Somos o que não esquecemos

Palácio de Cristal – Espólio de Domingos Alvão (Casa Alvão)

 

Um muito respeitável ancião ensinou-me, há anos, que as cidades centenárias resistem a bastante mais ataques e ofensas do que o nosso arrebatado amor juvenil crê possível. Fiz-lhe caso, então, mas sem abrir mão de algum cepticismo. É nessa advertência que penso, agora que acabo de ler que foi aprovada ontem, na reunião do executivo da Câmara Municipal do Porto (CMP), a alteração do nome do Pavilhão Rosa Mota. Com os votos da maioria liderada por Rui Moreira, e os votos contra do PS, PSD e CDU, foi decidido que, ao nome que homenageia a grande maratonista, se juntará a publicidade a uma cerveja, passando assim o Pavilhão a chamar-se «Rosa Mota – Super Bock Arena», pelo menos durante os próximos 20 anos.

Sem poder escamotear a contradição evidente que resulta de associar um equipamento desportivo a uma bebida alcoólica, o presidente Rui Moreira garantiu que a questão foi “debatida com Rosa Mota variadíssimas vezes, até se chegar a uma situação confortável”.

Poder-se-ia dizer que este Pavilhão é uma estrutura de contornos difusos – apesar do seu muito tangível corpo de betão armado – porque, apesar de existir desde a década de 1950, continua a ser conhecido pelo nome de um fantasma que já poucos portuenses vivos conheceram: o Palácio de Cristal, um edifício de granito, ferro e vidro, construído para acolher a Exposição Internacional do Porto, em 1865. Nos 86 anos em que esteve de pé, acolheu muitas outras exposições e foi um espaço de cultura, onde era possível escutar um dos maiores órgãos de tubos da Europa. No Palácio de Cristal actuaram, por exemplo, a violoncelista Guilhermina Suggia e o compositor e maestro Viana da Mota.

Exposição de floricultura no Palácio de Cristal, em 1908 – Aurélio da Paz dos Reis

 

Em 1951, a pretexto do Campeonato Mundial de Hóquei em Patins que se realizaria no Porto, o Palácio foi destruído para dar lugar ao actual pavilhão. O órgão de tubos, jóia da cidade, foi destruído à martelada. A barbárie ultrajou muitos portuenses e terá sido essa indignação que permitiu que a memória do que já não existia perdurasse pelas gerações seguintes, continuando ainda hoje a gerar equívocos entre os turistas (“Onde está o palácio”?!). Todos continuamos a “ir ao Palácio”, ainda que nunca o tenhamos visto, e a jamais pôr em causa o uso de tal nome porque é um desses tributos que os vivos prestam aos conterrâneos que os antecederam e à cidade que deles herdaram.

Por isso, sorrio com tristeza à notícia de que a CMP vendeu o nome do Pavilhão Rosa Mota. Com tristeza porque entendo que Rosa Mota não o merecia e porque não reconheço à autarquia o direito de vendê-lo. Mas com um sorriso porque sei que nenhum portuense usará o nome que o patrocinador quer impor.

Comments

  1. Daniel says:

    Completamente de acordo.
    Se eu já criticava a mudança do nome do Pavilhão Atlântico (como lhe continuo a chamar!), neste caso a situação ainda é mais grave!
    Felizmente tenho a certeza que quase ninguém vai usar este nome misturado com patrocínio!

  2. Luís Lavoura says:

    Obrigado à Carla por ter explicado o que significa esse nome “Palácio de Cristal”. Sou um dos muitos que sempre ficou perplexo por não encontrar nesse jardim nenhum palácio…

  3. Ana A. says:

    “Rosa Mota – Super Bock Arena”

    Se o Luis Lavoura ficava perplexo com o “Palácio de Cristal” , imaginem os nossos vindouros a tentarem assimilar:
    (uma desportista + cerveja + arena).

    Arena esta, onde se degladiam os interesses do senhor presidente + os economico-financeiros vs as memórias e a história das populações!

  4. amiguel says:

    Então, o nosso grande problema é ter políticos que não têm a mínima sensibilidade ao que é de facto o Desporto.
    Jamais o álcool deveria estar associado à grande desportista Rosa Mota, e/ou ao Desporto.
    Falta de bom-senso a esses políticos que apenas veem dinheiro e nada mais enxergam.
    Pensam (será que pensam alguma coisa para o bem público?) que o futebol profissional de competição é desporto tal como o conhecemos.
    Muitos dos políticos que temos são presa fácil do capitalismo selvagem e dos oportunistas que por aí pululam, escancarrando-lhes as portas !
    E porquê?
    Por esses políticos não têm ética, não têm projecto a favor dos cidadãos, só têm a sua vaidade, o seu oportunismo , a sua fraqueza, a incompetência, a sua insensibilidade aos grandes problemas estruturantes da Sociedade portuguesa, falta-lhes projecto, falta-lhes a estratégia de um plano sério ao bem-comum.

  5. Luís Lavoura says:

    a contradição evidente que resulta de associar um equipamento desportivo a uma bebida alcoólica

    O grande futebolista Mané Garrincha foi, segundo leio na wikipedia, um grande consumidor de cachaça durante toda a sua vida adulta – incluindo portanto, presumivelmente, durante o tempo em que jogava futebol (e ele jogou até a uns provetos 40 anos de idade).

    Não deve ter sido o único grande desportista que consumia álcool. Tal como outros grandes desportistas consumiram tabaco ou cocaína, por exemplo.

    Hoje em dia, tempos puritanos, esquecemos estas realidades de tempos mais liberais…

  6. Silva Ribeiro says:

    As cervejeiras são patrocinadores de referência da maioria dos clubes de futebol nacionais…
    Sobre o novo nome do ‘Palácio de Cristal’? Acontecerá mais ou menos o que se passa comigo quando vou assistir a concertos no Pavilhão Atlântico! Embirrações de gente Maior!

  7. JgMenos says:

    O que a Rosa Mota tem a ver com esse pavilhão também ainda está por determinar!

  8. Paulo says:

    Plenamente de acordo, só não consigo sorrir no fim. Porque se os portuenses lhe adoptassem o novo nome, isso seria apenas a cereja no topo do bolo da cervejeira. Mas o bolo está lá: Não só no anúncio oficial de qualquer acontecimento e respectiva publicidade levaremos com a loura gasosa, mas também os textos nos OCS vão dar-lhe visibilidade. E é isso que lhes interessa.
    Eu ainda chamo ao aeroporto Pedras Rubras, algum jornal o faz?

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