O sucesso dos alunos depende pouco do meio socioeconómico


Um estudo divulgado pelo Público de hoje defende que o meio socioeconómico de origem e a idade dos alunos têm um peso de 30% no sucesso escolar dos alunos, dependendo os restantes 70% do trabalho realizado nas escolas. O estudo é, ainda, realçado positivamente no editorial do jornal.

Seria interessante ler o estudo e perceber como se consegue alcançar os valores referidos. Não o conheço e não sei se virei a conhecer, mas há algumas coisas que me intrigam.

Em primeiro lugar, das quatro investigadoras apenas uma, Maria de Fátima Pinto, está ligada ao ensino não universitário. De resto, numa investigação apressada que poderá conter falhas, descobri que Cláudia Sarrico é Licenciada em Engenharia e Gestão Industrial, Margarida Cardoso é assistente do Instituto Abel Salazar nas áreas de Bioestatística e Epidemiologia e Maria João Pires é Licenciada em Engenharia Química. Não é impossível que estas três respeitáveis senhoras possam perceber imenso de Educação básica e secundária: Rómulo de Carvalho licenciou-se em Ciências Físico-Químicas e escreveu uma monumental História da Educação em Portugal, por exemplo. É claro que há o pormenor de ter sido professor do ensino liceal durante 40 anos.

Finalmente, parece-me muito pouco científica a terminologia que divide as escolas em quatro grupos: escolas de elite, à sombra da bananeira, que surpreendem e fatalistas. Não, não estou a brincar.

Comments

  1. Só falta acrescentar que a senhora que sabe onde fica uma escola trabalha no ensino básico e o estudo parece ser sobre o secundário. Não é bem a mesma coisa, mas enfim, já está mais perto.

    • Fernando Nabais says:

      Pois, essa senhora ainda investiguei menos. E também não sabemos se alguma das outras senhoras vive no mesmo prédio de algum professor do ensino secundário. Os meus vastíssimos conhecimentos de Química, por exemplo, devem-se ao facto de ter tido uma vizinha farmacêutica que cumprimentava no elevador. Isto só para teres uma ideia das coisas que eu sei.

      • E depois há aquele gajo, o Bourdieu, que demonstrou exactamente o contrário no século passado. Mas não conta, parece que a epidemiologia não era o seu forte.

        • Fernando Nabais says:

          Como é evidente! Como é que alguém sem formação em epidemiologia podia explicar a importância do meio no sucesso dos alunos?

  2. Telmo Barbosa says:

    Meus amigos, o que mais me choca nesta noticia é o simples facto de deitarem a culpa na Escola…. toda a gente sabe, que a culpa, essa sim é dos professores, essa cambada de burros com livros debaixo do braço, na qual eu orgulhosamente me incluo. Vá lá não sejam maus relativamente a formação académica das senhoras, vocês ate se esquecem que temos um 1º IHNGINHEIRO….

    • Fernando Nabais says:

      Se essas dos burros era comigo, ainda levas um coice, mas só na Segunda e no segundo intervalo da manhã! E é que puseste o dedo na ferida: este estudo, financiado pelo Ministério e escrito por especialistas em gestão das epidemias e administração da indústria estatística, tem todo o aspecto de servir para continuar a não resolver os problemas sociais – que passam a não existir – para fazer de conta que a escola, afinal, é que vai resolver tudo. Se não resolver, a culpa será dos 70%, ou seja, dos burros. Entre tanta pergunta para fazer, há uma outra que sobressai: quanto terá gasto o Ministério com este estudo que os burros também vão pagar?

  3. Ana Costa says:

    Ao ler isto, não posso deixar de me questionar se as senhoras que realizaram este estudo terão ido a alguma das (várias) escolas do país inseridas em bairros onde predominam famílias muito carenciadas, muitas delas dos PALOPs e de etnia cigana. Famílias onde a preocupação é ainda se haverá comida para todos ao jantar. Onde se os miúdos vão para a escola é para garantir o rendimento mínimo em casa e onde não há quem se preocupe em saber como vai a escola, muito menos em criar condições em casa que permitam que uma criança ou um jovem estude. Onde miúdos vivem essencialmente na rua e começam cedo a frequentar meios violentos e onde a droga é vulgar. Onde as alunas abandonam a escola porque se “casam” aos 13 anos. Onde uma parte importante das crianças é entregue aos avós (normalmente à avó, do avô já ninguém sabe) com meses de idade. Ou admitem que este tipo de jovens não chega ao secundário e que por isso não contam?

