Essa coisa da “honra”…

Poderá ser especificidade conotativa minha, mas ouvir falar em “honra” provoca no meu córtex cerebral a desbobinagem de um filme antigo e mau: vejo homens violentos a matarem ou “castigarem” a mulher, filhas ou irmãs “desonradas” (e/ou eventualmente os supostos rivais) para “lavarem” com sangue a “honra” da família…

Sou tresladada por via de maior incidência para a Índia, Turquia, Bangladesh ou Egipto, assisto mentalmente ao enterro de mulheres vivas ou ao seu apedrejamento pela vergonha que trouxeram à “honra” da família…

Sinto espetar-se-me na nuca a ponta aguçada da dupla moral.

“Honra”, na minha idiossincrasia, está nos antípodas de “dignidade”, que associo aos direitos humanos e ao Artigo 1 das constituições portuguesa e alemã.

Fui verificar; o dicionário diz que o significado é o mesmo; pois será, mas não sinto assim.

Aliás, “honra” também é: Virgindade ou castidade sexual, em geral nas mulheres (ex.: perder a honra)

Vem isto ao caso de um certo juiz ter declarado que vai processar quem o criticou no contexto de decisões em casos de violência doméstica por sentir ofendida a sua “honra pessoal e profissional”. Logo a “honra” sr. Juiz? ??? Isto será puro acaso??? Não estou a reconhecer aí o exacerbado ego machista a abespinhar-se?

Acalme-se, olhe que até Vital Moreira comenta que “não lembrava ao diabo a ideia de o Juiz-Desembargador Neto de Moura de acionar judicialmente, para efeitos de reparação de danos, por alegado atentado à sua honra, todos os que (políticos, comentadores e, mesmo humoristas!) comentaram com maior ou menor severidade, aliás merecida, as suas bizarras conceções acerca das mulheres quando vítimas de violência doméstica”, começa por escrever, considerando que, com esta decisão, o juiz arrisca a “tornar-se no bombo da festa de todos os humoristas deste País”.

Essa coisa da “honra” dá sempre para o torto.

A pressão ortográfica

Breathe the pressure
Come play my game, I’ll test ya.
Prodigy

***

O meu destaque da semana podia ser esta magnífica foto dos heróis do Dragão.

© Global Imagens [https://bit.ly/2TrZPkT]

Todavia, há emergências mais urgentes (a propósito de emergências mais urgentes, durante a semana passada, faleceu José Vieira de Lima, o tradutor que me apresentou o Sam Shepard).

No sítio do costume, continuam a chumbar nos testes ortográficos da norma que eles próprios criaram e impuseram.

Já agora, é engatar e não enganar (efectivamente, é uma discussão interessante).

***

Keith Flint (1969-2019)

Alessandra Strutzel, a merda que resulta do politicamente incorrecto

Merda1

Este monstro cruel e hediondo, que dá pelo nome de Alessandra Strutzel, está longe de ser um caso isolado. A blogger brasileira é até bastante representativa daquilo que é parte muito significativa do eleitorado de Jair Bolsonaro, repleto de defensores da violência indiscriminada, que sonham com o regresso da tortura e com fuzilamentos à moda antiga, que querem ser livres para espancar homossexuais, e quem diz homossexuais diz a própria mulher, ou outra mulher qualquer, e que desejam armas, muitas armas na rua. Gente que celebra o torturador Ustra ou a morte de Marielle Franco. É deste tipo de “gente” que estamos a falar. [Read more…]

“Penso todos os dias nos lesados do BES, e sofro com isso”

RS.jpg

Ricardo Salgado deu uma entrevista à TSF, na qual afirmou, e cito, “Penso todos os dias nos lesados do BES, e sofro com isso”. Imaginei imediatamente Adolf Hitler, a ser entrevistado e a afirmar que também pensava todos os dias nos judeus chacinados nas câmaras de gás, e a revelar o seu sofrimento perante do mal que propositadamente infligiu àquelas pessoas. Vá lá que nem todos os vilões são hipócritas.

A violência do Populismo

Toda a violência é reprovável, sendo que a que é exercida sobre os mais fracos, ou que dela se não podem defender, não apenas é reprovável como é execrável e sobre ela deve o Direito buscar a justa punição. Um ser humano que exerça sobre outros violência física ou psicológica, aproveitando-se para tal de uma posição de força, infligindo sofrimento, por vezes irreparável, às vítimas do seu ódio, é coisa animalesca e não humana, merecendo da sociedade a punição adequada à culpa, punição essa que se quer célere, pedagógica e exemplar.

Posto isto, é desde há meses a fio que o país vem assistindo, aparentemente divertido, à lapidação pública de um Juiz, cujo pecado foi o de ter sido um dos subscritores – repita-se, um dos subscritores – de dois acórdãos sobre crimes de violência doméstica, sendo que pelo menos um desses acórdãos foi igualmente subscrito por uma magistrada.

[Read more…]