Efeitos malignos da gigantomania e da globalização

Com as agulhas da globalização afiadas nos acordos de comércio e investimento, andam os dirigentes políticos – nomeadamente a UE, a todo o vapor- a tricotar incansavelmente a rede em que o peixe miúdo, nós, ficamos sem escolha, sujeitos às regras dos tubarões.

Um artigo do The Guardian mostra como os brutais gigantes do agronegócio dos Estados Unidos deglutinaram as unidades agrícolas familiares, destruindo as comunidades rurais. E alerta: as grandes corporações que estão por trás dessa depredação estão agora de olho no mercado pós-Brexit do Reino Unido.

Consequência: “Se os agricultores do Reino Unido quiserem competir com as importações americanas, terão de baixar os seus padrões ou abandonar a actividade”.

“Nas unidades de produção industrial, porcos, vacas e galinhas são enfileirados aos milhares nos celeiros. Muitas unidades são semi-automatizadas, com alimentação controlada por computador e os animais assistidos por vídeo, com visitas periódicas de trabalhadores que dirigem várias operações.”

“No início da década de 70, o secretário de agricultura dos EUA, Earl Butz, impulsionou a ideia da agricultura em larga escala com o mantra “tornar-se grande ou sair”. [Read more…]

Caso Neto de Moura: podia ser um sketch de humor. Pena não ser

Começo a achar que o juiz Neto de Moura (assim como parte significativa dos seus pares) pretende transformar-se na personagem mais odiada deste país, mais até que os banqueiros mafiosos ou os políticos mais corruptos. Na entrevista que deu na passada semana ao Expresso, cuja leitura se recomenda, o magistrado faz afirmações como “Os casos que julguei não são particularmente graves” ou “Tenho um sentido de justiça, ponderação e equilíbrio para ser um bom juiz”.

Este indivíduo, que é juiz desembargador, julgou casos como o da mulher agredida por dois homens com um pau com pregos, o da jovem inconsciente violada por dois homens num bar em Gaia e ainda o de uma mulher cujo marido lhe rebentou um tímpano ao soco. E não acha nada disto particularmente grave. E, imagino, considerará justo e ponderado ilibar alguns destes monstros violentos.

Grave, no entender do senhor juiz, é ser alvo do humor do RAP e do Bruno Nogueira/João Quadros. Se, ao invés disso, estes humoristas lhe rebentassem um tímpano com um pau com pregos, e de seguida abusassem sexualmente do senhor, talvez o juiz Neto de Moura não agisse criminalmente contra eles, uma vez que parece não considerar tais actos particularmente graves. Agora escárnio e sarcasmo? Isso sim, é inaceitável.

Se a violência doméstica e o abuso sexual não fossem o flagelo que são, não tivessem a gravidade que têm e não transformassem a vida de tantas mulheres num verdadeiro inferno, isto até que podia dar uma sitcom engraçada. Porque o juiz Neto de Moura, que argumenta e julga da forma bizarra que hoje conhecemos, parece saído de um sketch de Monty Python ou do Herman Enciclopédia. Pena não ser.

10 Anos a Aventar: Tão Longe, Tão Perto

Paulo Guinote

2009 é um ano que me parece tão distante quanto próximo. Era um tempo já não de pioneirismo blogosférico, num espaço comunicacional que ainda não se designava como de “redes sociais”, mas em que os blogues funcionavam como campo de combate político que escapava aos limites da comunicação social tradicional. As “redes sociais” ainda não o eram verdadeiramente: o hi5 já tinha quase desaparecido, substituído pelo ainda graficamente incipiente facebook que então parecia um twitter em nascimento. Sim, já lá tínhamos muitos conta, mas aquilo não era bem um espaço de debate. Existia youtube, mas os youtubers ainda andavam a aprender a ler e a escrever mal, culpa dos professores na altura momentaneamente descongelados de uma (falhada) forma eleitoralista.

Os blogues, sim, estavam talvez no seu período áureo em Portugal, nos anos de chumbo do socratismo, directos antecessores dos anos de aço do costismo da geringonça, por isso 2009 acaba por não parecer assim tão longe.

A blogosfera, que em Portugal teve a paternidade reclamada quase em exclusivo por Pacheco Pereira, já tinha sido dividida na altura entre “boa” blogosfera (o seu Abrupto) e “má” blogosfera (o resto todo, salvo adequadas excepções que não me ocorrem). Na má blogosfera, à qual se atribuíam pecados do pior, avultava no início de 2009 um conjunto de blogues colectivos com posicionamentos políticos razoavelmente claros. Existiam mais, mas a meia dúzia que fazia escola dividia-se pelos “radicais de esquerda” (5dias, Arrastão), os situacionistas do socratismo (Jugular, Câmara Corporativa, uma das incubadoras dos “factos alternativos” entre nós) e os betos de direita (31 da Armada, Insurgente). Quase todos desapareceram, à medida que os seus colaboradores mais destacados arranjaram lugar num gabinete governamental ou foram cooptados pela comunicação social mainstream. [Read more…]