    Dizer que o que define o sucesso dos alunos é a escola e não o meio é gozar com quem trabalha no terreno. É ignorar a realidade. É um estudo que não pode ter sido feito de forma séria. Aliás, os termos “escolas à sombra da bananeira” e “esticar os alunos”, dizem tudo. Sem credibilidade. Pago pelo ME, pois então.

    http://eanossaescolinha.blogspot.com/2011/01/estatisticas-no-pais-das-maravilhas.html

  4. O estudo é feito com base nos dados dos alunos – idade (se passarem sempre de ano, serão melhores alunos do que os que chumbam), sexo (as raparigas são melhores alunas do que os rapazes), profissão e escolaridade dos pais, taxas de transição no 10.º, 11.º e 12,º anos e resultados nos exames de Matemática e Português.
    É feito com base nos dados da escola – os professores são ou não do quadro (depreende-se que os do quadro têm mais experiência do que os contratados), a taxa de absentismo (um professor que falta não ensina), número de alunos por turma (as turmas mais pequenas são melhores?). É com base nestes factores (e nas permissas que estão entre parentesis) que as investigadoras calcularam o valor esperado para o desempenho dos alunos (através de uma fórmula matemática) e é com base nesses dados que as mesmas investigadoras definiram as categorias por que dividem as escolas (que podem ser contestadas! em inglês soa melhor – coasting schools – do que em português – à sombra da bananeira – é que o estudo está em inglês).
    As investigadoras fizeram ainda 12 estudos de caso (essa notícia não está no online do PÚBLICO, mas está na edição impressa de ontem) com três escolas de cada uma das categorias que definiram. Portanto, as investigadoras foram pelo menos a 12 escolas onde falaram com directores, presidentes do conselho geral, responsáveis pela auto-avaliação e chefe dos serviços administrativos; todas essas escolas já tinham sido submetidas à avaliação externa da IGE.
    Não me parece que sejam pessoas tão pouco experientes na matéria. Cláudia Sarrico fez trabalhos semelhantes para o ensino superior, em Inglaterra (onde fez o doutoramento) e em Portuga; fez parte do grupo de trabalho que preparou a avaliação externa das escolas pela IGE – o grupo que propôs que dados que devem ser recolhidos nas escolas para auxiliar os avaliadores e inspectores a analisar os resultados e vai às escolas.
    Também podemos por em causa os resultados da avaliação externa! Aliás, podemos por sempre tudo em causa!
    Sinceramente, não me parece que as investigadoras atribuam culpas às escolas e aos professores. Aliás, no mesmo dia, saiu outra notícia ligada a esta (que também não está no online, mas no papel) onde um investigador (mais um) norte-americano diz que os professores é que podem fazer a diferença, não o dinheiro que se injecta no sistema! BW

    • Ana Costa says:

      Quando diz que “Sinceramente, não me parece que as investigadoras atribuam culpas às escolas e aos professores”, e depois leio na notícia que “Os bons resultados dependem (…) 70 por cento (…) exclusivamente do trabalho feito pelas escolas”, alguma coisa não é coerente. Porque se as investigadoras não atribuem culpas às escolas, a jornalista atribuiu. Não consigo ler de outra maneira. Lamento.

      • Não compreendo a sua dúvida. Se 30 por cento é o background do aluno; 70 por cento é a escola. Acha que 70 por cento é muito, é isso? O que na conversa que tive com a professora Claudia Sarrico ela me dizia é que há escolas que dizem: “Não posso fazer nada, é o meio social em que me encontro”; outras fazem coisas, fazem projectos, puxam pelos alunos. Mas o enfoque delas nem sequer é nas fatalistas (nas “más”, leia-se com maus resultados nos exames); é nas que estão encostadas à sombra da bananeira, ou seja, naquelas que têm alunos com um bom background e que podiam fazer melhor. A jornalista não atribui nada porque a jornalista é jornalista, não é investigadora, nem opinadora! BW

        • Ana Costa says:

