O combate ao crime não é (nem pode ser) um reality show

Não quero viver num país onde um polícia fotografa criminosos capturados para alimentar radicalismos justiceiros nas redes sociais. Aliás, quero inclusive viver num país que pune exemplarmente um polícia que não sabe o seu lugar nem honra a enorme importância e responsabilidade da sua função. Para descredibilizar o país já nos chega (e sobra) a classe política que temos.

Vem isto a propósito da divulgação das imagens da captura dos três criminosos que na Sexta-feira fugiram do Tribunal de Instrução Criminal do Porto. Não sei se terá sido um polícia, se terá sido um popular que furou o (inexistente?) perímetro de segurança, mas sei que, poucos minutos depois, a fotografia estava na página de Facebook do Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública. De uma forma, ou de outra, estamos perante uma situação de enorme gravidade, com contou com a colaboração de elementos das forças de segurança portuguesas.

A polícia portuguesa não é a CMTV nem um programa de comentários sobre a Casa dos Segredos. O trabalho da polícia, entre outras coisas, é capturar criminosos e entregá-los à justiça. Se a justiça os vai punir ou não – claro que vai, não são políticos nem banqueiros corruptos – são outros 500. Arrastar o nome das forças de segurança para a lama, para alimentar populismos fáceis, é que não.

Sou favorável ao reforço do papel e dos poderes das forças policiais, estou farto de ver agentes serem destratados na rua e nos tribunais e também quero que os três criminosos que agrediram idosos e que fugiram do tribunal sejam exemplarmente punidos e presos durante muitos anos. Mas isso não invalida que este circo ridículo que se montou, com o inestimável contributo do esgoto noticioso, seja uma vergonha e um enorme embaraço para qualquer democracia que se preze. Sinto-me verdadeiramente envergonhado, enquanto português, a assistir a este reality show idiota. Por momentos, achei que estava no Brasil ou nos EUA, a assistir a um deprimente episódio de Cops. E o trabalho da polícia é importante demais para ser transformado num produto de entretenimento barato.

Comments

  1. JgMenos says:

    Deus me livre e guarde de radicalismos justiceiros dirigidos a assaltantes de velhinhos!

    • ZE LOPES says:

      Esteja descansado! Quando é que foi o assalto? Deve ter sido num momento de fraqueza da parte de V. Exa! Todos irão, certamente, compreender! Eram velhinhos, mas possidónios ricalhaços!

  2. doorstep says:

    João Mendes!!! Trata-se de um fait-divers, que efectivamente é grave, mas que não passa de garotice manhosa “internética”, quando comparado com inúmeros outros comportamentos e – sobretudo! – actividades dos funcionários das polícias e militares da gnr.

    Portugal tem um número despropositado de agentes policiais – em 2012 eram 445 por 100 mil habitantes, enquanto o Brasil tinha tão só 211, o México 366, os gringos 284, e o Irão… 75!

    A desproporção exprime-se em n’umeros, mas deve ser aferida em relação aos indices de criminalidade: a generalidade dos nossos “criminosos” classifica-se no capítulo “pilha-galinhas”, e não me venham com histórias de “colarinhos brancos”, pois desses trata a PJ (quando o DIAP permite), e são pouco mais que meia-dúzia.

    Sugiro-lhe que fale com alguém que conheça que tenha que lidar no dia a dia com assuntos envolvendo a psp e a gnr, garanto-lhe que ficará abismado!

  3. Nina Santos says:

    “Mas isso não invalida que este circo ridículo que se montou, com o inestimável contributo do esgoto noticioso, seja uma vergonha e um enorme embaraço para qualquer democracia que se preze. Sinto-me verdadeiramente envergonhado, enquanto português, a assistir a este reality show idiota. ”

    E sentiu o mesmo com o raid justiceiro que invadiu a Assembleia da República para prender o Paulo Pedroso e ainda a prisão de Sócrates à saída de um avião, tudo isto muito hollywoodesco?

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