Coletes Amarelos: “porta-te bem, senão voto nos fascistas”

CAP.jpg

No reino da grande fogueira virtual, uma velha ameaça paira no ar. Fartos de tanta corrupção e compadrio, fartos da impunidade e do descaramento, os zés e as marias entrincheiraram-se nas redes sociais, onde descobriram outros zés e outras marias que partilham a sua indignação. E todos os dias, sem excepção, uma massa indignada de zés e marias cresce, alimentando-se de likes, partilhas e retweets, e torna-se audível demais para ser ignorada, ainda que desorganizada demais para se emancipar do abstracto.

Inevitavelmente, o inorgânico é capturado pela primeira força organizada que consiga infiltrar-se. Fundamentalistas religiosos, extremistas políticos, um maluco qualquer. E pode resultar em encenações primaveris, na eleição de um Bolsonaro ou noutra maluqueira qualquer. O mais comum é dar merda, e na maior parte dos casos dá, mas tal não retira legitimidade às reivindicações que se fazem ouvir.

Em França, os zés e as marias desligaram a internet, vestiram o colete amarelo e foram para a rua exigir justiça social. No primeiro protesto, terão saído à rua 300 mil. Desde então, o número de manifestantes foi diminuindo, mas isso não impediu que Macron recuasse, de forma desastrada, após o quarto protesto, numa tentativa desesperada de recuperar popularidade junto do eleitorado francês. De pouco lhe valeu.

Ainda assim, o recuo do presidente foi uma clara vitória dos manifestantes, extremistas ou não. Quatro protestos depois, Macron falou ao país para rasgar o aumento do preço dos combustíveis e anunciar um aumento de 100€ no salário mínimo, entre outras medidas que integravam o rol de exigências dos coletes amarelos.

Mais do que todas as conquistas resultantes do protesto, a solução encontrada por Emmanuel Macron mostrou ao mundo, e aos europeus em particular, que pequenas mudanças, tão importantes para quem vive a contar trocos, são possíveis num abrir e fechar de olhos. Até porque o presidente francês sabe que tem Marine Le Pen à perna. Ou, como Ricardo Araújo Pereira o colocou no Governo Sombra da passada semana, “porta-te bem, senão voto dos fascistas”.

Por cá também tivemos uma manifestação de coletes amarelos. Uma manifestação que se quis ordeira, sem violência ou outros incidentes, o que é bom. Uma manifestação que se dizia apartidária, apesar de ter entre os seus organizadores, alguns deles fake, adeptos de Trump, Bolsonaro e Salazar, o que é sempre um péssimo indicador. Uma manifestação que ainda assim colocou o dedo na ferida, erguendo bandeiras com as quais (quase) todos nos identificamos.

Naturalmente, porque se tratava de um movimento extremamente desorganizado e profundamente inorgânico, e porque eventualmente terá achado que a popularidade conquistada nas redes sociais se traduziria nas ruas, a que acresce a escolha ingénua de uma Sexta-feira a três dias do Natal, a infiltração da extrema-direita e uma série de reivindicações irrealistas ou incompatíveis, o protesto dos coletes amarelos portugueses fracassou.

O fracasso da iniciativa, contudo, não significa necessariamente o seu fim. Significa que os seus mentores e apoiantes têm pela frente uma série de decisões, entre elas a de se organizarem, de estruturarem o seu discurso e as suas propostas, de se demarcarem de forma clara de movimentos políticos extremistas e tendencialmente violentos e de procurar chegar aos seus pares no sentido de esclarecer as suas motivações e os seus objectivos.

É que, apesar dos fanáticos políticos, que procuraram usar este movimento para difundir agendas fascistas anti-emigração, anti-LGBT ou anti-democracia, continuo convencido que a maioria daqueles que se manifestaram, nas redes e nas ruas, não o fizeram em nome de extremismos de direita ou esquerda.

São, na sua maioria, pessoas que estão fartas de viver com a corda no pescoço, sufocadas por uma fiscalidade insustentável, sem perspectivas de futuro com a próxima crise no horizonte.

Pessoas cansadas de resgatar bancos, de sustentar caciquismos e de financiar regabofes público-privados, onde o risco fica a seu cargo e o lucro é enviado para um paraíso fiscal.

