Quando um elogio é um insulto

João Miguel Tavares elogiou os professores. O Paulo Guinote já escreveu que dispensa certos elogios.

O combate às desigualdades sociais é muito complicado, especialmente quando as prioridades dos governos correspondem a outras áreas em que há fartura de desperdício de dinheiros públicos.

Essas desigualdades são especialmente revoltantes quando atingem crianças e jovens. São essas desigualdades que, se combatidas demasiado tarde, provocam atrasos culturais e mesmo cognitivos.

A Escola é, evidentemente, um das armas mais importantes desse combate. Por isso, retirar condições às escolas é criminoso – e os verdadeiros problemas continuam por resolver (número de alunos por turma, delírios curriculares, burocratização inútil do trabalho dos professores).

A dedicação de todos os que trabalham nas escolas é tão evidente e geral como frequentemente desvalorizada. E, na verdade, é nas escolas que muitos miúdos encontram pessoas que, fora da família, fazem alguma coisa por eles. As políticas sociais para a juventude assentam, então, em grande parte, na ausência do Estado e na presença da Escola. Acrescente-se que essa luta é feita, muitas vezes, para lá do que é imposto pela lei.

João Miguel Tavares e muitos outros opinadores chegam sempre a estes problemas com atraso ou acertam ao lado. Na maior parte dos casos, não querem saber. Como, de certo modo, já está instituído que as políticas sociais para a juventude se limita às escolas, o facto transformou-se em direito e passou a exigir-se às escolas que resolvam todos os problemas relacionados com a infância e com a juventude.

A pandemia trouxe, evidentemente, incertezas, a começar pela verdadeira natureza da própria pandemia. Em todo o mundo, uma das estratégias foi o confinamento. Fechar os alunos em casa foi, em muitos casos, uma tragédia, porque, repita-se, as políticas sociais para a juventude estão reduzidas às escolas, o que quer dizer que foi muito mais difícil apoiar os alunos com dificuldades económicas, sociais ou culturais.

Quando se decidiu desconfinar, João Miguel Tavares escreveu um texto insultuoso para os professores, em que, resumindo, fez referência à “perda progressiva de um sentido profundo de dever cívico por parte de muitos professores”, esperando que os professores pusessem “os interesses dos miúdos à frente de tudo o resto”, como se isso já não fosse um hábito. Tendo em conta esta ideia negativa relativamente aos professores, colocou a hipótese de haver uma “explosão de baixas médicas e de todo o tipo de resistência ao ensino presencial”.

Pelos vistos, não foi isso que se passou, mesmo que os professores corram efectivamente riscos e mesmo que os principais problemas continuem por resolver, com ou sem pandemia. Mas nada disso interessa a João Miguel Tavares.

Imagine o leitor que alguém põe em dúvida a sua honestidade, prevendo a possibilidade de que o leitor venha a cometer um acto condenável. Imagine que essa mesma pessoa, verificando que o leitor se portou com seriedade, o elogia por isso. Na minha opinião, não é caso para elogiar e sim para pedir desculpas, mesmo sabendo que é sempre melhor evitá-las do que pedi-las.

Rejeito, portanto, o elogio de João Miguel Tavares.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Começando pelo óbvio, que raio interessa o que o chuleco João Miguel Tavares elogia ou deixa de elogiar?

    Que vantagem, que insight nos trazem os bitates do Tavares? Que autoridade ou experiência tem ele que mereça tanta relevância e exposição? Que fez ou faz na vida além de bitaitar?

    Não só ele, todos os comentadeiros, como o badocha Pedro Mexia, o Pedro ‘Cabeça de Porco’ Marques Lopes, ou o esquerda-caviar Araújo Pereira: porque passamos a vida a comentá-los?

    A educação é realmente um buraco negro agravado por todos os governos, e muitos professores são injustamente responsabilizados quando não passam de vítimas do cancro ministerial, tal como os alunos. Seja o que for que o Tavares diga.

    Por outro lado, e disto o Nabais já não gosta, alguns professores sempre foram cúmplices da bandalheira; e alguns esperam que a ‘pandemia’ dure muito tempo. O salário é certo ao fim do mês.

    • António Fernando Nabais says:

      Disto, o Nabais já não gosta, diz o Filipe, com a mesma profundidade que o João Miguel Tavares usa para escrever crónicas.
      Ainda bem que o Filipe apareceu na minha vida para que eu, com mais de trinta anos de serviço, descobrisse que há “alguns professores” que não são dignos da profissão. Obrigado, Filipe, por me ter arrastado desta imensa ingenuidade, desta minha crença na perfeição da minha classe profissional.

      • Rui Naldinho says:

        Tenho lido algumas coisas do Filipe. Começo a acreditar que o homem é um novo Messias. Não sei de onde veio, mas de certeza foi para nos salvar. Salvar da ignorância atroz em que vivemos, pela sua prosa escorreita, cheia de certezas de nada. Apenas sabemos por ele, que nesta terra sagrada, à beira mar plantada, todos os cidadãos são corruptos, menos alguns. Não sei se estará a referir-se ao JgMenos.
        Admito no entanto estar equivocado. Pois também tivemos um gajo que ainda fala, qual alma penada, não era político profissional mas esteve vinte anos ligado a ela, fora o tempo de permanência no BdP e como Ministro das Finanças de Sá Carneiro. A sua pureza de lama e a sua sã ingenuidade era tal, que tive de morrer e voltar a nascer para o conseguir entender. Chamaria a isso ressurreição. Só a partir daí, numa segunda vida, já com uns quantos fusíveis a mais na mona, do que na primeira, percebi quem era Cavaco Silva.
        Um grande impostor!

