A distracção da “guerra comercial”

A “guerra comercial” vem ultimamente ocupando as primeiras páginas das notícias. Não se distraia com ela, recomenda a Greenpeace.

Não que não tenha consequências, claro que tem; porém, afasta a atenção daquilo que deveria ser, de facto, o foco essencial: as mudanças climáticas e a paz (a todos os níveis) e a sua conexão com as presentes políticas de comércio global, promovidas a todo o vapor pela Comissão Europeia e pelos estados-membros.

A “guerra” de tarifas sobre aço e a réplica na manteiga de amendoim são apenas detalhes de uma política de globalização cega, centrada no crescimento, no barato e no descartável, à custa da saúde e do planeta e ao serviço dos monstros transnacionais.

Está prontinho a sair do forno o JEFTA, o acordo comercial UE/Japão, todo confeccionado longe dos parlamentos nacionais, os quais nem sequer são devidamente informados pelos seus governos sobre um acordo de mais de 1.000 páginas, que vai limitar severamente o espaço político da UE, dos seus estados membros e até mesmo dos governos regionais e locais.

Em Portugal, aos deputados nacionais nem sequer é dada prévia informação e oportunidade de debate sobre a posição que o governo português vai tomar já no próximo dia 26 de Junho no Conselho de Ministros da UE. Enfim, não custa adivinhar, mas parece que a democracia e transparência exigiriam.

Bem como a democracia também exigiria mais do que a dada como certa maioria qualificada para a aprovação do “maior acordo comercial de todos os tempos”, que vai criar uma zona de comércio livre com mais de 600 milhões de habitantes, representando cerca de 30% do PIB mundial.

Para 11 de Julho está prevista a cimeira UE/Japão e a assinatura solene do acordo. E depois? Bem, para entrar em vigor falta a aprovação do Parlamento Europeu (PE), lá para o fim do ano (em todo o caso antes das eleições europeias!) mas também é dada como certa. Estranho, não? É assinado antes da votação no PE; é assim, mas é sintomático. Nem sequer há grande interesse em obter os pareceres das comissões técnicas do PE. Tudo ao serviço das multis.

Com o JEFTA, concursos públicos, agricultura, serviços, propriedade intelectual, comércio electrónico, medidas sanitárias e fitossanitárias, etc., fica tudo sob as asinhas da cooperação regulatória, lá longe, longe, em Comités que visam derrubar tudo aquilo a que chamam as “barreiras ao comércio” (isto é, normas laborais, ambientais, fitossanitárias, etc.) onde não há representantes eleitos, nem está assegurada a participação de representantes da sociedade civil – tudo trancadinho e irreversivelmente entregue!

A UE está a aproveitar descaradamente estes últimos meses antes das eleições europeias para rapinar mais e mais as soberanias nacionais, em nome de um “comércio livre” anti-social, anti-ambiental e anti-democrático.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Provando mais uma vez que só pode ficar muito pior antes de ficar melhor.

  2. Ana Moreno says:


    • …..só que com musiquinha e abraços solidários não vamos lá, Ana, apesar da vã alegria de juntos teimarmos vencê-los !

      Desculpe o tom negativo, mas a acontecer tanta injustiça e maldade humanas :
      «A existência de campos de detenção junto à fronteira entre os Estados Unidos e o México, onde pelo menos duas mil crianças imigrantes estariam encarceradas sem contacto com os seus pais e famílias, desde maio deste ano, ofende os mais elementares princípios de humanidade….”

      em que estas forças brutas que nos destroem os valores a paz e a nossa casa comum nos sufocam….dá ganas é de muita raiva quase violenta e provocadora .