Pessoas saturadas de uma justiça que não tem mão nos poderosos, de serviços públicos insolventes e de um sistema que não promove o mérito ou a igualdade de oportunidades.

Infiltrados extremistas à parte, tenho a sensação de que a esmagadora maioria da população portuguesa partilha deste sentimento. E que ignorar este sentimento, à semelhança daquilo que aconteceu no Brasil, poderá causar danos irreversíveis. E transformar os fanáticos em vítimas. Ou heróis.

É que – e aqui estou absolutamente convicto – a manter-se o estado a que isto chegou, corremos sérios riscos de perder milhares de democratas para as garras do autoritarismo, que hoje veste colete amarelo, mas que, chegando ao poder, os proibirá imediatamente. E daí até termos uma ministra que viu Jesus num pé de goiaba, poderá ser uma questão de semanas.

PNR.jpg

Fotografia: Vitor Mota@Record

Comments

  1. Paulo Marques says:

    O Morcon tem uma coisa que pouca gente tem na Eurolândia, a possibilidade de ignorar as regras enquanto continua a espalhar eurofilia. O resto não tem essa sorte e muitos vão ter que escolher: ou deixam isso para trás ou dão o lugar a quem o faça, seja lá com que motivos, ideologia e apoios. Renzi que o diga.

  2. Jorge Evaristo says:

    Para que as cabeças de vento leiam,
    “É voz corrente que o protesto do coletes amarelos foi um fracasso.
    Eu digo que foi um grande sucesso.
    Puseram-se os merdia a replicar as reivindicações dos patriotas portugueses.
    O Costa e Cia, partidos do Sistema e comunistas em geral foram obrigados a pronunciar-se e a defender a podridão a que chegámos.
    O Governo Costa demonstrou medo ao mandar toda a polícia para a rua. Ficou acagaçado.
    Os intrujões da CGTP e da UGT vieram a público defender a pobreza do povo e a corrupção contra os manifestantes que pediram um salário mínimo de 700 euros e o combate à corrupção.
    Muita gente ficou a saber que há propostas para além do que só se ouve na comunicação social. E que aquilo a que os políticos da mama chamam de Extrema-Direita afinal é a favor dos trabalhadores.
    O nº de manifestantes foi pequeno, mas a mensagem passou.
    Viva Portugal! A luta continua!”

    • Rui Naldinho says:

      Com essa azia toda, só mesmo com uma cirurgia. Já nem a Alka Seltzer o safa!

    • Paulo Marques says:

      Tinham uma mensagem? Ninguém reparou.

      • ZE LOPES says:

        Tinham mensagem, tinham! E, como disse o Evaristo, a mensagem passou. Passou na bisga por cima da Ponte, a caminho do Algarve, antes que uns parvos de colete a bloqueassem.

        Tão na bisga que ninguém conseguiu saber o que era!

  3. Lina Arnold says:

    ah ha
    Muito bom o titulo
    Em Portugal a historia foi outra
    O Pinto Balsemão de 1982 e do Impresa combinou tudo a dar umas tacadas .
    Ainda não entendi porque o fez mas enfim !!!
    Os Giles Jaunes ainda não apareceram mas andam por aqui
    Adeus e Bom Fim de semana

  4. Fernando Antunes says:

    O motivo porque o movimento é inorgânico é porque não está politizado, i.e., não tem consciência de si politicamente. É apenas um protesto contra a classe política em geral, o que cai como mel nos objectivos dos fascistas. A ascensão do fascismo começa sempre com uma reacção visceral de rejeição da corrupção das elites políticas. A cor amarela faz-me até lembrar as massivas manifestações em Rio e São Paulo, a partir de 2014, contra a corrupção da classe política e que levaram à célebre mascarada do impeachment — com os resultados que se sabe. Mas o que claramente não há neste movimento actual é a crítica do sistema capitalista como um todo (lembro que tudo começou com o aumento dos combustíveis em França). Não existe uma liderança baseada numa ideia alternativa de sociedade, é mais um ajuste de contas com o poder político, mais ou menos caótico — portanto condenado a perder gás (na melhor das hipóteses, e é o que está a acontecer) ou a aproximar mais Marine Le Pen da Presidência (na pior das hipóteses, mas que não deixa de ser um cenário provável).

