Uma vergonha chamada disciplina de voto

Se eu fosse deputado e me impusessem disciplina de voto, faria uma de duas coisas. Ignorava-a ou batia com a porta e ia-me embora. Estaria a fazer aquilo que eu acho que é o dever de um deputado, a saber, votar de acordo com o mandato que o soberano, nós todos, lhe atribuiu graças à eleição pelo seu círculo eleitoral, em vez de agir conforme o directório do partido. Mas isto sou eu, que não vivo da política e que, se alguma vez estivesse na política, poderia sempre voltar à minha profissão.

Comments

  1. antonio Lourenço Antunes says:

    Deputados nao representam circulos eleitorais sao indicados pelo partido e representam o todo nacional…o que ei tb nao concordo mas e a vida e se nao votam pra proxima ficam em casa

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Pois…
    Mas não é e se fosse, pela sua redacção e posição vertical, não passaria de um mandato, se a tal chegasse.

    Deputados de partidos, são répteis e, de preferência, sem coluna vertebral e melhor ainda com verborreia de papagaio.
    É isso que eles querem… seres rastejantes e sibilinos.

    Não pretenda meter-se em tal associação 🙂

    • Pequena Nuance says:

      Se bem me lembro das aulas de biologia, todos os répteis são dotados de coluna vertebral.

      Os vermes, esses sim, também rastejam mas não possuem a dita…

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Pois… lá terá a sua razão biológica que ninguém lhe pode tirar.
        Mas eu discuto a razão políticas.
        Já viu homens (e mulheres) sem coluna vertebral?
        Pois aí tem. Existem e muitos são deputados 🙂

        Figuras de retórica ainda que a biologia seja maltratada.
        Mas não maltratemos os vermes 🙂

  3. Elvimonte says:

    O seu raciocínio estaria correcto no âmbito de um sistema eleitoral baseado em listas abertas. Mas não é esse o caso. As listas são fechadas e, por isso, a esmagadora maioria dos candidatos colocados nos chamados lugares eligíveis das listas estão desde logo eleitos, muito antes do primeiro voto cair nas urnas. O histórico dos resultados eleitorais para a AR assim o demonstra, havendo naturalmente excepções aquando do aparecimento em cena de novos partidos, casos do defunto PRD e do BE.

    Deste modo, torna-se óbvio que os deputados devem obediência aos partidos e não às respectivas consciências ou ao alegado mandato que os eleitores lhes conferiram. Os eleitores até podem votar, mas são os partidos que os elegem. E, da direita à esquerda, todos os partidos acarinham este sistema eleitoral que lhes permite, entre outras coisas, o pagamento de favores e a eleição garantida da respectiva nomenclatura, nomeadamente dos seus líderes.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      E onde é que aquilo que afirma – que está absolutamente correcto – altera o raciocínio de base?
      Se calhar só fazia bem aos partidos ter pessoas que expressassem abertamente o seu pensamento e a sua liberdade, em vez de ter papagaios que funcionam como caixas de ressonância.
      Isto não é um problema de direita ou de esquerda. É um problema de consciência, de democracia e sobretudo de liberdade.
      Pobre liberdade que parte de fundamentos que em nada são diferentes dos métodos usados pela União Nacional ou um qualquer Politburo.

  4. j. manuel cordeiro says:

    Ilustres comentadores, eu sei que os nossos deputados são da nação e que o que vai a votos é uma lista. Acho lamentável que não possa responsabilizar individualmente os deputados, mas isso é outra conversa. Mesmo assim, depois de eleitos não podem ser destituídos pelos partidos. Portanto, só não pensam por cabeça própria porque querem voltar a fazer parte das listas na eleição seguinte.

  5. Bento Caeiro says:

    Cordeiro, nem a propósito.
    Mas instituição, agremiação, partido, igreja, requerem rebanho e norma e quem não se submeter arrisca-se a ficar de fora da carroça: e disso trata o pastor, seus apaniguados e cachorros. E a gente sabe que, muitas vezes, certas caminhadas são cansativas para fazer a pé. Pelo que muito aceitam, porque gostam de rebanho e outros não gostando, acomodam-se.
    Mas, de uma forma geral, espírito livre, independente e com cabeça para pensar, não consegue aguentar essas formas de viver e estar, e, cedo ou tarde, afasta-se.
    Veja-se o caso dos membros dos partidos que juntando-se a outros cidadãos – porque não concordaram com as figuras que os seus partidos lhes queriam impor – se viram a braços com acções disciplinares.
    Cordeiro, nem a propósito, por me fazer lembrar que partido requer carneirada e quanto maior e mais uniforme o rebanho mais feliz o pastor.
    A história está cheia disto.
    E isto tanto dá para a esquerda como para a direita.

