Crónica de uma morte anunciada

Governo: “processo de mediação” chegou ao fim, Antram não negoceia com greve
Hipótese de mediação durou quatro horas. Governo confirmou que ficou por terra perante a posição da Antram de não negociar com a greve em curso. Sindicato independente de mercadorias reúne-se com Governo e tem a suspensão da sua greve em cima da mesa. [PÚBLICO]

Com o governo do lado do patronato, fornecendo motoristas e patrocinando um acordo com outra central sindical, a ANTRAM não tem um único motivo para aceitar negociações.

Entretanto, ANTRAM e SIMM estão reunidos. Se sair mais um acordo, fica o xeque-mate ao SNMMP a um passo.

E fica claro quem manda no país. Dica: não é o governo.

Adenda: Aí está: Sindicato de Mercadorias desconvoca greve. Governo lança apelo ao SNMMP. Agora só falta os 78% dos camionistas associados do SNMMP concordarem em ficar de mãos a abanar.

“A Fectrans escolheu a via negocial e consegui resultados, o SIMM decidiu-se pela via negocial e pretende também conseguir avanços, falta o SNMP”, disse Pedro Nuno Santos [DN].

Governo e patronato de mãos dadas na velhinha táctica de dividir para reinar.

Comments

  1. Julio Rolo Santos says:

    O governo está do lado do país como lhe compete. Se há quem esteja a beneficiar com a greve não são os camionistas como a seu tempo se verá.

  2. Rui Naldinho says:

    Esta greve já teve uma vitória. Mesmo que os camionistas de matérias perigosas acabem por ceder. Foi uma vitória contra a hipocrisia do governo e dos políticos em geral. Este percebendo que tinha de mostrar serviço, e algum distanciamento mesmo que artificial entre as partes, pressionou a ANTRAM a concluir um acordo com os outros sindicatos do sector dos transportes, que diga-se em abono da verdade, também estava a marinar há meses. Mas mais, obrigou a Seg. Social vir a terreiro assumir que os descontos devem incidir sobre “toda a base tributável”, o que devia ser uma evidência, e não uma declaração de intenções.
    A mediatização deste conflito veio também mostrar aos portugueses em geral, como para além da propaganda governamental ou dos “fait divers” da CS, onde o importante são as golas, ou a prima do ministro, Portugal é um país cheio de espertalhões. A partir de agora e nos próximos anos, o governo vai estar sob forte pressão dos sindicatos e dos partidos que quiserem fazer mesmo oposição, obrigando-os a demonstrar que o combate à economia paralela é uma prioridade.

  3. Julio Rolo Santos says:

    Espera-se, que depois de reposta a legalidade tributária, os sindicatos e os camionistas não venham exigir novos aumentos, novamente por baixo da mesa, para compensar o que lhes é retirado com os descontos sobre a totalidade dos benefícios vigentes.

    • j. manuel cordeiro says:

      É muito simples. O patronato só precisa de aumentar o valor bruto para que o valor líquido dê o mesmo.


  4. PCP: Paralisação por tempo indeterminado pode contribuir para “limitar direito à greve”
    “Não haja a menor dúvida: o PCP é inteiramente solidário com os trabalhadores do setor e as suas reivindicações”, afirmou Jerónimo de Sousa

    “Tendo sido ontem obtido um protocolo de acordo com novos avanços, no plano dos salários, dos direitos e das condições de trabalho, é necessário que se finalizem as negociações, que os motoristas beneficiem da aplicação desses avanços em 2020, sem prejuízo da negociação para os próximos anos, e que seja garantida uma intervenção da Autoridade das Condições de Trabalho de modo a combater o desrespeito por parte do patronato dos direitos acordados”,
    defendeu ainda o secretário-geral do PCP.

    https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/pcp-paralisacao-por-tempo-indeterminado-pode-contribuir-para-limitar-direito-a-greve-479312

  5. Paulo Marques says:

    Isto é a famigerada não intervenção do estado na economia, certo? O que vale é que os Estados estão ultrapassados…

  6. Rui Manuel Fernandes Ferreira says:

    “Antram não negoceia com greve”.
    A Antram não pode querer algo que não lhe compete. Se a greve é dos motoristas só estes é que a podem terminar.
    A Antram deve fazer o que lhe compete e terminar com os atropelos à lei no que a remuneração dos trabalhadores diz respeito.

    • Luís says:

      Mas o SIMM levantou a greve para negociar com a Antram ou só a parou depois de negociarem?
      É que a Antam não negoceia com grevistas.


