Falência, mas de quê?

Acho delicioso ouvir da parte daqueles que, ano após ano, pedem menos Estado, às vezes complementado com melhor Estado, se lamentarem sobre uma suposta falência do Estado. Escutando-os, poderíamos pensar que, realmente, reclamariam pelo reforço desse Estado, agora enfraquecido, mas a memória é tramada e recorda-nos o que fizeram quando tiveram o poder à sua disposição. E isso é revelador. Substantivamente, retiram capacidade ao Estado quando cortam as verbas necessárias ao seu funcionamento, quando canalizam dinheiros públicos para actividades privadas paralelas àquelas já suportadas pelo Estado e quando enxameiam os quadros da função pública com incompetentes vindos dos seus partidos.

Bramar que o Estado falhou, neste sentido, não passa de mais uma facada pela mão que se faz amiga.

Dá-se o caso de, nesta legislatura, estas vozes virem do PSD e do CDS, que são oposição ao governo socialista. Mas os papéis trocam-se quando estes chegam ao governo, cabendo então ao PS o papel de Brutus no Senado da Roma antiga.

Há falências, sim, mas das pessoas que controlam o Estado. Quando vários deputados são apanhados em fraudes diversas e não se demitem nem são demitidos, há uma falha na Assembleia da República. Quando o presidente de Câmara de Borba soube do perigo que era manter aberta a estrada que ruiu na pedreira, tendo decidido nada fazer, há falência, sim, mas focada nesta pessoa concreta, bem como na Procuradora Geral da República, que tarda em nele fazer cair a mão da lei. Quando milhares de hectares ardem, ceifando florestas e vidas, há várias falências que se podem apontar, mas todas, até as que começam nos incendiários, têm um rosto.

Dizer que o Estado está a falhar consiste num acto em dois números. Por um lado, a culpa deixa de se focar em pessoas concretas, passando para o abstracto Estado, que tem costas largas e não vai preso. E, não menos importante, contribui para a ideia de ser necessário diminuir o peso do Estado, com a grande vantagem de, consequentemente, transferir essas funções para o sector privado. Que, por acaso, acabará por empregar alguns destes peões.

Há uma falência de várias pessoas pertencentes às elites do Estado, sem escrúpulos nem vergonha, mesmo quando apanhadas em delito. Pretender que isso equivale à falência do Estado é redutor e perigoso.

[Cartoon: Gary Larson, The Far Side]

Comments

  1. Fernando says:

    “Menos Estado!”;
    “Estado fora da minha vida!”;
    “Estado é sempre incompetente!”;
    “Menos investimento do Estado, mais investimento privado!”

    Gritam os fundamentalistas do mercado e defensores da austeridade!

    Entretanto, fogos colossais acontecem, e centenas morrem queimados.

    “Onde estava o Estado?”;
    “O Estado é responsável!”
    “Era competência do Estado!”

    Gritam os fundamentalistas do mercado e defensores da austeridade… Enfim…

    • JgMenos says:

      Mais um tótó que sempre parte do princípio que o Estado só não faz o que deve por falta de dinheiro.

      E que tal um Estado que não faz o que não deve e faz bem o que deve por menos dinheiro?

  2. Rui Naldinho says:
  3. Paulo Marques says:

    Menos estado? Ok, então deixamos de pagar viagens a políticos para vender as bugigangas lá fora, abandonamos a EUCD e o artigo 13, cancelamos o PEC e o TISA, rescindimos as PPP e os contractos de associação… Ai o estado que garante rentismo já é bom? Conveniente.

  4. Julio Rolo Santos says:

    Esta corja de vilões que atua em nome do Estado, sendo principescamente remunerado por isso, tem tendência para fugir às suas responsabilidades quando o azar lhes bate á porta, fruto da sua irresponsabilidade nas decisões que toma ou deixa de tomar no momento oportuno. São políticos de qualidade duvidosa mas que insistem em se manterem nos cargos.

