A futebolização do País

Pedro Correia

Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto – ou, no caso português, apenas o futebol – potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro – muito diferente e claramente negativo – é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, produz cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma “verdade” sem pelo menos registar a soma das “verdades” em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a “queimar etapas” e a elevar o tom do relato noticioso. Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o “vencedor” proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    o factor de identidade tribal […] é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal

    Discordo totalmente. Lá por o ser humano (supostamente) necessitar, não quer dizer que seja positivo. A identidade tribal é negativa (ou, no mínimo, muito de desconfiar), porque descamba sempre na inimizade em relação às outras tribos.


  2. Não podia ser mais oportuno. Obrigada, Pedro, por ter aceitado o nosso convite.

  3. Daniel says:

    Completamente de acordo.
    O pior é ver o canal de informação da TV publica (RTP3), ao Domingo à noite, não passar nada de informativo e, fazer tal como os outros “concorrentes” (SIC Noticias, TVI24 e CMTV): conversa de tasca supostamente sobre futebol!!
    O jogo de futebol tem a duração de 90 minutos dentro do campo, mas fora, dá para conversas/debates completamente nulos durante horas e horas!
    É urgente, pelo menos na TV publica acabar com esse lixo!!


  4. “Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País”

    Futebolização desde o fanatismo popular tuga até a níveis de poder e decisão inimagináveis há décadas atrás ! E a nível mediático chega a ser criminosamente agressivo ( sendo propositadamente com fins de não desporto mas de estupidificação de audiências e mentalidades, tudo em nome de mercado obsceno ! )
    E não só por estes dias, desde há bastante e demasiado tempo destes dias sombrios que vivemos.
    Felicito-o, Pedro Correia.


  5. Mas ainda alguém vê televisão?

  6. Nuno M. P. Abreu says:

    Um artigo que levanta questões de premente necessidade de discussão na sociedade portuguesa. O nível de debate político baixou tanto que uma decisão sobre onde devem incidir os impostos se tornou menos profunda que a discussão de um fora de jogo. Hoje, quem comenta estes são os mesmos que comentam aqueles com a mesma ”isenção” e cinismo.
    É verdade sim que o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal. Demonstra-o claramente Yuval Noah Harari no seu trabalho “Sapiens – de Animais a Deuses”.
    O sapiens sapiens só derrotou o neandertal porque criou uma linguagem que lhe permitiu mexericar e inventar totens e mitos. Ter uma bandeira comum permite agrupar antes desconhecidos e lutar por uma causa. Os nossos antepassados chimpanzés só constituem grupos no máximo de 150 indivíduos, porque tem de se conhecer todos entre si para poder confiar. O sapiens sapiens criou mitos agregando todos mesmo desconhecidos desde que acreditem neles.
    O que evoluiu nas sociedades foi a natureza cada vez mais consciente e fundamentada das bandeiras que nos unem. Mas, em Portugal, ainda somos tão atrasados que somos capazes de perder o tino, idolatrando leões, águias, ou mesmo essa fantasia representada por um dragão e agora por um pinto..

  7. Pedro Correia says:

    Foi um prazer escrever neste vosso blogue, hoje tão vivo e dinâmico (e bem escrito) como no dia em que comecei a lê-lo, há dez anos.
    Abraços.

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