      Ou como escreveu M.S.Tavares :

      …” Talvez no fim reste apenas a música e a música será aquilo que nos permitirá não endoidecer, à medida que vemos tudo o resto perder o sentido.
      E esperaremos, quietos, indefesos, impotentes. Assistiremos ao triunfo dos porcos, à morte acelerada da natureza — até à morte da natureza humana. Talvez tenha sido disto que Anthony Bourdain quis fugir. Ou talvez já não haja fuga, apenas espera. Talvez, como escreveu Cesare Pavese, já estejamos mortos, mas não sabemos.»

      • Ana Moreno says:

        Bem a entendo Isabela…
        Mas esperando “quietos, indefesos, impotentes” também não vamos a lado nenhum, então prefiro os abraços e a musiquinha. Aliás “Talvez no fim reste apenas a música e a música será aquilo que nos permitirá não endoidecer”. Há mais algumas coisas e uma delas é esbracejar. Por mim, esbracejo. Sempre me faz sentir melhor do que ficar quieta; indefesa e impontente estarei, mas não quieta. Se houvesse menos quietos, um pouco mais seria possível. É a quietude da letargia de tantos que mais endoidece.
        Aqui vai um abraço forte!


        • ….claro que estou consigo a esbracejar e a cantar e a sonhar e a voar, Ana, mas tb me apetece dar pontapés a essa letargia e quietude de tantos mas que tanto vibram com futebol !!

  3. Antonio Medeiros says:

    Grande Ana!


  4. apenas mostrando respeitinho por quem manda, afinal passa-se o mesmo em Portugal e ninguém se chateira muito, deve ser cultural


  5. Está a ver, Ana, como tem razão quando escreve alto e bom som que
    ” É a quietude da letargia de tantos é que mais endoidece ” ?

    Olhe só a pouca atenção ou desinteresse e distração que por ex. os aventadores concederam a esta sua postagem de assunto tão sério e abrangente, quando seria desejável sermos muitos a trocarmos cromos da nossa caderneta da indignação dos que nos afligimos com
    …” a rapina mais e mais das soberanias nacionais, em nome de um “comércio livre” anti-social, anti-ambiental e antidemocrático. ”
    como afirma .

    Fosse o caso dos professores ou faits divers politiqueiros ou futebol e ….dá para comparar e avaliar : (

    • Ana Moreno says:

      “(…) sermos muitos a trocarmos cromos da nossa caderneta da indignação dos que nos afligimos (…)”… boa imagem Isabela 🙂

      Ainda hoje estava a pensar nisso: como por cima das nossas cabeças se estão a passar coisas tão maiores – como a BlackRock ou a fusão da monsanto e da bayer – coisas que dominam o mundo, e que quase não se lhes dá atenção. É tão aberrante e, como a Isabel diz, indignante, desesperante.
      E uma pessoa não sabe onde fazer desaguar toda essa energia negativa, dirigida a esses polvos poderosos, aos seus lacaios políticos e a quem, à nossa volta, não está para se chatear.
      É preciso fazer uma cura de vez em quando, tipo grandes caminhadas, andar, andar, andar até não pensar. Vale-nos quem nos entende e o que de belo há.
      Não se chega a lado nenhum, mas purifica. Um forte abraço!


  6. Ana, vá lendo nas pausas verdes dessa caminhadas este interessante livro que nos faz pensar no nosso estar aqui com perspetivas mais amplas que nos ajudam a relativizar esta nossa sensação de impotência de tão poucos querermos ter muita força para mudar este mundão de sapiens ainda tão neandertais !

    Com aquelabraço solidário chi-coração /

    https://www.wook.pt/livro/sapiens-historia-breve-da-humanidade-yuval-noah-harari/19278255

    Recorrendo a ideias da paleontologia, antropologia e sociologia, Yuval Noah Harari analisa os principais saltos evolutivos da humanidade, desde as espécies humanas que coexistiam na Idade da Pedra até às revoluções tecnológicas e políticas do século XXI — que nos transformaram em deuses, capazes de criar e de destruir. Esta é uma obra desafiadora, desconcertante e inteligente, uma perspetiva única e original sobre a nossa História e o impacto do ser humano no planeta.

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