    É um protesto contra os ‘corruptos’, que rapidamente se extende ao discurso anti-imigração, ou seja tudo aquilo que parece perturbar a classe média (e daí a chegarmos ao Make America Great Again, em versão PNR — Fazer Portugal Grande Outra Vez — é um pequeno passo para o Homem).

    Nota: em Faro, vi um directo em que estavam tantos jornalistas como manifestantes, que mesmo assim tiveram direito a serem entrevistados e a terem os seus 15 minutos de fama. O empolamento patético desta manifestação “organizada nas redes sociais” (redes sociais uma ova, que a propaganda é toda feita pelos media mainstream, horas a fio, anunciando as horas e os pontos de encontro), por contraste com o silêncio que manifestações de dezenas de milhares de pessoas, realmente organizadas e com objectivos claros, por parte dos sindicatos — faz também parte da forte agenda política de grandes grupos da comunicação social. Se te vestires de amarelo, como nas manifs pelos colégios particulares, meia dúzia de gatos pingados terão toda a atenção e histeria dos media. Se te vestires de vermelho, só se fores do Benfica…


    • !! e este seu final está soberbo, Fernando Antunes :

      ” … Se te vestires de amarelo, como nas manifs pelos colégios particulares, meia dúzia de gatos pingados terão toda a atenção e histeria dos media.
      Se te vestires de vermelho, só se fores do Benfica…”

      , o que resume em tom de sarcasmo inteligente na perfeição o clima politico / social tuga destes dias sombrios !


  5. Enquanto se permitir que qualquer idiota diga tudo o que lhe vier à cabeça sem consequências, isto tende a piorarar.
    Veja-se aquela treslocada a que a SIC (News) deu voz, repetidamente, de que a mãe de José Sócrates recebia uma reforma de 3 mil e tal euros por mês.
    Foi 1ª página do Correio da Manhã há alguns anos (publicado o desmentido do seu advogado meses depois num quadradinho na penúltima página de que afinal os 3 mil e tal euros era o valor anual).
    Esta gente (e as Sic´s) não tinha que ser processada e sofrer as consequências da propalação de falsidades?

    • Paulo Marques says:

      Não estrague a narrativa: a culpa são as redes sociais que estragam o paraíso.

  6. Ana A. says:

    O que se ouviu na rua, não foi nada de novo, que já não tenha sido reivindicado e debatido no parlamento. E quê?!

    A mensagem que o Poder nos está a passar é que tem que haver violência para sermos ouvidos?!

  7. Mr José Oliveira Oliveira says:

    Macron, o menino bonito dos bancos, já percebeu que tem de se mexer. Por cá está tudo na mesma como a lesma. Brandos costumes típicos do rectângulo.

  8. JgMenos says:

    Uma coisa é clara, a treta esquerdalha não tem a estrada livre.
    Se vai reflectir ou não esse facto vai decidir o futuro.

    Tudo a todos e impostos quanto o necessário vai ser refreado dum ou doutro modo.

    • Paulo Marques says:

      Vai? Como? O Deutsche vai deixar de querer a sua libra de carne anual?

    • ZE LOPES says:

      “Tudo a todos e impostos quanto o necessário vai ser refreado dum ou doutro modo”.

      Ou seja, os mamões são amigos da direitrolha! A Coelha seja louvada!

      • ZE LOPES says:

        Sim, porque há dias Menos dixit:

        “Treteiros com uma única via de satisfação: tirar a quem tem para acrescentar aos coitadinhos, em que naturalmente sempre se vêm incluídos!

        Alguém identifica uma lei que não vise acrescer ao saque?
        Alguém propõe um plano que altere outro dado fundamental que não seja garantir o saque?”

        Sim, mas isso foi na prédica dominical lá na Igreja Universal do Reino da Coelha. Refastelado quefiocu com o dízimo produzido, resta-lhe que os esquerdalhos lhe não o levem em impostos…pedidos pelos “Maillons Amaréles”…

        Como diria o “penseur politique salazaresque français” JgMoins “la revolution jaune est belle, les mecs avec des gillets est que donne cap d’elle”.