  7. E porque a informação para conhecimento correcto do que tanto nos está a atingir se me tornou necessário,
    transcrevo em jeito de partilha mais esta excelente análise amplamente abrangente desta questão, que acabei de ler :
    ( com a devida vénia ao autor )

    «A greve dos motoristas de matérias perigosas fez emergir um conjunto de perplexidades. A primeira, que se coloca ainda antes de assistirmos às imagens das filas intermináveis de carros em postos de abastecimento ou à greve propriamente dita, é sobre a organização de todo o setor.

    Alguém acha normal que as empresas petrolíferas, com centenas de milhões de euros de lucros por ano (só a Galp teve um lucro de 707 milhões em 2018), quase não tenham motoristas de matérias perigosas nos seus quadros de pessoal? Mais, alguém explica como é que toda a operação de distribuição deste setor está dependente de jornadas de trabalho de 14 horas? Ou, ainda, que o salário dessas longuíssimas jornadas de trabalho quase toque o valor do salário mínimo, ao que se adiciona um conjunto de parcelas inventadas para fugir a pagamento de impostos ou contribuições para a Segurança Social? Sim, este país real é o faroeste da responsabilidade social das empresas e os lucros milionários só comprovam que a ganância é como o universo, não tem fim.

    Como se chegou a esta situação? O resumo é simples: privatizou-se uma empresa estratégica para o país, dando a uns poucos os lucros que deveriam ser de todos; externalizou-se parte da operação recorrendo-se ao outsourcing para as atividades que anteriormente eram desempenhadas pelos trabalhadores do quadro de pessoal, esperando que a selva do mercado trouxesse a desregulação laboral que ansiavam – o que aconteceu com os motoristas de matérias perigosas; os motoristas passaram de trabalhadores a empreendedores, incentivados a criarem a sua própria empresa – ou contratados por outros nessa situação – perdendo direitos pelo caminho. Ao longo deste processo os lucros aumentaram, a riqueza ficou ainda mais concentrada nos acionistas, e os salários caíram. É motivo para indignação? Claro que é.

    Esta introdução explica o contexto que nos trouxe às lutas de hoje. Para quem achava que esta história era apenas entre interesses privados, fica claro como o poder público está na sua origem e dela nunca esteve desligado.

    Isso ficou bem claro neste processo. O Governo dizia querer fazer a arbitragem do conflito, mas não mostrou distanciamento para ser um bom árbitro. O primeiro-ministro disse que o Governo se preparou para a greve, mas em nenhum momento isso passou por questionar a atuação das empresas.

    Não deveria a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) ter investigado e punido as empresas pelas abusivas jornadas de trabalho, excessos de horas extraordinárias e pela manifesta desadequação dos seus quadros de pessoal? Não deveria a Autoridade Tributária ter investigado a contabilidade criativa que soma complementos ao salário para subtrair aos impostos devidos ao Estado? E não deveria a Segurança Social ter investigado essa mesma folha salarial que retira valor às pensões futuras dos motoristas? Dever, deviam todos, mas não fizeram. Por outro lado, a preparação do Governo terá sido a da folha excel dos serviços mínimos e do parecer jurídico da requisição civil. São precisas mais provas para concluirmos do lado que o Governo está?

    Até a jornada de trabalho de oito horas, cuja luta já leva dois séculos e é um dos pilares da cultura de esquerda, foi negada pelo ministro do Ambiente. Disse ele que “ninguém pode ser obrigado a trabalhar para além do horário de trabalho, mas não digam que o horário de trabalho é de oito horas por dia, porque pode ser de 60 horas”. A bússola política entrou em desnorte e só isso explica que um Governo que se diz de esquerda tenha criado um precedente grave de abuso da lei do trabalho e de limitação do direito à greve.

    Tudo isto salta à vista e, para o ver, não precisamos de concordar com a convocatória da greve, basta algum bom senso e sentido de justiça. A exigência do tempo é de mais diálogo e menos arrogância, de mais negociação e menos provocação. E não está tudo na mesma, até porque os benefícios das lutas já se começam a conhecer. Apesar de ainda não serem públicos os detalhes, será inegável que o acordo alcançado pela Fectrans resulta do atual contexto e tem nele a sua marca. Que os avanços sejam para todos, será o mínimo que se exige. Que a mediação agora pedida seja imparcial é outra condição essencial.»

    Pedro Filipe Soares

  8. Anonimus says:

    Xeque, gaita. Xeque.

  9. JgMenos says:

    Tá tudo estúpido.
    De tal maneira que me vejo na penosa situação de apoiar a tralha socialista!!!

    A ANTRAM pode bem parar um mês que não se incomoda demasiado.

    O país é que não pode parar,um dia que seja.

    A questão é motoristas/país.

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