    • Filipe Bastos says:

      Ah, sabe disso? Óptimo, Nabais, óptimo. É que nada nos seus textos o dá a entender.

      E nestes tempos de maniqueísmo esquerda-direita, qualquer nuance é rara: tudo do nosso lado é fantástico, tudo do outro é horrível. Se um professor sabe – e admite – que muitos professores são chulos e baldas, menos mal. Obrigado, Nabais.

    • Paulo Marques says:

      O interesse é que os ditos fazem política por outro nome e com outros meios, mas não deixa não só de ser política, como muitas vezes jogatana política (logo quem…).
      Claro que há professores cúmplices, é para isso que são pagos.

  2. Luís Lavoura says:

    Fechar os alunos em casa foi, em muitos casos, uma tragédia, porque, repita-se, as políticas sociais para a juventude estão reduzidas às escolas

    Eu diria que não foi somente por causa das políticas sociais mas, principalmente, porque a educação ficou em boa parte por fazer. Quando as escolas fecham, quem mais sofre com isso são os alunos com mais dificuldades educativas.

    Eu diria que, de todos os imensos disparates que foram feitos pelo nosso governo (e pelos de outros países) nesta epidemia, o pior disparate foi ter encerrado as escolas. Felizmente nesta segunda fase o governo parece ter tomado consciência de quão grave e inútil isso era e insistiu – muito bem – em manter o mais possível as escolas abertas.


  3. Concordo! Acontece coisa parecida na Saúde, onde muitos problemas sociais é ali que se “tentam resolver”. A “burocratização inútil do trabalho” é um problema da administração pública que urge resolver. O “sistema” que obriga a registos de tudo e mais alguma coisa está a dar cabo das profissões. Em muitos casos, passa-se mais tempo a “registar” o que raramente se lê, do que a “fazer”, o que é altamente desmotivante.

  4. Jose says:

    Ola António Fernando Nabais, subscrevo na integra o seu artigo. Como professor verifico diariamente o que escreveu. E atesto o quao importante é para um aluno cumprimenta-lo pelo seu nome, elogia-lo quando tem sucesso e relativizar o seu insucesso, incentivando-o, falando com ele seja do que for, pois os pais hoje em dia, não têm tempo para eles, saem de manha cedo e veem tarde cansados, chateados e sem paciencia, para falar com os seus filhos. Somo nós, professores, os pais e as maes dos alunos, que lhes ensinam não só a materia preconizada no programa mas tambem quase tudo o resto que um adolescente precisa de saber.

  5. Filipe Bastos says:

    Sendo recente no café de bairro chamado Aventar, que parece frequentado pela mesma dúzia há anos – o ‘centrista moderado’ Naldinho, o cerebral Paulo e a sua versão ‘bruiser’ POIS, o ameno Lavoura, a mascote JgMenos, etc. – é normal certa acrimónia.

    Espero provocar, detesto os fóruns onde todos concordam e dizem as mesmas coisas. Que raio vão as pessoas lá fazer? Se procuram palmadinhas e catarse colectiva que se juntem a um clube.

    Há aqui demasiada ‘moderação’ e paninhos quentes. São brandos com chulos e corruptos, a começar pela máfia sucateira do PS, e com o putedo – sim – que nos desgoverna e arruína há 40 anos. Como muitos, confundem pulhítica com política. Não pode ser.

    • POIS! says:

      Pois pois!

      Lá por o Sr. Bastos merecer amplamente apanhar com um camartelo na cabeça não é razão para apelidar de “bruiser” seja quem for. Tenha maneiras ou ainda acaba debaixo de um pilar da terceira travessia do Tejo! Depois diga que não foi avisado!

    • António Fernando Nabais says:

      Pois (peço desculpa pelo plágio) não pode ser. Força, Filipe.

    • Paulo Marques says:

      Meia dúzia de anos? Isso são os iniciantes. Se acha que dizemos e defendemos o mesmo, isto anda mesmo cada vez pior. É de ter que andar sempre a defender o mínimo da civilização sem chegar muitas vezes ao que queremos. Efeitos da pandemia eurófila.
      O problema é se são todos chulos, não fica ninguém. O país de Morais e Bastos seria ingovernável porque não havia com quem fazer contractos, e só podiam concorrer pessoas que aceitassem uma carreira de 4 anos durante a vida, a passar em cargos públicos, para serem virgens impolutas.

  6. Manuel Matos says:

    peço desculpa pela minha intromissão nesta conversa de adultos, mas parece-me que elogiar os professores quando eles se anulam enquanto tal coisa e ignoram ou fingem ignorar os seus legítimos interesses é algo, no limite, comparável a um senhor dizer ao seu escravo: bravo! continua com o teu bom trabalho de escravo! elogio ao qual o escravo responde, obviamente, obrigadinho, obrigadinho mesmo!

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