A democracia ganhou, mas não se livrou do trumpismo

Quando penso naquilo que me move, politicamente falando, a resposta é tão simples quanto a genial Sophia a colocou: movem-me os dias iniciais inteiros e limpos. Dias que fazem renascer a esperança na construção de um mundo e de um futuro um bocadinho melhor. Dias como estes. Dias em que abrimos a janela e sentimos aquela brisa boa da democracia a bater-nos nas trombas, entretanto transformadas em caras felizes, aliviadas pelo ponto final que os Estados Unidos da América decidiram colocaram na era sombria do neofascismo trumpista. Já temos problemas que cheguem no Ocidente, não precisamos de mais quatro anos desse idoso trafulha, com idade mental insuficiente para frequentar um jardim de infância.
A queda de Donald Trump é um balão de oxigénio para o mundo democrático, e isso explica, a meu ver, a forma como, por todo o mundo, mulheres e homens de esquerda e de direita, liberais e conservadores, festejaram a eleição de um candidato de centro-direita, que a narrativa mais fundamentalista acusava de ser um socialista, termo que, nos EUA, ainda significa, para milhões de pessoas, União Soviética (uma espécie de Venezuela, versão old school). Houve mesmo quem afirmasse que Biden tinha um programa comunista, só para termos a noção do patamar de absurdo em que nos situamos. A risota que não terá sido em Wall Street.

Os danos causados pelo trumpismo, porém, são imensos e produziram efeitos nefastos que perdurarão durante muitos anos. Direitos humanos e alterações climáticas são duas das suas vítimas, mas a legitimação do autoritarismo, do ódio e de negacionismos vários, todos eles perigosíssimos, foi solo fértil onde o novo fascismo floresceu, perante o esfregar de mãos de Putin, que apostou no cavalo certo. Caberá agora a todos os democratas, na sua diversidade, unir-se em torno dos valores basilares sobre os quais assentam as sociedades democráticas, a pior forma de governo alguma vez concebida, se excluirmos todas as outras.
O trumpismo, contudo, não acaba aqui. Sobrevive para viver mais um dia, à boleia de 70 milhões de votos, e será chão que dará outros frutos podres, o que é perturbador, pelo menos para aqueles que se identificam com a democracia, e ao mesmo tempo um factor de motivação, com vista a necessária mobilização, nos EUA e fora deles, de um movimento transnacional contra a narrativa da violência, do ódio e da desinformação, pandemias que os seus proponentes instrumentalizam para nos dividir e reinar.
Biden não é, de forma alguma, a escolha que eu faria, se tivesse poder para tal. E eram várias, aquelas que me agradavam entre os candidatos que se apresentaram às primárias. Ainda assim, Joe Biden foi o emplastro possível para a enorme ferida a céu aberto em que se transformou a sociedade e a federação norte-americana, dividida e polarizada, refém da propaganda mais violenta, demagógica e populista de que havia memória desde os tempos do McCartismo, já lá vão mais de 60 anos.
E não compreendo, juro que não compreendo, o espanto daqueles que se espantam com a atenção que é dada, em países como o nosso, às presidenciais nos EUA. Sim, esta eleição diz respeito a todos. Porque são os EUA quem dita as regras internacionais, em particular aquelas que afectam e vinculam directamente as democracias ocidentais, grupo do qual fazemos parte. É claro que nos devemos preocupar. Porque o nosso futuro também se joga ali. E os EUA, com todos os seus defeitos e falhas, continua a ser o pilar que sustem a democracia, mais não seja pela via da dissuasão militar.
Contra a rede terrorista da extrema-direita global, a democracia foi à luta, venceu e sobreviveu. Trump perdeu, Putin perdeu, Bannon perdeu e todos os seus vassalos, de Bolsonaro a Orban, saíram derrotados. Que este dia iniciais inteiros e limpos sejam uma inspiração, para nós e para quem vier a seguir, e que estes quatro bizarros anos nos sirvam de alerta para a importância de defender a democracia, em todos os momentos, com todos os recursos à nossa disposição. Porque a democracia, como quase tudo na vida, não é um dado adquirido e garantido. E se a sua natureza plural poderá permitir que o autoritarismo, ainda que travestido, capture o poder, dificilmente um regime autoritário lhe permitirá lá regressar.

