Por trás das palavras – Huawei, Cisco, 5G, NSA e os EUA (3)

No post anterior falou-se, sobretudo, sobre o que traz de novo a tecnologia 5G às redes redes móveis e como a Cisco, líder do mercado dos equipamentos de rede, pode perder a posição de liderança a favor da Huawei.

Não há mistério algum neste ficar para trás das empresas americanas fornecedoras de equipamentos para a infraestrutura de rede. O mercado norte-americano de telecomunicações móveis é controlado por 2 grandes operadores, Verizon (153.9 milhões de assinantes) e AT&T (153.0 milhões de assinantes), seguidos de longe pela T-Mobile (79.7 milhões de assinantes) e pela Sprint (53.5 milhões de assinantes). Estes operadores actuam de forma concertada e monopolista, tendo inclusivamente cobertura da entidade reguladora, que as protege em vez de zelar pelo interesse dos consumidores (ver post anterior).

Neste cenário de baixa competição, os operadores de telecomunicações têm interesse reduzido em novas tecnologias, preferindo rentabilizar os investimentos feitos. O que é um problema para os fornecedores de equipamentos de rede, que não têm mercado para inovação.

Na Europa, a situação é diferente desde sempre no que toca as comunicações móveis. O mercado é competitivo e sempre esteve um passo à frente dos EUA. A introdução do 5G levará a uma grande actualização dos equipamentos da infra-estrutura de rede e a Huawei está muito bem posicionada, tanto quanto a preço, quanto a tecnologia. Quem fornecer a infra-estrutura agora passará a dominar o mercado, o que significará a consolidação dos chineses no mercado, com grandes perdas potenciais para as empresas americanas.

É neste cenário de proteccionismo às empresas por parte do governo norte-americano, aliado a um atraso tecnológico relativamente a outros mercados, que se deve analisar um conjunto acções e declarações por parte da administração Trump.

Para contexto, recorde-se que a administração Trump baniu do mercado norte-americano a empresa chinesa ZTE, com o argumento que esta apresentava um risco de segurança e que tinha violado o embargo comercial dos EUA ao Irão e à Coreia do Norte (sim, essa mesma que Trump passou a definir como tendo um líder maravilhoso – assim se pode avaliar a veracidade da argumentação). Mais tarde, voltou a trás na decisão e re-admitiu a ZTE no mercado dos EUA. Mas antes disso, aproveitando a onda, ou melhor dizendo, surfando a onda gerada para conduzir ao alvo principal, o governo norte-americano começou por proibir o uso de telemóveis Huawei na administração pública, tendo depois decretado que o Estado norte-americano não podia, também, negociar com empresas que usassem serviços ou produtos da Huawei. Em termos práticos, esta restrição significou que a Huawei não poderia ser seleccionada pelos operadores de telecomunicações.

Que razão se apresentou para a exclusão da Huawei? Foi uma continuação das justificações usadas contra a ZTE. É uma empresa chinesa, a qual, pela lei chinesa, tem que colaborar com o Estado caso lhes seja pedido. Que, por acaso, é o que têm que fazer as empresas americanas quando abordadas pela NSA. Mas isso é um problema para os países que usem tecnologia americana e não, necessariamente, para os EUA.

Voltando à questão, é a motivação dos EUA quanto ao bloqueio da Huawei apenas uma questão comercial ou também de segurança para eles? Este será o tema do próximo post desta série.

Referências complementares:

Nota: a título de eventual curiosidade, informo que não trabalho para a Huawei, nem tenho qualquer relação com a marca.

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  1. […] post anterior analisou-se o contexto das telecomunicações móveis nos EUA e como este está a colocar em risco […]


  2. […] autorizada de novo a operar nos EUA, mas o bloqueio à Huawei avançou para outros moldes. Ver o terceiro post desta série para mais […]

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