  5. JgMenos says:

    Quanto é que a cretinagem julga que que o Estado deveria para além dos 250.000.000.000 de euros actuais, sem PPPs e contratos de associação? E quais os juros que pagaria?

    E como não obteria tais créditos, o que pensa a cretinagem que estaria por fazer?

    Treteiros impenitentes só reclamam dos custos depois da obra feita; até lá é sempre mais e mais Estado.

    • JgMenos says:

      …e naturalmente reclamam o saque (dos outros, naturalmente) como remédio geral.

      • ZE LOPES says:

        É verdade! Atéjá há quem advogue uma parceria entre o Robin dos Bosques e o Zé do Telhado para aumentar a eficiência. E talvez seja viável já que o Robin anda descontente com o “Brexit” e pode vir estabelecer-se aqui. Falta o Alibabá que, como é sobejamente conhecido agora até está cotado na bolsa de Xangai. Saque legal, portanto.

    • ZE LOPES says:

      99% das PPP não são parcerias. São mama rentista. Não sei porquê mas essa mama V. Exa. não deteta. Será porque estão embrulhadas em lingerie de alta qualidade tecida pelos nossos melhores gabinetes de alfaiates?

    • ZE LOPES says:

      Ah! Já me esquecia!Deve ser o habitual excerto da prédica do Apóstolo Menos na celebração dominical da Igreja Universal do Reino da Coelha. A seguir procedeu-se ao habitual milagre liberal e á coleta do dízimo.

    • Paulo Marques says:

      Quanto é que o Japão paga e quando é que vai à falência? Já sei, isso é culpa dos capitalistas japoneses que não querem lucro, porque sim. Então pronto, deixa de se emitir dívida e financia-se directamente, lá se vão os mendigos da dívida.
      Mas olhe, tirando esses 250 MM em gastos das contas dos consumidores nacionais e deixando estes de ter bens e comida, quanto é que os seus clientes continuavam a meter no Panamá?

      • JgMenos says:

        O Estado japonês deve dinheiro aos japoneses, não anda de chapéu na mão a pedir dinheiro pelos mercados internacionais para sustentar treteiros que tenha em casa.

        Por cá só um cretino é que financia um Estado esquerdalho e abrilesco. Fosse a dívida a nacionais e já íamos na enésima reestruturação!

        • ZE LOPES says:

          Aos japoneses…salvo seja: 885.360 milhões de euros a investidores internacionais. Que não creio que venham a aceitar como pagamento ienes fabricados no banco central que lá, curiosamente, está na dependência do governo.

          Mas não deve haver problema. O Mundo está cheio de investidores cretinos que, por generosidade estúpida, financiam estados esquerdalhos, abrilescos, direitalhos, terrorescos, comunescos, sauditescos, emiratescos, angolescos, sul-africanescos, chinescos, japonescos, etc. etc.

        • Paulo Marques says:

          Nem com a teoria mirabolante que os capitalistas japoneses são responsáveis e honrados se safa; é que só implica que os restantes não sejam.
          Mas sabe bem que não é assim, compram dívida nipónica porque querem, nada os obriga a preferi-la, nem o monetarismo mais rocambolesco – embora ficava na mesma a dúvida de porque é que o caso não era reprodutível. E nada os impede de se juntarem aos restantes capitalistas para mais um ataque falhado ao câmbio.
          Mas que não seja por isso, pode ficar-se por explicar onde está a inflação do QE europeu, ou da dívida americana que continua a sua corrida para o infinito desde o presidente Reagan – a outra face da mesma teoria económica para um universo paralelo.

          • JgMenos says:

            O mundo anseia por escudos, ‘para quando teremos escudos para aforrar?’ grita-se nos mercados internacionais!

          • Paulo Marques says:

            Se os seus clientes não produzem nada que os estrangeiros comprem seja lá qual for a moeda, não falta quem o faça.

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