Comments

  1. JgMenos says:

    O apelo à grunharia tanto se faz com o trumpismo como com o corretês esquerdalho com o seu rancho de tadinhos.

    ‘dias iniciais inteiros e limpos’ não se vêm faz tempo.

    • Paulo Marques says:

      Já o corretês do défice tem tado caladinho, ao contrário da iniciativa privada que pede aumento das rendas do estado. Coincidências…

      • JgMenos says:

        Se queres despedimentos e despejos não te ponhas com rodriguinhos de chico-esperto.

        • Paulo Marques says:

          Só falta dizer que vão todos correr a contratar para encher ainda mais os stocks, porque a tragédia dos comuns é uma farsa comunista.

    • António Fernando Nabais says:

      O facto de os dias não se virem há muito tempo deve ser chato, deve.

    • POIS! says:

      Pois não!

      Já há muito que JgMenos não se vê um dia inicial inteiro a vir-se. Aliás, a última vez que lhe aconteceu estava de costas.

  2. Rui Naldinho says:

    Que este dia seja antes demais um dia de reflexão para os Sociais Democratas e Democratas Cristãos do planeta, penitenciando-se pela merda que fizeram nestas últimas duas décadas em que a globalização se tornou no seu próprio calcanhar de Aquiles.
    Precisamos de um mundo melhor, mas onde o capitalismo perceba que sem responsabilidade social, com uma permanente corrupção que quase se tornou endémica, sem estabilidade social, estes déspotas tendem a florescer com facilidade diante de gente sem alternativas sérias aos seus problemas.
    É muito importante implantar uma economia verde, mas sem deixar de fora aqueles que durante décadas não conheceram outro trabalho que não empregos na economia poluente, ou se quiserem dos combustíveis fósseis.
    O que falta neste planeta são estadistas com uma visão de futuro, com espírito de liderança, vinculado s à ética ao ao bem estar da das populações, e não sapateiros que de remendo em remendo nos deixarão mais depressa do que pensamos, completamente descalços.
    Os fenómenos migratórios em grande escala a que assistimos, só são possíveis, porque os principais líderes mundiais outra coisa não fizeram do que semear tiranos pelo mundo fora.
    Queriam o quê?

    • Paulo Marques says:

      O capitalismo não percebe, pois este é apenas um conceito difuso. Já os capitalistas o que percebem é que estão bem é assim, basta enganarem os aspirantes.
      Quem precisava de perceber são os governantes a alimentar estes pedintes a subsídios a que os Venturas não se opõem… mas lá se iam as portas douradas, e ainda tinham o José Gomes Ferreira a chamar-lhes de extremistas.
      Nah, venha a próxima fase, o capitalismo de vigilância com tendências mercantilistas.

  3. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Acho graça quando totalitários como o João Mendes escrevem algo como: “Caberá agora a todos os democratas, na sua diversidade, unir-se em torno dos valores basilares sobre os quais assentam as sociedades democráticas, a pior forma de governo alguma vez concebida, se excluirmos todas as outras.”

    Caberá. caberá, João Mendes… Quem não caberá nesse cenário é o João Mendes e os seus correligionários.

    Por isso por cá urge correr com PCP e BE do poder, bem como com as alas totalitárias do PS, que tomaram comta do partido.

    • Paulo Marques says:

      Totalitário em quê? Ainda estou à espera que algum diga qual é o princípio básico da democracia que não é respeitado; que eu saiba, capitalismo desregulado com o estado a pagar-lhe rendas não é um princípio democrático, quanto mais básico.

      • VTFC says:

        Este Paulo Marques parece aqueles putos chatos sempre a agarrar-nos as calças. É burro pra caralho , mas não consegue estar calado, foda-se não há paciência.

        VTFC

        • Paulo Marques says:

          Os liberachos é que não conseguem apertar os atacadores, mas o burro sou eu. Certo.
          O pelotão da frente é para que década?

          • POIS! says:

            Cuidado Paulo, que está alidar com gente muito poderosa. Nunca ouviu falar dos VTFC,Senhores da Cascaislhota? VTFC é o trato carinhoso que usam diariamente lá na família e que lhes foi transmitido, de geração em geração, pelos seus igréjios avós.

        • anticarneiros says:

          VTFC

          ” É burro pra caralho , mas não consegue estar calado, foda-se não há paciência.”