          Pois é isso mesmo. Acho 70% muito. E dizer que o sucesso dos alunos depende pouco dos pais, acho que vai completamente contra a sensibilidade que quem está no terreno. Pode mostrar-me os estudos que entender. As senhoras visitaram, nas suas contas, pelo menos 12 escolas. É pouco. E ainda mais se a amostra for seleccionada. Mas como o ME não permite a divulgação das escolas, estamos na mesma. Eu de facto, não li o estudo. Só li a sua perspectiva do estudo. E, enquanto professora há mais de 10 anos que já passou por todo o tipo de escolas, tenho a dizer-lhe que as conclusões só podem ser entendidas considerando uma amostra muito direccionada dentro de alunos que chegam ao 12º ano e realizam exames. Não pode ser generalizada. Mas de facto, e se me é permitida a crítica construtiva, foi isso que fez quando entitulou a notícia de “sucesso dos alunos depende pouco de quem são pais”. No fundo, foi isso que gerou o descrédito na notícia. Mas esta é só a minha opinião. Que vale o que vale.

          • Ana Costa says:

            intitulou, não entitulou, claro…

          • Mas as notícias têm de ter títulos apelativos para serem lidas! Note, apelativos não é sinónimo de mentirosos! Neste caso, este era o título que melhor cabia naquele espaço, sem desmentir o estudo. E claro, estamos a falar de alunos do 12.º ano (muitos ficaram para trás, ou seja, teria interesse fazer este estudo daqui quatro anos, altura em que os alunos que estão agora no 8.º e sujeitos à escolaridade obrigatória de 12 anos chegam ao 12.º), a grande maioria sem apoio de acção social escolar (77,9 por cento). Obrigada pela sua opinião! BW

        • ” Se 30 por cento é o background do aluno; 70 por cento é a escola.”

          Não – e as idiosincrisias pessoais de cada aluno, por exemplo?

    • Bárbara, as senhoras “só” chegaram a uma conclusão que contradiz por exemplo toda a investigação do Pierre Bourdieu.
      Só um exemplo: o que é o absentismo de um professor? O número de dias em que faltou num ano lectivo? Parece mas não é: 1º porque pode ter faltado mas ter sido substituído, 2º porque num Curso Profissional ou num CEF mesmo que falte tem de leccionar todas as aulas e 3º porque a média não ponderada das faltas dos professores numa escola é perigosa, dado por exemplo que um professor em situação de doença prolongada e não substituído baralha as contas.
      O problema destes estudos, quando feitos por investigadores que não conhecem o meio que estão a estudar, é facilmente caírem em erros grosseiros deste género.
      Isto já para não discutir a falta de cientificidade da moda econométrica, uma numerologia mais que ideológica, que tenta quantificar tudo, incluindo o que não pode ser traduzido em meros números.

      • Absentismo: exactamente! Por isso, explicou-me a investigadora, na “equação” (este termo não é o mais correcto, mas agora não me ocorre melhor para explicar) não é dada muita importância ao absentismo. No caso das contas delas, a média do absentismo é de seis dias, mas não é tido em conta precisamente por causa das aulas de substituição. Neste estudo são só tidos em conta os cursos gerais do secundário, o 12.º ano.
        Quanto ao resto da discussão, já não leio o PB desde a faculdade, não sei se a moda econométrica é ideológica ou não. Desculpe. BW

    • Pai exigente com a real educação (e formação para a cidadania) do filho says:

      Para já, só um pequeno reparo. Uma senhora que é jornalista num jornal tão importante, e que tem um blogue sobre, pasme-se, educação (pois, não é sobre tricot, nem sobre o jogo da sueca), escreve “permissas”…

  5. Telmo Barbosa says:

    Boas, afinal com quantos Professores falaram as investigadoras????? Directores de Turma??? Professores Tutores??? Directores de Curso??? Pois…. acho que sei a resposta….

    • Ana Costa says:

      Directores de curso não pode ser porque se referem só ao ensino profissional, não é? E o estudo concentrou-se só mesmo nos alunos do 12º ano que fizeram exames, quer dizer, um nicho dentro do universo dos estudantes…quando se estudam nichos de mercado, os resultados conseguem surpreender, não é?

  6. Telmo Barbosa says:

    Obrigada pela correcção, exactamente. Bem se fosse analizado o profissional, os CEF e também arrisco os EFA, acho que a equipa de investigação iria ter…. …. …. não consigo arranjar o termo mais correcto…, bem, fiquemos pela “enormeeeee surpresa”.

  7. Telmo Barbosa says:

    Ahhh o Fernando é assim, faz tudo para os pessoal ter um inicio de fim de semana divertido, com publicações de artigos com alguma piada. Abraços

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