  6. Luís Lavoura says:

    Discordo.
    A disciplina de voto é necessária para que o eleitor não seja defraudado.
    Um eleitor que vota no partido X tem que ter a garantia de que esse partido vai ter a possibilidade de levar àvante o seu programa, de defender as suas ideias, sem ser traído pelos seus deputados.
    Eu não quero votar em pessoas que, na generalidade, não conheço. Eu quero votar em partidos que, mais ou menos, conheço. E quero que as pessoas que representam esses partidos sigam, de facto, as orientações deles. Só assim eu poderei dar alguma confiança a esses partidos.

    • António Fernando Nabais says:

      Os eleitores estão, de um modo geral, tão mal informados que acreditam que elegem o primeiro-ministro. Nesse caso, não é necessário eleger deputados. Bastaria que cada partido tivesse apenas um deputado, passando a contar-se apenas a percentagem e não o número de votos, sempre que fosse necessário legislar. Poupava-se um dinheirão e perdia-se democracia, que é, afinal, uma coisa sobrevalorizada, tal como a consciência individual.


      • Sem dúvida que há muita gente ainda mal informada a esse respeito !

        Mas essa desinformação ainda é muitas vezes veiculada, estimulada, por gente com responsabilidades em “certos” partidos, cheios de verrina contra o actual acordo de governo, e a quem convém manter a ideia de que quem elege, elege um primeiro-ministro !

        Que o digam a “geringonça” e a sua maioria parlamentar…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Caro Luís Lavoura.
      Pessoalmente entendo que um eleitor elege pessoas capazes de defender uma linha de pensamento e uma consciência.
      Dito de outra forma, o eleitor, enquanto pessoa livre, elege pessoas livres.
      Num partido, tal como dentro de uma casa, podem haver diferentes direcções de pensamento, mas nunca a subjugação da personalidade a um interesse político ou outro (que sabemos existir naquela casa a que chamam da democracia).
      Assumir uma disciplina de voto, na minha opinião, não é democracia. Há princípios que eu entendo devem ser respeitados, mas sem nunca por nunca a pessoa se sujeitar a aviltar a sua consciência.
      Esta consciência deveria começar nos próprios deputados que deveriam interiorizar se se sujeitam ou não a uma linha directriz que vá contra a sua consciência.
      A democracia exige pluralidade de opiniões e sobretudo respeito pelas diferenças. Exige pessoas livres, exige consciência.
      E exactamente porque tudo isto falha, estamos na situação em que estamos.
      A dita casa da democracia não passa de uma casa que alberga uma nova casta de pessoas com os “seus” direitos e privilégios – é exactamente isto que eles defendem – mas não alberga seguramente gente com coluna vertebral

      Cada cidadão fará como entender no momento de votar – um direito inalienável – mas, para mim, é justamente por ver naquela casa um grupo de papagaios que são capazes de ir contra a sua própria consciência, em nome de uma disciplina de carácter social muito duvidoso, que desde há muito tempo sei como voto. E pela mesma razão há uma coisa que nunca faria: filiar-me num partido. Quero ser livre e não sujeito a orientações que não passem pela minha consciência.
      Obviamente que o que aqui exprimo é uma opção que tem no conceito de Liberdade a sua grande sustentação.
      Cumprimentos.

    • Bento Caeiro says:

      O Lavoura, pelo que vejo gosta de lavrar em rebanho, quando a sua preocupação deveria assentar que todos com o seu esforço e ideias – não necessariamente únicas -, converjam para a obtenção de um campo fértil, onde, lançando as sementes, as colheitas seja fartas. Não sendo assim, pela unicidade do pensamento único, o mais que poderemos ter é um campo de cardos.
      Não, por acaso, o panorama geral partidário; por arredado de ideias e gente motivadora – rebanho, à semelhança do que o pobre do Francisco (Papa) encontrou e tem no Vaticano e nós temos na Assembleia da República.


  7. Há situações em que a disciplina de voto faz sentido (embora normalmente nesses casos seja desnecessária). Por exemplo, seria razoável que ao votar um projecto de lei que acabasse com o SNS o PCP impusesse a disciplina de votar contra. Infelizmente, na maior parte dos casos, é apenas um abuso do conceito para o “chefe” impor o voto que satisfaz algum interesse, o que leva, muito razoavelmente, as pessoas a perguntarem-se para que servem 230 deputados, deduzindo que bastaria uma de cada partido com votos proporcionais ao número de mandatos.

  8. antero seguro says:

    A nossa democracia ainda não atingiu a “perfeição da democracia brasileira” em que os deputados negoceiam transferências (como os jogadores de futebol) pagas a peso de ouro entre os diversos partidos, mas para lá caminhamos.

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