          Deves ser bimbo, por isso tens alguma desculpa.
          Não dão para mais !

      • Filipe Bastos says:

        Totalitário em quê?

        Num comité central autoritário e todo-poderoso que purga quaisquer dissidentes?

        No branqueamento de ditaduras abjectas, que é imposto a todos os membros, e que levanta dúvidas legítimas sobre os seus propósitos e práticas se chegassem ao poder?

        Na imposição, mais do Berloque, de normas sociais cada vez mais alucinadas sem qualquer validação democrática?

        O PCP e o BE dizem verdades que não ouviríamos sem eles; mas terá de convir que se há coisa que não representam, para ninguém, é a democracia. Adaptam-se a ela por necessidade, não por vocação.

        • Paulo Marques says:

          Ui, coitado, a tortura doeu muito?

          Como quem branqueou Angola, apertou a mão ao Maduro para vender bugigangas, aplaudiu a abertura do mercado aos genocidas do Tibet, quem está calado sobre o genocídio na Palestina, mandou-nos destabilizar o médio oriente, está silencioso sobre a Polónia e Hungria, e por aí adiante?

          Quais normas é que 10% dos deputados impõem? Ainda para mais sem validação parlamentar?

          Quem defende a democracia é quem assina tratados que impeçam que mude grande coisa no país, e não quem quer que o povo tenha alguma coisa a dizer. Certo.

        • Filipe Bastos says:

          Porque me atira as canalhices e hipocrisias do Centrão como se eu as branqueasse? E onde leu que o Centrão defende ou representa a democracia?

          Percebo que queira defender os comunas, mas bate à porta errada: eu sou o que passa o tempo a malhar no Partido Sucateiro, na Laranja Podre, no Paralamento e na partidocracia, lembra-se?

          Já agora, a esquerda ‘identitária’ não precisa de maioria paralamentar: vai impondo o que quer através de coligações e negociatas, neste caso com o PS, da histeria nas redes sociais e policiamento do politicamente correcto. Veja as aulas de ‘cidadania’.

          • Paulo Marques says:

            Porque a prática política obriga a acordos com quem não se gosta; e neste momento o que acontece é o elogio de políticas específicas (saúde e falta de fome cubana, intervenção económica directa da China, …) e não dos regimes.
            Mas, pronto, ensinar direitos humanos, o respeito pelo outro, ou as construções sociais de género são anti-democráticos e equivalentes, fique com a bicicleta.

        • abaixoapadralhada says:

          Filipe Bastos

          Fachistoide escondido.
          As tuas palavras de pseudo esquerda não enganam ninguem


  4. Lá chegaremos!

  5. Filipe Bastos says:

    Triste mundo em que a América, esse hospício sem porta, zoo sem jaulas, é a coisa mais importante do mundo.

    Os EUA seriam sempre um país poderoso, pela dimensão, recursos e população, mas foi a implosão europeia na I e na II Guerra que levou a este descalabro. Tendo a moeda-padrão e os melhores imigrantes europeus (e não só), este gigantesco parasita enrolou-se à volta do planeta e não o larga.

    O João Mendes faz a confusão habitual entre democracia e esta farsa representativa, mas agora acrescenta-lhe a velha propaganda americana do ‘pilar que sustém a democracia’, espero que mais por ingenuidade do que por hipocrisia.

    Sim, o Trampa vai, mas não ‘ganhou a democracia’; isso é daqueles disparates que lemos no Guardian. Ganhou uma máquina pulhítica encabeçada por um fantoche, paga e controlada por mamões, que continuará a perpetuar o mantra capitalista de ganância e egoísmo, a hegemonia americana e esta falsa democracia.

    A vil natureza daquele país-esgoto vê-se às claras no eleitorado do Trampa: é intratável e incorrigível. A gente decente que lá há não chega. Esta é que está lá a mais, não o contrário.

    • Paulo Marques says:

      A moeda padrão acabou nos anos 70 com a impossibilidade da mesma. O petro-dólar não é a mesma coisa, e mesmo as ameaças comerciais/bélicas já não são o que eram com o aparecimento de mais economias desenvolvidas interessadas em troca e trabalhadores qualificados em países estáveis.
      Deixe de pensar em termos neoliberais, que já cheiram a podre.

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