A vez dos camionistas

Na falta de fogos, saiu a lotaria às televisões com esta greve dos camionistas. As “reportagens” do fim-de-semana foram mais um exemplo de preenchimento de tempo de antena sem existência de notícia. Nalguns casos, a “reporter” dizia que até havia menos afluência ao posto de abastecimento do que nos dias anteriores. Noutros, afirmava-se que o combustível ainda não tinha faltado – ou seja, constatava-se a normalidade e, consequentemente, a ausência de notícia.

Ana Sá Lopes diz no PÚBLICO o que há a dizer sobre este gigantesco spin em curso.

Quem passou o fim-de-semana a ver notícias assistiu provavelmente à mais acabada operação de agitação e propaganda de um Governo tendo como pano de fundo uma greve de camionistas. A programação milimétrica da operação de agit-prop – com vista à conquista do eleitorado da direita órfã e obtenção de um propulsor para a maioria absoluta – demonstra um tacticismo que pode funcionar em termos eleitorais mas que, de caminho, atira para o lixo bebés e água do banho. A ala esquerda do PS, protagonizada pelo ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, acabou de cometer suicídio e parece que não percebeu. Estas coisas pagam-se caro, com juros, mais tarde ou mais cedo.

Virar uns contra os outros não é novidade. Professores, juízes, maquinistas, revisores, médicos, oficiais de justiça, reformados, enfermeiros e todos os que ousaram organizar-se para procurar melhorar a sua situação já levaram com o mesmo rolo compressor, tudo potenciado por 3 canais de televisão que precisam de encher horas e horas de emissão com qualquer coisa – sangue de preferência, que é do que gostam os portugueses. Até que lhes calha a vez de serem eles mesmos a besta a ser degolada. Ou alguém acredita que os enfermeiros ou os professores, por exemplo, tiveram a solidariedade dos motoristas de materiais perigosos quando os primeiros estiveram em greve?

Dividir para reinar continua a funcionar com eficácia. É só uma questão de tempo até que chegue a vez a cada um dos portugueses para fazer parte do grupo odiado nesse momento. Entretanto, vamos lá bater nos motoristas de pesados, que até recebem mil e oitocentos euros por mês, apesar de o salário base andar nos 630 euros brutos (o valor pago em extras ao salário base parece não espantar ninguém).

Comments

  1. ayresesteves says:

    O governo do PS de António Costa ao lado dos patrões;” hoje de manhã que a Antram subornou os primeiros motoristas que saíram de Aveiras de Cima, Lisboa, para iniciarem funções no primeiro dia de greve”!
    A luta vai ser dura para os motoristas, porque burguesia reacionária, e os partidos políticos, que tem estado nos sucessivos governos, sempre estiveram contra as greves!
    Rua com os Migueis de Vasconcelos!
    Viva a Luta dos Trabalhadores Motoristas!
    Nem fascismo nem social-fascismo

  2. Rui Naldinho says:

    Há dias escrevi aqui neste blogue, que a CS hoje funciona mais como um agitador de fantasmas do que um mero informador dos acontecimentos, quanto mais um gerador de noticias. Aquilo está tudo mais ou menos programado para manter a “adrenalina do Tuga, sempre em níveis de toxicidade elevada, mantendo-os alienados”. As redes sociais não funcionam mehor em termos de ajavardamento da informação, do que esta CS.
    Ao longo dos últimos 8 anos temos assistido um degladiar de “peixeiras na praça pública”, as minhas regalias sociais e o meu salário são piores do que o teu, portanto vai-te lixar. Tudo promovido pela CS com os seus avençados de opinadores. Eu até aceitaria este desiderato, mesmo discordando do método se no final fôssemos todos beneficiados, melhorado as condições de vida. Ao invés isto tem só uma finalidade. Diminuir rendimentos a todos sem beneficiar ninguém em especial.

    Anda a correr nas redes sociais um pretenso boletim de vencimento de um motorista de pesados de transporte de matérias perigosas, com um ordenado líquido de 1890,0€.
    O que interessa não é o montante auferido num mês especifico que até pode nem repetir-se. O facto é que a remuneração base daquele homem é 630,0€, com um desconto de 160,0€ para a Seguança Social. Isto significa que no final da sua vida profissional aquele motorista irá auferir uma reforma muito pequena, a rondar os 550,0€.

    • Rui Naldinho says:

      950,00€ de Reforma, e não 550,00€, como erradamente está escrito.

    • j. manuel cordeiro says:

      O valor que terão na reforma é um tópico importante. Não menos importante é o facto de os descontos totais serem apenas de 18% do vencimento total bruto. É um esquema de que falo num post a sair mais logo.


  3. Isso é tudo muito bonito, mas eu, que até nem tenho televisão há uns bons anos e por isso mesmo não estou contaminado pelas televisões do regime, acho que há aí alguma coisa que cheira mal. Paradoxos dos tempos modernos: então os motoristas ganham assim tão mal, e mesmo assim marcam uma greve por “tempo indeterminado”?

    Pergunta: quantos portugueses, que têm que comer e pagar as suas contas, poderiam estar sem receber por “tempo indeterminado”?


  4. “Virar uns contra os outros não é novidade.”

    Uma evidência irrefutável.

    Mas a questão que se pode levantar é a seguinte: quando uns e outros se “deixam” virar uns contra os outros e porquê.

    E, na minha opinião, esta greve continua a parecer-me muito mal explicada.

    Será que a luta contra o neoliberalismo despoletou o aparecimento do neosindicalismo?

    Se assim for, vou utilizar as palavras da Ana Sá Lopes:

    “Estas coisas pagam-se caro, com juros, mais tarde ou mais cedo.”

  5. Dora says:
    • E o burro sou eu ? says:

      Qual é o problema ?
      Os bata preta usam de todos os truques e demagogias.
      Isto e este sujeito, não tem nada a ver com os motoristas, que são apenas uma boleia para os seus projectos.

  6. Samuel Clemens says:

    Estarei bêbado? Foi o governo quem convocou esta greve? A greve de um sindicato mixuruca de camonistas? Para mostrar à direita que sabe roncat?
    Oh Aventar,vais provar o que dzes, porque a anedota é tão gira que,se verdadeira,é a melhor do dia!

  7. António Lopes says:

    Cheira-me que, com estes comentadores, este Aventar já não vai durar muito…

  8. j. manuel cordeiro says:

    Acho sempre um piadão a estes comentadores que atiram a toalha ao chão dizendo, por exemplo, que nunca mais cá voltam. E aos que aventam a desgraça do blogue caso não se passe a publicar de acordo com a sua cartilha. Obrigado, já deu para um sorriso.

  9. Julio Rolo Santos says:

    Mas os fogos são mais divertidos e lucrativos para quem os alimentam. Já as greves dos motoristas, mesmo que não se saiba da sua justeza, refletem a pequenez daquilo que somos