão, faço milagres. E muitos. Curei enfermos, ressuscitei mortos, amainei ventos e tempestades, até fiz as ondas parar, no Mar Negro.
        – Mas infelizmente alguns milagres que me pedem, não consigo realizar!

    • ZE LOPES says:

      Menos: leia o post! Eu já sei que V. exa. não gosta de ouvir estas coisas mas…o problema da floresta, e do que anda á roda é (suspense!) ESTAR ENTREGUE AOS PRIVADOS! E OS FOGOS SERVEM (novamente suspense…) PARA DAR LUCRO!

      É que, ao contrário do que V. Exa. costuma perorar, o problema não é a ineficiência. Ou melhor, até é. É A INEFICIÊNCIA QUE GERA LUCROS! e GERA EMPREGOS!

      É isso o capitalismo, estúpido! A floresta é, quando é, um negócio a longo prazo. Ora, há três coisas que nunca consegui ver, na minha vida: um homem a parir, um defunto a ressuscitar (embora V. Exa. seja candidato a ambos…) e um capitalista a pensar longo prazo ou, nos nossos dias, sequer a médio!

      E basta ver quem são os maiores empregadores deste país. Quem são? AS EMPRESAS DE SEGURANÇA PRIVADA! Que vivem…da desordem, ou seja, da ineficiência!

      • Carlos Silva says:

        FDX. Para parvo nada te falta.
        Mete mais tabaco na merda que andas a fumar.

        • joão lopes says:

          tu ofendes por tudo e por nada,significa que estas de consciencia pesada(e o teu partido,o psd tambem).mais:500 incendios num só dia obriga a que o MP investigue.como aconteceu(pode ser que a coisa aqueça ainda mais)

        • ZE LOPES says:

          Silva: o menino é muito mal educado! Se tiver argumentos, responda. Se não, fique caladinho! Não se lembra do que lhe dizia a sua mãezinha quando era pequenino, naqueles comoventes momentos em que a ajudava a rapar o bigode? Francamente!

        • ZE LOPES says:

          O nível do insulto só demonstra que o “tiro” atingiu a “mouche”! Ou uma delas…

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